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Palestra sobre desastres climáticos e ações de prevenção abre programação do segundo dia da Casa da Ciência

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A Casa da Ciência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA), recebeu nesta quarta-feira (12) a palestra magna Desastres Climáticos no Brasil e no Mundo, ministrada pelo chefe regional do Escritório das Nações Unidas para a Redução de Riscos de Desastres nas Américas e Caribe, Nahuel Arenas-García. A apresentação abriu a programação do dia da sede da pasta durante da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorre até o dia 21.  

Arenas-García trouxe dados sobre o aumento da frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos em todo o mundo, que já representam mais de 90% dos desastres registrados na América Latina e no Caribe. Ele destacou que novos eventos demonstram a urgência do tema, citando o tornado que devastou 90% da cidade de Rio Bonito do Iguaçu (PR) no início de novembro, resultando em seis mortes e mais de 800 feridos. 

O representante da ONU ressaltou que, embora os impactos sejam cada vez maiores, os investimentos em prevenção ainda são insuficientes. “Na América Latina e no Caribe, os governos destinam de 0,1% a 2,3% do orçamento nacional para a redução do risco de desastres. Mas vimos, por exemplo, perdas de US$ 15 bilhões apenas com o desastre no Rio Grande do Sul. Não estamos investindo em prevenção, mesmo sabendo que cada dólar investido em infraestrutura resiliente pode economizar quatro em recuperação”, afirmou. 

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Redução de vulnerabilidades 

Nahuel também destacou a importância de engajar o setor privado no enfrentamento da crise climática, lembrando que, na maioria dos países, a maior parte dos investimentos vem dessa esfera. Segundo ele, a cooperação entre governos, empresas e sociedade civil é essencial para criar soluções sustentáveis e fortalecer a resiliência das comunidades diante de desastres. 

O palestrante fez um chamado à ação, convidando os países a desenvolverem estratégias urgentes e integradas para mitigar o avanço dos desastres climáticos. “O clima está mudando, mas também estão mudando as condições de exposição. Falamos de urbanização de risco e vulnerabilidade. Isso mostra que não devemos focar apenas nas ameaças, mas também agir para gerenciar a exposição e mitigar vulnerabilidades, por meio do planejamento territorial e da preparação de planos de continuidade de negócios”, explicou.  

O chefe regional da ONU destacou que além de monitorar ameaças, é preciso atuar na redução das vulnerabilidades sociais e estruturais para evitar perdas humanas e econômicas. “O que nós estamos falando hoje na Casa da Ciência é sobre a importância de termos consciência de que não devemos olhar apenas para as ameaças, mas também para a vulnerabilidade. A ciência avançou muito, temos capacidade de monitorar ameaças e compreender exposições, mas se os países não avançarem na redução da vulnerabilidade, continuaremos enfrentando desastres que custam vidas”, conta.  
 
Ele concluiu enfatizando o papel da COP30 como um marco para aproximar a agenda climática da redução de riscos e vulnerabilidades. “Com essa COP30, a gente está acompanhando e também muito satisfeito porque o assunto da redução do risco de desastres está muito presente na agenda. O Brasil teve recentemente um lamentável evento no Paraná, e isso está na frente de todos as ameaças que temos”.  

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Casa da Ciência 

A Casa da Ciência do MCTI, no Museu Paranaense Emílio Goeldi, é um espaço de divulgação científica, com foco em soluções climáticas e sustentabilidade, além de ser um ponto de encontro de pesquisadores, gestores públicos, estudantes e sociedade. Até o dia 21, ela será a sede simbólica do ministério e terá exposições, rodas de conversa, oficinas, lançamentos e atividades interativas voltadas ao público geral. Veja a programação completa. 

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Do laboratório à linha de frente: Sandra Coccuzzo transforma pesquisa em resposta concreta à sociedade

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A biomedicina poderia ter levado Sandra Coccuzzo por muitos caminhos. Mas foi no Laboratório de Fisiopatologia do Instituto Butantan que a pesquisadora, ainda estagiária, encontrou o seu lugar. Hoje, doutora em farmacologia e diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC), integra o instituto há mais de 30 anos. Nesse percurso, investigou o potencial terapêutico do veneno de serpentes, esteve na linha de frente da pandemia de covid-19 e participou da formação de diversos cientistas. 

O impacto do trabalho ultrapassou os limites do laboratório, especialmente durante a pandemia, quando a ciência passou a ocupar o centro do debate público. Pesquisas antes restritas ao ambiente acadêmico passaram a ser acompanhadas pela população, com expectativa concreta de aplicação em tratamento e cuidado. 

Antes disso, o caminho até a pesquisa foi guiado pela curiosidade. Ainda na graduação, Sandra buscava compreender os mecanismos por trás das doenças. “A biomedicina tem uma característica de te instigar a perguntar, de querer entender o porquê das coisas. E foi isso que me capturou”, afirma. O primeiro contato com o Butantan também veio por meio de outra mulher, que a encaminhou a uma pesquisadora da instituição. O gesto acabou definindo o rumo da sua carreira — e se repetiria ao longo da trajetória. 

Crotoxina 

No Laboratório de Fisiopatologia, passou a investigar o potencial de substâncias presentes no veneno da cascavel, em especial a crotoxina. O que poderia ser visto como elemento nocivo revelou-se, sob determinadas condições, uma fonte promissora para o desenvolvimento de novas terapias. “Existe uma frase na farmacologia: entre o veneno e o remédio está a dose”, explica. 

Os estudos demonstraram que, em concentrações controladas, a toxina pode modular o sistema imunológico, com potencial terapêutico, inclusive em processos inflamatórios e tumorais. Com o avanço das pesquisas, o foco passou a incluir a compreensão detalhada de sua estrutura molecular, possibilitando a reprodução dessas moléculas em laboratório. 

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Esse processo permite transformar um elemento natural em base para medicamentos sem depender da extração contínua de venenos. “A natureza funciona como um protótipo. A gente aprende com ela e consegue reproduzir essas moléculas de forma sintética”, afirma. 

A dimensão do trabalho se ampliou quando os resultados passaram a circular fora do ambiente acadêmico. “Eu comecei a receber cartas de mães com crianças em tratamento. Pessoas que viam na pesquisa uma esperança. Isso não tem preço.” 

O enfrentamento à covid-19 

Esse movimento se intensificou durante a pandemia. “As pessoas passaram a entender o que é ciência, a se interessar. Hoje existe uma expectativa real sobre o que a pesquisa pode trazer para a vida delas”, afirma. 

À frente de estruturas estratégicas do Butantan, Sandra participou da organização de respostas diretas à crise sanitária, incluindo iniciativas voltadas ao diagnóstico molecular e à vigilância do vírus. 

A pesquisa passou a operar em tempo real, com impacto direto sobre decisões em saúde pública. Foi nesse contexto em que ela contraiu covid-19, mantendo-se em isolamento enquanto acompanhava as atividades do instituto, em um momento em que a ciência se consolidava como ferramenta central no enfrentamento da crise. 

Mulher e cientista 

Ao longo dessa trajetória, a presença feminina na ciência aparece como parte do caminho que Sandra precisou sustentar. No Brasil, a participação de mulheres em publicações científicas passou de 38%, em 2002, para 49%, em 2022, segundo relatório da Agência Bori e da Elsevier. Ainda assim, a desigualdade persiste nos espaços de liderança: em 2023, elas ocupavam 45,6% dos grupos de pesquisa, com menor presença em áreas científicas e tecnológicas. 

Sandra reconhece esse peso no próprio percurso. “Tem, sim. Eu tenho uma família extremamente contributiva. Meu marido sempre me deu muito apoio. Mas, nitidamente, você está dobrando sua responsabilidade”, afirma. 

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Ao assumir a direção científica, passou a acumular gestão, produção científica, formação de pesquisadores e captação de recursos. “Eu não posso deixar de ser cientista. Eu não posso deixar de formar pessoas. Eu não posso deixar de recrutar recursos”, resume. 

A maternidade atravessou esse processo. Para sustentar todas as frentes, precisou reorganizar a rotina. “Eu tive que sucumbir o meu tempo de casa para não deixar os pratinhos caírem”, diz. 

A trajetória, no entanto, não foi solitária. Sandra destaca a importância de uma rede de apoio formada por outras mulheres, desde referências no início da carreira até o apoio da mãe, Valéria, e de pesquisadoras e familiares. Mesmo com reconhecimento, as diferenças de tratamento ainda aparecem. “Existem posições que você toma que, se eu fosse homem, seriam acatadas e ovacionadas. Por eu ser mulher, elas são ouvidas e primeiro racionalizadas.” 

Instituída em 2004 por decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é realizada anualmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento, escolas, museus, governos locais, empresas e entidades da sociedade civil. Em 2026, ao adotar como tema as Mulheres e Meninas na Ciência, a iniciativa reforça a centralidade de trajetórias como as de Sandra — pesquisadora cujos trabalhos demonstram, na prática, como a produção científica liderada por mulheres amplia o impacto social da ciência, conecta conhecimento às necessidades da população e contribui para a construção de um sistema científico mais diverso e representativo.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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