Agro News
Ana Paula Lima vence na categoria Pesca Artesanal ou Aquicultura Indígenas
Publicado
12 de março de 2026, 17:00
Neste ano, o Mulheres das Águas inaugura uma categoria para homenagear as mulheres indígenas que estão se destacando na pesca ou na aquicultura – afinal, não faltam iniciativas que promovem mais renda e de maneira sustentável entre os povos originários e as comunidades tradicionais.
E a primeira vencedora da nova categoria é Ana Paula Lima, uma mulher pescadora que luta pela manutenção da sociobiodiversidade e pela permanência do seu povo em seu território. Nascida no Rio Cuniuá, no município de Tapauá (AM), ela pertence ao povo Paumari, reconhecido como povo das águas.
Casada com um Paumari, Ana Paula é mãe de três filhos, que crescem acompanhando a rotina da pesca e do manejo dos peixes. Sua trajetória como liderança começou no espaço doméstico e comunitário, no qual precisou romper barreiras para afirmar-se como mulher indígena pescadora, que sonhava em atuar em articulações políticas. Com o tempo, passou a ocupar espaços coletivos e políticos, mesmo diante de ameaças e pressões por defender os lagos, o território e os direitos do povo Paumari.
Há mais de 15 anos, Ana Paula atua diretamente no manejo do pirarucu, participando da contagem, da pesca, da organização da logística e dos processos de decisão. Ela também representa as mulheres Paumari e integra o Coletivo do Pirarucu, defendendo a valorização do trabalho feminino em todas as etapas do manejo.
Tradição sustentável do povo Paumari
Os Paumari são historicamente pescadores, mergulhadores e guardiões dos lagos, vivendo entre várzeas, praias e igarapés da bacia do Rio Tapauá, onde se localizam as Terras Indígenas Paumari do Lago Manissuã, Paumari do Lago Paricá e Paumari do Cuniuá, demarcadas e homologadas entre 1997 e 1998. A pesca estrutura a vida das comunidades, oferecendo alimento, trabalho, cultura, organização social e relação espiritual com o território.
Por decisão coletiva, há mais de 20 anos, o povo Paumari adotou o manejo sustentável do pirarucu como estratégia central de defesa do território e da vida nos lagos. O manejo da espécie é fundamental para garantir a segurança alimentar das famílias, gerar renda de forma justa, fortalecer a organização comunitária e proteger os ecossistemas aquáticos. Mais do que uma atividade produtiva, o manejo representa o direito do povo de decidir sobre seu território, controlar o uso dos recursos naturais e assegurar a continuidade de seu modo de vida tradicional para as futuras gerações.
Nascida no Rio Cuniuá, Ana Paula cresceu imersa nesse modo de vida. Desde menina, aprendeu a pescar com caniço, a observar o tempo das águas, o comportamento dos peixes e o cuidado com os lagos. A pesca moldou seu cotidiano, seu corpo e seu pensamento, ensinando o valor do trabalho coletivo, do respeito aos ciclos da natureza e da responsabilidade com o território. Por parte materna, também, descende do povo Katukina, quase dizimado pela violência, e herda de sua avó a ancestralidade Paumari. Do lado paterno, carrega a força da população negra da região, tornando-se símbolo da resistência indígena e negra na Amazônia.
A atuação de Ana Paula acompanha todo o processo de recuperação dos estoques pesqueiros dos lagos Paumari. Em 2009, no início do monitoramento, foram registrados 268 pirarucus em 20 lagos. Em 2023, esse número alcançou 8.178 peixes monitorados em 60 lagos. Após cinco anos de proteção e manejo, os Paumari realizaram, em 2013, a primeira pesca oficial, com 50 indivíduos.
Em 2022, a pesca chegou a 650 peixes, totalizando 36 toneladas de pescado. Entre 2013 e 2022, foram comercializados aproximadamente 208 mil quilos de pirarucu, gerando cerca de R$ 1.400.000,00 em receita bruta. Desse total, 30% compõem o fundo coletivo do manejo, garantindo a continuidade da atividade e reduzindo a dependência de financiadores externos. A vigilância associada ao manejo contribuiu para a conservação de cerca de 98% do território Paumari.
Ana Paula integra equipe de gestão e de campo no manejo do pirarucu, participa da vigilância territorial e contribui diretamente para a recuperação dos estoques pesqueiros, uma conquista que devolveu abundância aos lagos e fortaleceu a segurança alimentar do povo Paumari. Sua atuação ajudou a consolidar resultados expressivos, como a comercialização de aproximadamente R$ 350 mil em peixes somente em 2025, assegurando que a renda seja repartida de forma justa, transparente e coletiva. O manejo sustentável tornou-se a principal estratégia do povo Paumari para conservar os lagos, proteger o território, valorizar o conhecimento tradicional e garantir renda sustentável.
Liderança política
Outro eixo central de sua atuação é o fortalecimento do trabalho das mulheres no manejo do pirarucu. Ana Paula atua para garantir a presença feminina nos espaços de decisão, planejamento e avaliação do manejo, reconhecendo que as mulheres são fundamentais em todas as etapas do processo: da vigilância territorial à organização da pesca, da logística de alimentação à evisceração do peixe, do monitoramento à transmissão dos conhecimentos tradicionais.
Como mulher indígena do povo Paumari, Ana Paula não atua de forma individual. Para o povo Paumari, não existe protagonismo isolado: a luta é coletiva, construída a partir das decisões do conjunto das comunidades. Ao longo de mais de 15 anos de atuação, Ana Paula contribui diretamente para o fortalecimento organizacional, territorial, produtivo e político do povo Paumari do Rio Tapauá, sempre a partir das decisões coletivas e do compromisso com a autonomia do território.
A liderança de Ana Paula contribui para a ampliação do reconhecimento político e econômico do trabalho das mulheres, para a garantia de condições dignas de participação, incluindo o cuidado com crianças, respeito às mulheres grávidas e mães e para a defesa da remuneração justa e igualitária no manejo.
Em 2022, assumiu a secretaria da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA) e, em 2025, foi eleita presidenta da instituição, fortalecendo a unidade entre as comunidades, o diálogo político e a defesa da pesca manejada como base da autonomia Paumari. Ela também representa as mulheres Paumari na Federação das Organização e Comunidades Indígenas do Médio Purus (FOCIMP), integrando o Departamento de Mulheres Indígenas do Médio Purus. A partir daí, ampliou o diálogo institucional com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), secretarias municipais e estaduais, instituições de ensino, órgãos ambientais e organizações parceiras.
Acompanhou a implantação e o aprimoramento de estruturas de pré-beneficiamento do pescado, a redução do tempo entre captura e conservação, o desenvolvimento de técnicas de abate com foco no bem-estar animal e pesquisas voltadas à melhoria da qualidade da carne. Participou ainda da articulação que integrou o manejo Paumari à marca coletiva Gosto da Amazônia, ampliando mercados e criando perspectivas de comercialização nacional e futura exportação.
Na área da educação, participou da condução de ações que resultaram na implementação do ensino médio dentro do território Paumari, garantindo, pela primeira vez, esse direito sem a necessidade de deslocamento dos jovens para áreas urbanas. Para isso, atuou em reuniões, negociações e articulações com o Conselho Estadual de Educação, secretarias municipais e estaduais e parceiros institucionais.
Ana Paula é fruto da resistência de gerações e do sonho ancestral do bem viver dos povos indígenas. Como mulher aldeada e liderança coletiva, mostra que é possível fortalecer o território de dentro, unindo sustentabilidade ambiental, economia comunitária, valorização cultural e cuidado com as águas. Sua vida afirma que o bem viver indígena é um caminho real, possível e urgente para a Amazônia.
Sobre o Mulheres das Águas – O prêmio foi criado em 2023 para reconhecer o trabalho de mulheres que se destacam na pesca e aquicultura, promovendo práticas sustentáveis e, principalmente, o empoderamento das mulheres que vivem das águas. Esta edição será realizada no dia 18 de março, no Teatro Nacional, em Brasília.
Agro News
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
Publicado
28 de julho de 2026, 09:02
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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