Política Nacional

Combate à violência escolar é desafio a ser enfrentado por todos, aponta debate

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Em debate nesta quarta-feira (13) na Comissão de Segurança Pública (CSP) sobre o projeto que institui diretrizes de segurança contra a violência em escolas, o relator da proposta e autor do requerimento para a audiência, senador Efraim Filho (União-PB), disse que a intenção é aumentar recursos orçamentários para infraestrutura e capacitação dos profissionais nas escolas. E destacou que as áreas mais vulneráveis merecem atenção especial sobre a prevenção de ataques.

PL 5.671/2023 estabelece ações obrigatórias para unidades de ensino públicas e privadas e altera a lei que trata do Fundo Nacional de Segurança Pública para garantir financiamento específico às medidas previstas. 

O senador Jorge Seif (PL-SC) destacou que, entre 2002 e 2022, o Brasil registrou 16 ataques fatais em escolas. Metade dos casos ocorreu nos últimos dois anos.

— Ou seja, [os ataques] estão se intensificando, o que evidencia o crescimento alarmante. Em Santa Catarina, [os episódios de] Saudades e Blumenau foram trágicos. A escola tem que ser um lugar santo. Quando ocorrem esses eventos, ficamos perplexos e em choque, São episódios violentos e covardes. Não se trata de fato isolado, mas um fenômeno que exige prevenção efetiva e integração entre segurança pública, educação, protocolos claros e políticas voltadas à saúde mental de crianças e adolescentes — afirmou.

Para o senador Sérgio Moro (União-PR) é preciso aumentar o rigor para assassinatos em ambiente escolar, além da criminalização dos atos preparatórios desses episódios para permitir que as autoridades possam intervir antes dessas ocorrências.

Gestão de crise

A diretora de Comunicação da Asis Capítulo São Paulo, Ana Flávia Bello, afirmou que a gestão de crises em ambientes escolares envolve uma visão estratégica, integrada e com ações abrangentes.

A organização que Ana Flávia representa lidera atualmente a criação do primeiro padrão de segurança escolar, aprovado pelo American National Standard Institute, dos Estados Unidos. O protocolo tem como objetivo oferecer às instituições educacionais um referencial unificado e consistente para avaliar e aprimorar as medidas de segurança.

— Um provérbio africano diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Essa fala é um chamado à responsabilidade coletiva em torno do tema. A escola sempre foi um ambiente seguro para os nossos filhos, e assim deve continuar. Mas hoje vivemos claramente uma crise de segurança nos ambientes escolares. E, em situações de crise, soluções de rotina não são suficientes — afirmou Ana Flávia.  

No combate aos atos de violência extrema em ambientes educacionais, disse, os primeiros passos são elevar a prioridade do tema dentro das escolas, ampliar a consciência dos riscos e agir de forma preventiva e estruturada para mitigar esses riscos, afirmou.

— No entanto, como risco zero não existe, faz-se necessário também a preparação de uma resposta rápida e eficaz caso um evento se materialize. A crise não termina com a contenção do ato em si ou da violência, há muitos impactos que exigem uma intervenção pós-evento – afirmou.

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Ana Flávia citou três pilares que sustentam boas práticas para gestão de crises relacionadas a atentados por agressores ativos, tema que impulsionou a criação do PL 5.671/2023:

  • Reconhecer — identificar sinais de risco antecipadamente; o massacre em escola pode levar até dois anos de planejamento, entre a primeira ideação violenta e o ato em si; é preciso estar atento ao que acontece dentro e fora da escola, fazer monitoramento e nunca ignorar sinais; pais e educadores precisam conhecer características e comportamentos que podem ser indícios iniciais de futuros atos violentos, seja contra outras pessoas ou do jovem ou criança contra si mesmo.
  • Intervir com acolhimento — envolve escuta ativa, criação de canais internos de comunicação com ampla divulgação. Alunos, pais e professores devem ter caminhos claros e seguros para relatar preocupações, suspeitas e evidências. 
  • Responder — os ataques em escolas costumam começar e terminar com menos de cinco minutos, o que comprova que a resposta inicial é fundamental; cada segundo conta; a resposta dentro da escola é o que vai salvar mais vida dentro dos cinco minutos, antes das forças policiais chegarem; a resposta rápida vai depender de protocolos adequados e pré-definidos e equipes bem treinadas a partir de exercícios simulados realizados regularmente, envolvendo adultos, crianças e adolescentes da escola.

Ana Flávia recomendou ainda que o Brasil adote o uso obrigatório de aplicativos de comunicação de notificações em massa em casos de emergência, como ataques em escolas.

Ações preventivas

Agente da Polícia Federal e integrante do Grupo de Pronta Intervenção (GPI), Igor Cavalcante destacou que as iniciativas de proteção devem envolver a comunidade escolar e a sociedade, pois a polícia, mesmo dotada de vários mecanismos, nem sempre consegue chegar a tempo de evitar o episódio de violência.

— Há planejamento nesse tipo de evento, ele raramente e um ato súbito inesperado, normalmente ocorre uma preparação previa para ele, fugindo do habitual verificado em eventos comuns de violência. Regras claras dentro da instituição também são importantes. É importante que as escolas tenham planos de ação e treinamento, tanto das forças de segurança como da comunidade escolar — afirmou.

Fundadora e presidente da Associação Brasileira de Resposta à Violência Escolar, e filha de uma professora que foi vítima fatal de ataque violento a uma escola da Zona Oeste de São Paulo, Fernanda Barros destacou que no espaço da escola  todos deveriam se sentir seguros, com professores respeitados e amparados.

— A violência que tirou a vida de minha mãe, assim como de outras em ambientes escolares, não foi um acaso nem fato isolado, mas resultado direto da ausência de estrutura adequada, da falta de preparo e inexistência de mecanismos claros e eficazes para que a gente pudesse identificar, prevenir e responder as ameaças. No caso dela, muitas dessas ameaças já vinham sendo sinalizadas. O agressor dela tramou isso durante dois anos. No dia em que ele cometeu o assassinato, ele expôs na rede social que faria isso — afirmou.

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Preparo

Gerente sênior de Segurança da Avenues The World School, Rodrigo Zuh destacou que segurança escolar não envolve apenas infraestrutura e tecnologia, mas sobretudo o preparo das pessoas. O especialista criou o Protocolo Vida, o primeiro e único protocolo brasileiro de resposta a atos de violência extrema de agressores ativos.

— O PL 5.671 é um passo importante porque reconhece essa necessidade de medidas estruturadas para prevenir e responder à violência extrema em ambiente escolar. E estabelece pontos fundamentais como uso de dispositivos de acionamento rápido, câmaras de vigilância e planos de prevenção. No entanto, por si sós, equipamentos não salvam vidas. O que salvam vidas são pessoas preparadas para agir — afirmou.    

Resposta rápida

Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Guilherme Boldrini destacou que as ocorrências de violência extrema nunca terminam na simples atuação do agressor, mas podem evoluir para outras casos, sem falar nos aspectos psicológicos gerados por esses episódios. Ele acentuou ainda que o massacre de Columbine High School, em abril de 1999, nos Estados Unidos, gerou grandes mudanças nos protocolos de atuação pelos órgãos policiais ao redor do mundo.

— O trabalho das forças policiais públicas e privadas tem de ser de evolução constante. Essas pessoas não têm medo da morte, elas têm medo de falhar, por isso elas se preparam para isso aí. Nossa legislação infelizmente não é favorável. Faltam protocolos específicos para forças policiais atuarem em relação a esse tipo de demanda. A resposta rápida da equipe policial é fundamental — afirmou.

Ações estruturantes

Representante do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, Roberto Lúcio Corrêa Bueno apontou a importância da elaboração de planos de contingência e ações estruturantes no combate à violência extrema nas escolas. Ele ressaltou ainda que Blumenau já executa plano de evacuação de todas as unidades escolares do município há mais de dez anos.

— E a gente tem colhido bons frutos. Ano passado teve um princípio de incêndio numa creche. Quando a gente chegou para fazer o combate ao incêndio, todos os ocupantes, professores e crianças já estavam no ponto de encontro, todos em segurança, e o incêndio já tinha sido combatido também com as técnicas que eles aprendem conosco e com os treinamentos —

Em relação ao PL 5.671/2023, Bueno propôs alterações nas diretrizes técnicas dos equipamentos dos seguranças, conteúdos mínimos para capacitação de profissionais e planos específicos de segurança para as escolas, de acordo com a realidade de cada unidade de ensino. Também cobrou enfrentamento às ameaças digitais, “fonte primeira nos planejamentos dos ataques”.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Mulheres pedem aprovação imediata do projeto que torna a misoginia crime

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Participantes de debate sobre o projeto de criminalização da misoginia (PL 896/23) pediram que a proposta seja votada no Plenário da Câmara dos Deputados antes das eleições. De acordo com as ativistas, a medida é fundamental para enfrentar a violência de gênero, que tem origem na cultura de ódio às mulheres.

A secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, Estela Bezerra, ressaltou que o Brasil é o quinto país que mais executa mulheres no mundo. Para ela, o que está em jogo com a aprovação ou não do projeto não é só a vida das mulheres, mas o modelo civilizatório do país.

“Por um lado, nós temos uma fila de mulheres a serem vitimadas por feminicídio. Por outro lado, a gente tem uma fila ainda maior de feminicidas sendo construídos, essa prática de meninos construindo listas de meninas estupráveis está acontecendo neste momento. Então é preciso dar um basta, que é aprovar o projeto de lei que criminaliza a misoginia no nosso país”, afirmou.

Estela Bezerra disse que a aprovação do projeto vai passar para a sociedade a mensagem de que não será admitida “uma mentalidade onde um corpo de uma mulher seja desrespeitado de tal forma que ela possa ser executada”.

Já aprovado no Senado, o projeto de lei equipara a misoginia ao racismo, que é um crime inafiançável e imprescritível. A misoginia é definida como a prática, indução ou incitação à violência, à restrição do pleno exercício de direitos ou à ofensa à dignidade da mulher em razão de sua condição de mulher. A pena prevista é de dois a cinco anos de reclusão e multa.

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A coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, Marlise Matos, lembrou que é dever constitucional do Estado proteger todas as pessoas contra qualquer forma de violação. No entanto, ela destaca que, na prática, a violência contra a mulher impede ou anula o exercício de todos os direitos humanos.

“A gente precisa efetivamente avançar, porque o ódio e a discriminação funcionam como combustível para formas privadas e públicas de violência de gênero contra as mulheres, e essa aversão estrutural impede que elas ocupem mais espaço de poder”, disse Marlise Matos. “Os discursos de ódio são as primeiras expressões das formas de violência, nunca começa com a facada, com o tiro, muito raramente.”

Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Projeto de lei que tipifica o crime de misoginia. Dep. Luizianne Lins (REDE - CE)
Luizianne Lins: é preciso mobilização para que as leis sejam aprovadas e cumpridas

Legislação recente
A presidente da Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher, deputada Luizianne Lins (Rede-CE), ressaltou que a legislação voltada a proteger as mulheres é muito recente no Brasil. Ela lembrou que a Convenção de Belém, que foi o primeiro diploma legal do país a reconhecer a violência contra a mulher, é de 1994, e a Lei Maria da Penha tem apenas 20 anos, entrou em vigor em 2006.

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A parlamentar ainda pediu mobilização das mulheres pela aprovação do projeto que criminaliza a misoginia, mas também depois, para que a lei seja cumprida.

“É tudo muito recente, só que nós não podemos esperar 12 anos de uma lei para outra, nem muito menos esperar que as leis por si só, só porque são leis, vão ser cumpridas. O movimento de mulheres tem que estar sintonizado o tempo inteiro com essas conquistas, porque, se não tiver mulherada na rua mobilizada, as próprias leis aprovadas por esta Casa são invisibilizadas”, disse a deputada.

Na semana passada, os deputados aprovaram urgência para que a proposta que criminaliza a misoginia seja votada diretamente no Plenário. A expectativa é de votação antes do recesso parlamentar de julho, mas ainda não há acordo entre os partidos sobre o texto final a ser aprovado.

Reportagem – Maria Neves
Edição – Pierre Triboli

Fonte: Câmara dos Deputados

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