Agro News
Governo do Brasil avança na proteção da biodiversidade marinha com criação de novas Unidades de Conservação no RS
Publicado
6 de março de 2026, 21:30
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou, por meio de decreto publicado em edição extra do Diário Oficial da União nesta sexta-feira (6/3), duas novas Unidades de Conservação (UCs) federais no litoral sul do Rio Grande do Sul: o Parque Nacional Marinho do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, no município de Santa Vitória do Palmar.
A iniciativa do Governo do Brasil, liderada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), representa um marco histórico para a conservação marinha no país ao proteger uma das regiões mais importantes para a manutenção da biodiversidade do Atlântico Sul e fortalecer a resposta nacional à mudança do clima e à perda global de biodiversidade.
“O decreto assinado pelo presidente Lula reflete o compromisso de seu governo com a preservação ambiental e de nosso oceano. Há por trás dessa medida estudos científicos, escuta pública, articulação entre instituições e empenho de servidores, pesquisadores e cidadãos comprometidos com a conservação da biodiversidade e a defesa do interesse público”, destaca a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
“No Albardão, os ambientes de concheiros, a presença de espécies ameaçadas, sua notável biodiversidade e um patrimônio arqueológico de grande valor passam, finalmente, a receber a proteção compatível à sua relevância. Criar essas unidades mostra que proteger o meio ambiente não é obstáculo, mas solução. Ecossistemas conservados sustentam atividades econômicas, orientam adequadamente os usos do território e geram benefícios concretos para a população brasileira como um todo. Isso vale para a pesca, que precisa da recomposição e da manutenção dos estoques, o turismo e outras atividades cuja sustentabilidade a longo prazo depende do respeito aos limites do planeta”, complementa.
As novas UCs serão geridas pelo ICMBio. Desde 2023, o Governo do Brasil criou 10 novas Unidades de Conservação federais e ampliou outras quatro como parte da retomada da política ambiental no país, paralisada nos anos anteriores. Entre 2019 e 2022, nenhuma UC federal foi instituída no país.
A soma total de área do conjunto formado pelo Parque Nacional do Albardão e sua Zona de Amortecimento, aí incluída a APA do Albardão, perfaz um total de 1.618.488 hectares.
O Albardão abriga ecossistemas marinhos e costeiros de excepcional relevância ecológica, funcionando como área de alimentação, reprodução e crescimento para diversas espécies ameaçadas. Entre elas, destaca-se a toninha (Pontoporia blainvillei), a espécie de golfinho mais ameaçada do Atlântico Sul Ocidental, além de tartarugas marinhas, tubarões, raias, aves marinhas migratórias e outros mamíferos que utilizam a região ao longo de seus ciclos de vida. A proteção desses habitats é considerada estratégica para reduzir a mortalidade da fauna e assegurar a manutenção de processos ecológicos essenciais nos ambientes marinhos.
As UCs também devem valorizar o potencial de desenvolvimento de atividades turísticas sustentáveis na região em paisagens naturais únicas conhecidas como Lençóis Rio-Grandenses.
“A criação das duas unidades do Albardão coroa um trabalho técnico e científico desenvolvido ao longo de décadas. Resulta do esforço contínuo de equipes especializadas do ICMBio, das universidades e das organizações da sociedade civil, assim como do compromisso público da ministra Marina Silva e do presidente Lula com a proteção da biodiversidade marinha”, assinala o presidente do ICMBio, Mauro Pires.
Características
O Parque Nacional do Albardão, com cerca de 1 milhão de hectares, será o maior parque marinho do Brasil. Foi concebido para proteger os ambientes mais sensíveis da região, incluindo áreas críticas para a conservação da biodiversidade e para a redução das pressões sobre espécies ameaçadas. Funcionará como área-berçário e de recomposição de estoques pesqueiros, com efeito de transbordamento que tende a aumentar a biomassa e a produtividade nas áreas abertas. Também preservará formações costeiras e depósitos fossilíferos conhecidos como concheiros, registros geológicos e paleontológicos de grande valor científico que testemunham a evolução da paisagem costeira ao longo de milhares de anos.
De maneira complementar, a APA do Albardão, com aproximadamente 56 mil hectares, foi desenhada para ordenar o uso sustentável do território costeiro, compatibilizando a conservação ambiental a atividades tradicionais, especialmente a pesca artesanal, além de favorecer o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis na região, como o ecoturismo na faixa de areia, que, com 250 km de extensão, é considerada a praia mais longa do mundo, além de ser a parte mais isolada e preservada de todo o litoral brasileiro.
O conjunto tem ainda uma zona de amortecimento de cerca de 614 mil hectares, que inclui 558 mil hectares próprios além dos 56 mil hectares da APA, formando um amplo cinturão de proteção no entorno do parque e permitindo o ordenamento das atividades humanas de forma compatível aos objetivos de conservação. Esse arranjo fortalece a integridade ecológica dos ecossistemas costeiros e marinhos e contribui para a resiliência dos ambientes naturais diante dos efeitos da mudança do clima.
Importância para espécies migratórias
O litoral sul do Rio Grande do Sul está situado na rota atlântica das Américas (Atlantic Flyway), uma das principais do planeta, que conecta o Ártico canadense e o Alasca, nos Estados Unidos, ao sul da América do Sul, passando pela costa do Brasil. Essas áreas funcionam como “postos de abastecimento” ecológicos, onde as aves param para descansar após voar milhares de quilômetros ininterruptamente e acumular energia antes de continuar a migração, alimentando-se de invertebrados e pequenos crustáceos.
Os principais corredores que convergem no litoral gaúcho são a rota do Ártico- Patagônia, usada por maçaricos e batuíras, e a rota Atlântica de Aves Marinhas, utilizada por albatrozes, petréis e trinta-réis que percorrem o Atlântico Sul, além da Conexão Pampas-Patagônia-Brasil, percorrida por espécies como o maçarico-acanelado, ligado aos campos naturais do Cone Sul.
“Prestes a sediar e presidir a COP15 das Espécies Migratórias, o Brasil lidera pelo exemplo ao ampliar as áreas de proteção dessas espécies com a criação das novas Unidades de Conservação. Além de proteger ecossistemas marinhos e costeiros únicos e fomentar o desenvolvimento local sustentável, a medida comprova que o Brasil coloca em prática as iniciativas ambiciosas que defende em fóruns multilaterais”, destacou o secretário-executivo do MMA e presidente da COP15, João Paulo Capobianco.
De 23 a 29 de março de 2026, o Brasil preside a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS, na sigla em inglês), que ocorre em Campo Grande (MS). No encontro, mais de 2 mil pessoas debaterão os desafios e as soluções para a conservação das espécies migratórias e seus habitats, bem como de suas rotas de migração (saiba mais aqui).
Na COP15, junto à Argentina e ao Uruguai, o Brasil submete, no âmbito da CMS, proposta de renovação de uma Ação Concertada que busca promover a conservação da toninha. O instrumento prevê o fortalecimento da cooperação transfronteiriça para reduzir a captura incidental e atualizar diagnósticos populacionais, dentre outras atividades.
UCs contribuem para o cumprimento de metas internacionais
A criação do Parque Nacional e da Área de Proteção Ambiental do Albardão também representa um avanço concreto para as metas de proteção dos oceanos brasileiros. Juntas, ampliarão a área protegida da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil, elevando o total de área marinha sob proteção para aproximadamente 26,73%.
O novo mosaico de áreas protegidas reforça o compromisso do país com a conservação da biodiversidade marinha e com o cumprimento das metas internacionais do Marco Global da Biodiversidade Kunming-Montreal, que estabelece o objetivo de proteger pelo menos 30% dos ambientes marinhos até 2030.
Processo de criação
A proposta de criação das Unidades de Conservação, que vem sendo construída há cerca de duas décadas, resulta de um processo técnico conduzido pelo ICMBio, com apoio do MMA, envolvendo estudos científicos, consultas públicas e diálogo com governos locais, setor pesqueiro, universidades e organizações da sociedade civil. A iniciativa também recebeu amplo apoio da comunidade científica e de entidades nacionais e internacionais dedicadas à conservação marinha, refletindo o reconhecimento da excepcional importância ecológica da região do Albardão para a biodiversidade do Atlântico Sul e para a proteção de espécies ameaçadas.
A área foi reconhecida como prioritária para conservação em 2004, o processo formal foi aberto em 2008 com apoio de universidades e ONGs, e diversos estudos ambientais e socioeconômicos foram produzidos entre 2017 e 2019. Em 2024, ocorreram consultas públicas e, após questionamentos, o ICMBio instituiu um grupo de trabalho para tratar da questão, além de encomendar estudos complementares.
Por fim, em 2026, novas tratativas com diferentes entes institucionais levaram a ajustes técnicos na poligonal originalmente proposta, resultando na configuração final do Parque Nacional do Albardão, com predomínio de áreas marinhas de alta relevância para a biodiversidade e pequena porção terrestre, bem como na criação da APA do Albardão, que, juntamente com a Zona de Amortecimento do Parque, contribui para a proteção e o ordenamento das atividades no entorno da unidade, buscando conciliar proteção da biodiversidade, pesca artesanal e outras atividades socioeconômicas regionais.
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Agro News
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
Publicado
28 de julho de 2026, 09:02
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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