Agro News

Mercado de trigo entra em fase de cautela no Brasil e no exterior após volatilidade em Chicago

Publicado

O mercado do trigo começou a semana com mudanças no ritmo das negociações no Brasil e no exterior. Após um período recente de maior intensidade nas operações, o volume de negócios apresentou desaceleração no Sul do país, ao mesmo tempo em que os contratos futuros seguem com oscilações moderadas na Bolsa de Chicago.

Especialistas apontam que a combinação entre oferta global, importações brasileiras, estoques da indústria moageira e expectativas sobre a produção internacional continua sendo determinante para a formação dos preços do cereal.

Negociações diminuem no Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, a movimentação perdeu força no início da semana depois das operações registradas nos dias anteriores. Levantamento da TF Agroeconômica mostra que o mercado entrou em um momento de ajustes entre vendedores e compradores.

Com a recente valorização das cotações internacionais, produtores passaram a pedir preços mais elevados. Por outro lado, compradores relatam dificuldades para ajustar os custos da farinha aos valores atuais do trigo.

Durante a segunda-feira foram reportadas negociações de aproximadamente 3 mil toneladas, com parte das ofertas mantidas para os próximos dias.

No mercado futuro, apareceu comprador para trigo da safra 2026/27 no porto ao redor de R$ 1.200 sobre rodas.

No interior gaúcho, o preço pago ao produtor apresentou leve valorização. Em Panambi, o valor da pedra chegou a R$ 55 por saca.

Mercado catarinense tem estabilidade e negócios pontuais

Em Santa Catarina, o início da semana foi marcado por estabilidade e volume limitado de negociações. O mercado também registra pressão por liberação de espaço nos armazéns.

Entre os negócios reportados estão:

  • Trigo melhorador negociado a aproximadamente R$ 1.250 FOB, com volumes reduzidos
  • Venda de cerca de 150 toneladas de trigo tipo 2 a R$ 1.050

Moinhos catarinenses continuam recorrendo ao trigo do Rio Grande do Sul para complementar o abastecimento.

Nos preços de balcão pagos ao produtor, os valores ficaram em:

  • Canoinhas: R$ 59 por saca
  • Chapecó: R$ 60 por saca
  • Joaçaba: R$ 61 por saca
  • Rio do Sul: R$ 62 por saca
  • São Miguel do Oeste: R$ 62,75 por saca
  • Xanxerê: R$ 64 por saca
Leia mais:  Exportações brasileiras de madeira crescem 34% em abril e setor reage após meses de retração
Paraná registra maior movimentação no início da semana

Entre os estados do Sul, o Paraná apresentou maior atividade comercial. O mercado consolidou valores próximos de R$ 1.300 CIF no início da semana.

No entanto, o comportamento do mercado varia entre as regiões:

Oeste do estado: negociações mais lentas devido à concorrência do trigo paraguaio, com preços mais competitivos

  • Norte do Paraná: negócios realizados a R$ 1.250 FOB à vista, com ofertas próximas de R$ 1.300 FOB
  • Região de Curitiba: negociações entre R$ 1.280 e R$ 1.290 CIF

Também houve registros de trigo gaúcho negociado para o oeste paranaense entre R$ 1.170 e R$ 1.180 CIF.

No porto de Paranaguá, vendedores ofertaram trigo argentino a US$ 275 por tonelada para retirada até 15 de abril, valor considerado competitivo frente ao custo estimado de reposição, próximo de US$ 286 por tonelada.

Chicago oscila entre realização de lucros e expectativa por relatório

No cenário internacional, o mercado do trigo continua sendo influenciado pelas oscilações na Bolsa de Chicago.

Na abertura do pregão desta terça-feira, os contratos futuros operavam com variações moderadas:

  • Maio/2026: cerca de US$ 6,03 por bushel
  • Julho/2026: aproximadamente US$ 6,14 por bushel

Na sessão anterior, os contratos registraram queda com a realização de lucros por parte dos investidores, devolvendo parte da valorização observada na semana passada, quando tensões geopolíticas no Oriente Médio impulsionaram os preços para o maior nível desde junho de 2024.

Outro fator de atenção do mercado é a divulgação do relatório mensal de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Estoques globais e exportações dos EUA seguem no radar

Analistas consultados pelo mercado projetam que os estoques finais de trigo nos Estados Unidos possam chegar a cerca de 923 milhões de bushels, abaixo dos 931 milhões estimados anteriormente.

As projeções variam entre 900 milhões e 956 milhões de bushels.

No cenário global, os estoques finais são estimados em 277,3 milhões de toneladas, ligeiramente abaixo das 277,5 milhões indicadas no relatório anterior.

Dados recentes também mostram crescimento nas inspeções de exportação norte-americanas. Na semana encerrada em 5 de março, o volume chegou a 496.108 toneladas, acima das 354.518 toneladas registradas na semana anterior.

Leia mais:  Microcrédito rural impulsiona agricultura familiar e já movimenta R$ 338,7 milhões no Norte e Centro-Oeste

No acumulado do atual ano-safra, iniciado em 1º de junho, as inspeções somam 19,12 milhões de toneladas, superando as 15,91 milhões registradas no mesmo período da temporada anterior.

Importações continuam determinantes para o mercado brasileiro

No Brasil, o fluxo de importações segue sendo um dos principais fatores de influência no mercado.

Estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o país deverá importar cerca de 6,7 milhões de toneladas de trigo na safra 2025/26 para atender à demanda interna.

O consumo nacional gira entre 12 milhões e 13 milhões de toneladas por ano, enquanto a produção brasileira permanece abaixo desse volume.

A Argentina continua sendo a principal fornecedora de trigo ao Brasil. Projeções de mercado indicam que a safra argentina pode alcançar 27,8 milhões de toneladas, ampliando a disponibilidade exportável para países do Mercosul.

Estoques da indústria e cenário macroeconômico influenciam expectativas

Outro ponto observado pelo mercado é o nível de estoques da indústria moageira no Brasil. Avaliações indicam que diversos moinhos iniciaram o ano com estoques relativamente confortáveis, resultado de compras antecipadas de trigo importado.

O ambiente macroeconômico também entra na equação. Dados recentes do Banco Central indicam manutenção de uma política monetária mais restritiva, com juros elevados para conter a inflação. Esse cenário influencia o custo de crédito, o financiamento agrícola e as decisões de compra da indústria.

Mercado acompanha fatores internos e externos

Diante desse cenário, o mercado do trigo continua acompanhando uma combinação de fatores que impactam diretamente a formação de preços no Brasil:

  • oscilações nas bolsas internacionais
  • disponibilidade global do cereal
  • desempenho da safra argentina
  • ritmo das importações brasileiras
  • nível de estoques da indústria moageira

Com oferta mundial ainda considerada confortável e demanda relativamente estável, analistas avaliam que o mercado deve continuar sensível às mudanças no cenário internacional e às atualizações dos relatórios globais de oferta e demanda.

Fonte: Portal do Agronegócio

Fonte: Portal do Agronegócio

Comentários Facebook
publicidade

Agro News

Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia

Publicado

A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.

O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.

Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.

O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.

Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.

A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.

A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.

Leia mais:  Microcrédito rural impulsiona agricultura familiar e já movimenta R$ 338,7 milhões no Norte e Centro-Oeste

Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.

Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.

A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.

Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.

No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.

Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.

Leia mais:  Exportações brasileiras de madeira crescem 34% em abril e setor reage após meses de retração

A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.

O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.

A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.

O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.

Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.

Fonte: Pensar Agro

Comentários Facebook
Continue lendo

Mais Lidas da Semana