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Plano Clima Mitigação debate sete planos setoriais e avança para consolidação
Publicado
12 de agosto de 2025, 18:30
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em parceria com a Casa Civil da Presidência da República, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e outros órgãos do Comitê Interministerial para Mudança do Clima, realizou na segunda-feira (11/8) o último webinário da série de diálogos sobre os planos setoriais de mitigação, que estão em consulta pública. O evento encerrou um ciclo de discussões essenciais para o processo de elaboração do documento que vai guiar as políticas públicas de enfrentamento à crise climática.
A série de webinários abordou, ao longo das últimas semanas, todos os sete planos setoriais que compõem o Plano Clima Mitigação. O evento final, de segunda-feira, detalhou os planos de “cidades e de resíduos sólidos e efluentes domésticos”. A consulta pública encerra no próximo dia 18 de agosto, às 23h59.
O debate sobre a gestão de resíduos sólidos e efluentes e das cidades na construção de uma política climática significa, de acordo com o diretor do Departamento de Gestão de Resíduos Sólidos do MMA, Eduardo Rocha, enfrentar o desafio de ampliar os índices de saneamento básico para a população brasileira. Os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) apontam que pouco mais de 50% dos domicílios são atendidos por coleta de resíduos.
“Além do saneamento básico, o plano está valorizando o desenvolvimento da matriz biogás e a inclusão social e justa para os catadores urbanos em todo o processo de mitigação”, destacou Rocha. O plano setorial aborda também a transição dos 2,5 mil municípios que ainda utilizam lixões para aterros sanitários e reciclagem.
Reduzir as emissões oriundas do tratamento de resíduos residenciais e esgotamento sanitário, além do tratamento de resíduos sólidos em geral, também é estratégico. Até 2022 o setor de resíduos sólidos e efluentes domésticos emitiu 85 milhões de toneladas de CO2 equivalente, quantidade que o Plano Clima pretende reduzir em 12%, até 2030, e em até 19%, até 2025, meta considerada ambiciosa diante do desafio da universalização dos serviços.
A assessora especial do Ministério das Cidades, Ana Maria Aragão, ressaltou o caráter desafiador do Plano Setorial de Cidades, já que as zonas urbanas “territorializam uma série de políticas setoriais que não necessariamente estão sobre a abrangência inclusive dos municípios, que são responsáveis pela gestão da política urbana”. Por isso, o Plano Clima busca reduzir as emissões urbanas, causadas por mobilidade e consumo, por exemplo, integrando as ações com as políticas setoriais de energia, indústria e resíduos.
Ana Maria Aragão defendeu a necessidade de um esforço combinado de toda a sociedade para a redução dos gases de efeito estufa (GEE). “Eu acho que o principal objetivo é mostrar que nós, como consumidores e produtores nesses espaços urbanos, temos um compromisso com as metas de redução, que no final das contas é o que vai nos permitir avançar em direção ao cumprimento da nossa NDC”, avaliou.
O coordenador-geral de Regulação da Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, Antônio Esposito Neto, acrescentou que este eixo setorial é um “recorte territorial” que integra energia, transportes e uso e ocupação do solo no contexto urbano. Ele enfatizou o caráter interfederativo do Plano Clima e a dependência do engajamento municipal. “O Plano Setorial de Cidades tem muito esse caráter interfederativo, depende muito dos municípios e é importante engajar as ações para que cada um faça o seu papel de forma equilibrada, de forma que todos possam contribuir para a mitigação sem prejudicar as comunidades próximas”, apontou.
Esposito ainda destacou que o esforço de redução nas cidades está diretamente relacionado à adaptação, pois quanto mais bem-sucedida for a estratégia de mitigação, menor o esforço e o custo para se adaptar às mudanças do clima. Por isso, o escopo do plano setorial mira também as emissões e remoções relacionadas ao uso da terra em assentamentos urbanos, controlando a expansão e fomentando reflorestamento, à mobilidade e logística com frotas sustentáveis e emissões de edificações comerciais, residenciais e institucionais.
Metas Nacionais
O coordenador-geral de Política de Mitigação e Proteção da Camada de Ozônio na Secretaria Nacional de Mudança do Clima do MMA, Leandro Cardoso, destacou que o Brasil tem metas ambiciosas para a redução de emissões. Em 2005, o país emitiu 2,56 bilhões de toneladas de CO2 equivalente líquidas. Após um período de queda, as emissões voltaram a subir a partir de 2020, com um pico em 2021-2022, impulsionado pelo aumento das taxas de desmatamento.
As metas brasileiras incluem uma redução de 48,4% em relação a 2005 para o ano de 2025 (1,32 bilhão de toneladas) e uma redução de cerca de 53% para 2030 (1,2 bilhão de toneladas). A nova meta nacional, submetida em 2024, estabelece um patamar entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente, representando uma meta de redução em banda, variando entre 59% e 67% em relação ao mesmo ano de referência. O compromisso de longo prazo do Brasil é alcançar emissões líquidas zero de todos os gases de efeito estufa até 2050.
As projeções para essas metas consideram um crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,6% até 2050 e uma população que atingirá seu pico, segundo o IBGE, em torno de 2040 a 2045, com cerca de 220 milhões de habitantes. Leandro Cardoso enfatizou que é necessário levar em consideração esse fator, já que, à medida que a população cresce, também aumenta a demanda por serviços e, consequentemente, a emissão de gases.
“É sempre bom interpretar as metas nacionais do Brasil, tanto as nacionais quanto as setoriais, levando em conta quanto o país crescerá no período. Ou seja, vamos superando essa condição de país em desenvolvimento pelo crescimento econômico e também pelo aumento da demanda de bens e serviços”, afirmou Cardoso.
O Plano Clima se estrutura em três grandes eixos: Adaptação, que inclui a Estratégia Nacional de Adaptação e 16 planos setoriais e temáticos relacionados à adaptação e resiliência; Mitigação, que é composto pela Estratégia Nacional de Mitigação e por sete planos setoriais de mitigação; e as Estratégias Transversais para Ação Climática, que abordam temas comuns à adaptação e mitigação, como transição justa, impactos socioeconômicos e ambientais, meios de implementação, capacitação, pesquisa, desenvolvimento, inovação e monitoramento, gestão, avaliação e transparência.
O processo de construção do Plano Clima, iniciado em meados de 2023, envolveu extensas discussões com diversos órgãos do governo federal, incluindo mais de mil participantes em oficinas e mais de 20 ministérios, além da participação do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima e da Rede Clima, representando a comunidade científica.
A primeira consulta pública da Estratégia Nacional de Mitigação foi realizada entre 9 de abril e 9 de maio de 2025, recebendo mais de 780 contribuições. A fase atual da consulta pública, que se encerra em 18 de agosto, foca especificamente nas metas setoriais de mitigação em conjunto com os planos setoriais.
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
Publicado
28 de julho de 2026, 09:02
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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