Agro News
Síntese do dia — COP15 — 27 de março
Publicado
28 de março de 2026, 12:30
De regra, a votação não costuma fazer parte da dinâmica das conferências da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS, na sigla em inglês), mas o processo foi o que marcou o quinto dia da 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15), nesta sexta-feira (27/3). Sem acordo entre os países sobre a inclusão de três espécies de tubarão-raposa (Alopias pelagicus, Alopias superciliosus e Alopias vulpinus) no Anexo I, as delegações recorreram ao mecanismo para destravar a decisão. O Anexo I da Convenção reúne espécies ameaçadas e impõe as medidas mais rigorosas de proteção, enquanto o Anexo II é voltado à cooperação internacional para conservação.
As três espécies têm ampla distribuição pelos oceanos e realizam longas migrações, porém enfrentam queda populacional. O tubarão-raposa-pelágico (Alopias pelagicus) é classificado como em perigo de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), enquanto os outros dois estão na categoria vulnerável.
Durante o debate, os países favoráveis destacaram a pressão da pesca e defenderam uma abordagem preventiva para ampliar a proteção dessas espécies. Já as delegações contrárias alertaram para possíveis efeitos indesejados de regras mais rígidas, como o crescimento da pesca ilegal. Diante do impasse, a proposta foi levada à votação e resultou na recomendação de inclusão das três espécies de tubarão-raposa no Anexo I.
Na plenária, outras propostas avançaram por consenso, incluindo espécies que ocorrem no Brasil ou utilizam o país como parte de suas rotas migratórias.
Assim, foram indicadas para o Anexo I da Convenção:
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o maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica), que passa pelo Brasil todo ano;
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o maçarico-de-perna-amarela (Tringa flavipes), que utiliza áreas úmidas brasileiras como pontos de parada;
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o Sphyrna lewini, presente no litoral brasileiro;
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o Sphyrna mokarran, também registrado na costa do país;
Já para o Anexo II, as recomendações incluem:
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a Ardenna carneipes, que pode ocorrer em águas oceânicas do Brasil;
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o cação-cola-fina (Mustelus schmitti), com registros no sul do país;
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o surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans), peixe migratório de água doce presente em bacias hidrográficas brasileiras.
Após acordo entre Argentina e Uruguai, uma das propostas retiradas durante as negociações também envolvia o Brasil:
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o cação-anjo-espinhoso (Squatina guggenheim), espécie que ocorre no Atlântico Sul, incluindo a costa brasileira.
Apesar dos avanços, parte da agenda segue em aberto. Alguns documentos ainda dependem de definições sobre financiamento, e os grupos de trabalho avançaram ao longo da noite. A expectativa é que a plenária retome os debates na manhã deste sábado (28/3) para analisar os 28 documentos restantes e 11 propostas de Ação Concertada, com o objetivo de concluir os trabalhos antes da sessão final, no domingo (29/3).
AGENDA DE NEGOCIAÇÃO
O Brasil teve atuação ativa ao apresentar e apoiar propostas de inclusão de espécies nos anexos da Convenção, reforçando seu papel nas negociações. Entre elas, está o caboclinho-do-Iberá (Sporophila iberaensis), cuja inclusão no Anexo II foi defendida como forma de fortalecer iniciativas regionais voltadas à conservação de aves campestres migratórias no sul da América do Sul.
No campo das espécies marinhas e de água doce, o país liderou a proposta para o cação-cola-fina (Mustelus schmitti), destacando o declínio populacional estimado em cerca de 80%. A iniciativa recebeu apoio de Senegal, Panamá e de organizações como o Instituto Baleia Jubarte e a Wildlife Conservation Society (WCS), sendo encaminhada para adoção.
Outro ponto de destaque foi o apoio brasileiro à inclusão do Sphyrna lewini, uma espécie de tubarão-raposa, no Anexo I. Apresentada pelo Equador, a proposta contou com amplo respaldo internacional e avançou após ajustes nas posições de algumas delegações, refletindo a construção de consensos em temas sensíveis.
Sem tubarão cação-anjo-espinhoso
No rumo inverso, no caso do cação-anjo-espinhoso (Squatina guggenheim), o Brasil optou por retirar a proposta após articulação com países da região, como Argentina e Uruguai, em um esforço de coordenação transfronteiriça que compartilham a área de ocorrência da espécie.
Ainda nas águas continentais, o país apresentou a proposta de inclusão do surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans) no Anexo II. A espécie, típica de grandes bacias sul-americanas, é considerada estratégica para a segurança alimentar e a economia de comunidades tradicionais e ribeirinhas e tem recebido apoio para avançar no processo decisório.
Além das listas de espécies, as discussões avançaram em temas estruturantes da CMS. Relatórios nacionais de implementação trouxeram um panorama dos progressos desde a última COP, com destaque para iniciativas de cooperação regional, ao mesmo tempo em que evidenciaram desafios recorrentes, como limitações financeiras e técnicas enfrentadas por muitos países.
Já nos corredores, o ritmo intenso das negociações refletiu a complexidade da agenda. Delegações se dividiram entre diferentes grupos de trabalho e eventos paralelos, em um cenário de avanços graduais e impasses pontuais. A expectativa de um fim de semana de trabalho já era clara, enquanto participantes mais experientes demonstravam cautela e otimismo em relação aos resultados.
Com a reta final se aproximando, a expectativa é de que até este domingo (29/3) sejam consolidados não apenas decisões sobre espécies específicas, mas também avanços na cooperação internacional e na proteção das rotas migratórias que conectam ecossistemas em escala global, tema em que o Brasil segue com papel estratégico.
Resumo da negociação com propostas e envolvimento do Brasil até a noite de sexta-feira (27/3)
As propostas a seguir envolvem espécies com ocorrência ou rota migratória no Brasil, exceto quando explicitamente indicado:
PARA AVALIAÇÃO FINAL NA PLENÁRIA FINAL
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Inclusão do surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans) no Anexo II;
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Resolução e plano de ação para bagres amazônicos, como a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) e a piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii);
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Inclusão do cação-cola-fina (Mustelus schmitti) no Anexo II;
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Inclusão de petréis – ou grazinas – dos gêneros Pterodroma e Pseudobulweria (há espécies que ocorrem no Brasil);
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Inclusão do maçarico-de-bico-torto (Numenius phaeopus hudsonicus) no Anexo I;
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Inclusão do maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica) no Anexo I;
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Inclusão do caboclinho-do-Iberá (Sporophila iberaensis) no Anexo II;
RETIRADO
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Inclusão do cação-anjo-espinhoso (Squatina guggenheim) no Anexo II.
NA MESA DE NEGOCIAÇÃO
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Ação Concertada para o tubarão-mangona (Carcharias taurus);
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Ação Concertada para o tubarão-peregrino (Cetorhinus maximus), que não ocorre no Brasil;
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Inclusão no Anexo I de duas espécies de tubarão-raposa, Sphyrna lewini e Sphyrna mokarran;
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Inclusão do maçarico-de-perna-amarela (Tringa flavipes) no Anexo I;
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Inclusão da ariranha (Pteronura brasiliensis) nos Anexos I e II;
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Propostas de ações concertadas e planos de ação para raias do gênero Mobula (há espécies que ocorrem no Brasil);
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Inclusão do tubarão-azul (Prionace glauca) no Anexo I.
Espaço Brasil
Em paralelo ao intenso debate nas negociações da COP15, as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) ganharam destaque no Espaço Brasil. Para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), essas áreas funcionam como corredores ecológicos ao transformar propriedades privadas em refúgios para espécies migratórias, endêmicas e ameaçadas.
Durante painel sobre o tema, o diretor do Departamento de Áreas Protegidas (DAP) do MMA, Pedro da Cunha e Menezes, ressaltou a importância de integrar unidades de conservação públicas e privadas nas estratégias de conservação. Segundo Pedro, essa conexão é essencial para garantir a continuidade dos ecossistemas e ampliar a efetividade das políticas ambientais.
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) organiza as diretrizes para a criação e gestão dessas áreas no país, abrangendo diferentes níveis de governo e também iniciativas privadas.
Hoje, o Brasil conta com mais de 1,9 mil RPPNs, que somam mais de 837 mil hectares protegidos. O debate na COP15 reforçou o papel estratégico dos proprietários rurais, já que a criação de reservas assegura a proteção permanente das áreas e contribui para a formação de corredores ecológicos que sustentam o deslocamento da fauna nas Américas.
Conexão sem Fronteiras
A proteção das espécies migratórias vai além das negociações formais e ganha força nos territórios, onde o papel das mulheres é central. Essa conexão entre gênero, natureza e cultura orienta a mostra cinematográfica realizada no espaço Conexão sem Fronteiras.
A secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Rita Mesquita, destacou a importância de ampliar a participação feminina. Segundo ela, é fundamental dar visibilidade ao trabalho das mulheres e garantir sua presença, especialmente das jovens, nos espaços de decisão e governança.
Entre os destaques, está o documentário “Mulheres da Fronteira”, dirigido por Paulo Machado, que acompanha trajetórias de mulheres pantaneiras, indígenas e empreendedoras, evidenciando como a gastronomia também expressa fluxos migratórios na América do Sul.
Outro filme exibido é “Maré Viva, Maré Morta”, de Cláudia Daibert, que retrata a atuação de mulheres na gestão de unidades de conservação marinhas e reforça o papel crescente das lideranças femininas na proteção da biodiversidade.
(Com informações da Earth Negotiations Bulletin)
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Agro News
El Niño e fertilizantes mais caros ameaçam desempenho do agro e podem reduzir produção brasileira até 2027
Publicado
2 de junho de 2026, 20:59
Depois de impulsionar a economia brasileira nos últimos anos, o agronegócio começa a enfrentar um cenário mais desafiador. A combinação entre a possível formação do fenômeno El Niño, o aumento dos preços dos fertilizantes, juros elevados e a queda nas cotações de commodities agrícolas acende um sinal de alerta para produtores e analistas do setor.
Embora a agropecuária tenha registrado crescimento de 2% no primeiro trimestre de 2026, segundo dados do IBGE, especialistas avaliam que o desempenho tende a perder força nos próximos meses, com reflexos mais significativos sobre a produção e a rentabilidade em 2027.
Crescimento do agro perde impulso após ciclo excepcional
O resultado positivo do início do ano foi sustentado principalmente pela colheita de grãos, especialmente da soja, cuja produção se concentra nos primeiros meses do calendário agrícola.
No entanto, o setor parte agora de uma base de comparação elevada. Em 2025, o agronegócio brasileiro registrou expansão de 12%, impulsionado por uma combinação favorável de fatores climáticos, recordes de produção e elevado volume de abates na pecuária.
Segundo analistas do mercado, aquele cenário foi marcado por uma conjuntura excepcional, difícil de ser repetida nos próximos anos.
Além disso, a ampla oferta global de grãos e os elevados estoques internacionais vêm pressionando os preços das commodities agrícolas. A valorização do real frente ao dólar também reduz a receita dos exportadores brasileiros em moeda nacional, afetando especialmente produtores de soja, milho, algodão e café.
El Niño pode atrasar plantios e comprometer safra de 2027
A principal preocupação do setor está relacionada à possível formação do El Niño nos próximos meses. Meteorologistas indicam elevada probabilidade de consolidação do fenômeno entre junho e julho deste ano.
Caso confirmado, os impactos sobre a agricultura brasileira deverão ocorrer principalmente durante o plantio da próxima safra, com reflexos diretos na produção de 2027.
O El Niño altera os padrões climáticos no país, provocando estiagens em importantes regiões produtoras do Centro-Norte e excesso de chuvas no Sul.
Entre as áreas mais vulneráveis estão os estados que compõem o Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — além de Mato Grosso e Pará, regiões estratégicas para a produção de soja, milho, algodão e pecuária de corte.
No Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul, o excesso de precipitações pode comprometer culturas como o arroz e dificultar operações de campo.
Especialistas alertam que, embora a maior parte da safra atual já esteja implantada, o fenômeno poderá provocar atrasos no calendário agrícola, necessidade de replantio e aumento dos custos operacionais dos produtores.
Fertilizantes mais caros elevam custos de produção
Outro fator que preocupa o setor é a escalada dos preços dos fertilizantes, impulsionada pelas tensões geopolíticas e pelos conflitos no Oriente Médio.
Embora os efeitos sobre os preços dos alimentos ainda não sejam imediatos, os produtores já enfrentam aumento significativo nos custos para aquisição dos insumos que serão utilizados nas próximas safras.
A elevação dos preços pode levar muitos agricultores a reduzir a quantidade aplicada nas lavouras ou optar por fertilizantes de menor concentração nutricional, alternativas que comprometem o potencial produtivo das culturas.
Além da redução da eficiência agronômica, o uso de produtos menos concentrados também aumenta despesas logísticas, uma vez que exige maiores volumes para atingir os mesmos níveis de fertilização.
Como consequência, crescem os gastos com transporte, armazenagem, operações mecanizadas e consumo de combustível.
Juros altos ampliam pressão sobre produtores rurais
O cenário de crédito mais caro também contribui para aumentar a cautela no campo.
Com taxas de juros elevadas, muitos produtores enfrentam dificuldades para financiar custeio, investimentos e aquisição de insumos. O encarecimento do crédito reduz a capacidade de expansão das áreas cultivadas e limita a adoção de tecnologias capazes de elevar a produtividade.
Esse ambiente de maior restrição financeira pode comprometer a competitividade de parte do setor, especialmente entre médios e pequenos produtores.
Pecuária entra em nova fase do ciclo produtivo
Na pecuária bovina, o mercado passa por um movimento conhecido como virada de ciclo pecuário.
Após anos de abates elevados, incluindo grande participação de matrizes, os produtores iniciaram um processo de retenção de fêmeas para recomposição dos rebanhos e ampliação da produção futura de bezerros.
Embora seja um movimento natural da atividade, a mudança reduz temporariamente a oferta de animais para abate, influenciando a dinâmica do mercado de carne bovina nos próximos anos.
Perspectiva para o agronegócio exige atenção redobrada
As projeções indicam que o agronegócio brasileiro continuará desempenhando papel fundamental na economia nacional, mas enfrentará um ambiente mais complexo do que o observado nos últimos ciclos.
A combinação entre riscos climáticos, custos elevados de produção, crédito mais caro e pressão sobre os preços das commodities exige planejamento estratégico, gestão eficiente e maior adoção de tecnologias para preservar margens e garantir competitividade.
Para especialistas, os impactos mais relevantes desse novo cenário deverão ser sentidos ao longo de 2027, quando os efeitos do El Niño e dos fertilizantes mais caros poderão refletir diretamente sobre os volumes produzidos e os resultados econômicos do setor.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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