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Experimentos que levaram ao Nobel de Física utilizaram modelo teórico que tem nome de cientista brasileiro

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Os experimentos feitos pelo trio de físicos agraciado com o Prêmio Nobel de Física 2025 só foram possíveis graças à existência de um modelo teórico que leva o nome de um cientista brasileiro: Amir Ordacgi Caldeira.

O britânico John Clarke, da Universidade da Califórnia em Berkeley, o francês Michel H. Devoret e o americano John Martinis, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, só conseguiram demonstrar a validade dos princípios da teoria quântica em sistemas mesoscópicos — ou seja, não somente a nível atômico e subatômico, como já se sabia, mas também em escalas maiores, ainda que não visíveis a olho nu — por meio do chamado modelo de Caldeira-Leggett.

Caldeira, nesse caso, é uma referência ao físico Amir Ordacgi Caldeira, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e bolsista de Produtividade em Pesquisa 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) desde 1982. Já Leggett é um físico-teórico da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, que venceu o Nobel em 2003 e foi orientador do brasileiro.

Na década de 1970, a dupla alcançou avanços significativos para a pesquisa em física quântica de sistemas dissipativos macroscópicos e o uso de sistemas condensados ​​para testar fundamentos da mecânica quântica.

“O prêmio Nobel de 2025 evidencia a importância da mecânica quântica para sistemas mais gerais do que aqueles para os quais a teoria havia sido originalmente desenvolvida”, disse ao CNPq o professor Caldeira. “Esta generalização naturalmente contempla escalas de comprimento onde efeitos quânticos e clássicos competem entre si, gerando formidáveis resultados, cuja relevância vai desde a fundamentação desta teoria até suas possíveis aplicações práticas em situações ainda não exploradas”, explica.

Caldeira é citado no referencial teórico apresentado pelo Nobel para a concessão do prêmio. Editor do The Oxford Handbook of the History of Quantum Interpretations, lançado em 2022 pela casa editorial da universidade inglesa, o físico e historiador da ciência Olival Freire Jr., afirma que “a presença do nome de Amir Caldeira nas referências do Nobel desse ano, assim como aquelas de Luiz Davidovich e Nicim Zagury [ambos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro] no Nobel de 2012, expressam a pujança da ciência brasileira na rota das tecnologias quânticas”. Freire é também diretor científico do CNPq.

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Fronteira quântica

A física quântica postula que a matéria nem sempre se comporta como esperamos — ou seja, de acordo com os referenciais de nossa experiência ordinária, descrita por princípios da física clássica bastante conhecidos, como o de que um corpo só ocupa um lugar no espaço ou o de que a toda ação gera uma reação equivalente. De acordo com a física quântica, a matéria pode ter comportamentos que podem ser considerados estranhos, como estar em mais de um lugar ao mesmo tempo ou atravessar barreiras tidas como intransponíveis.

Essa estranheza já havia sido comprovada em níveis atômicos e subatômicos, mas não em escalas maiores, ainda que acessíveis somente com o auxílio de um microscópio. É justamente essa a fronteira cruzada pelo trabalho de Clarke, Devoret e Martinis, que, com seus experimentos, iniciados em Berkeley em meados dos anos 1980, revelaram que fenômenos quânticos como o tunelamento (ou Efeito Túnel, que prediz que uma partícula pode escapar de regiões cercadas por barreiras potenciais mesmo se sua energia de seu movimento for menor que a energia potencial da barreira) podem se dar também em sistemas mesoscópicos — um circuito elétrico devidamente projetado, por exemplo.

Desenvolvido a partir do final da década de 1970, o modelo Caldeira-Leggett é um dos primeiros e fundamentais modelos para se entender como os sistemas quânticos interagem com o ambiente, levando ao comportamento clássico de dissipação (perda ou dispersão de energia de um sistema, convertida em outras formas) e à decoerência quântica (perda da coerência de um sistema quântico, ou seja, da sua capacidade de manter estados de superposição e entrelaçamento devido à interação com o ambiente externo).

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Com esse modelo, que cria as condições matemáticas para se conceber e desenhar experimentos ultrassensíveis, é possível descrever a interação entre um sistema quântico e um reservatório ambiental, modelado por um banho de osciladores harmônicos (sistemas físicos que se movem em torno de um ponto de equilíbrio estável e oscilam de forma constante, como, por exemplo, um pêndulo com pequenos ângulos), cuja representação matemática resultante permite definir a matriz de densidade do sistema. O modelo pode ser aplicado em diversas áreas e tecnologias quânticas.

Trajetória

Amir Caldeira desenvolve pesquisas na área de física da matéria condensada. De 2009 a 2014, foi coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Informação Quântica (INCT-IQ), ação financiada pelo CNPq. Seus trabalhos envolvem, em especial, estudos acerca de problemas de dissipação quântica e sistemas de elétrons fortemente correlacionados. É professor do Departamento de Física da Matéria Condensada, do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp. Graduou-se em física em 1973 e fez mestrado na mesma área, terminado em 1976. Os dois cursos foram na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Em 1980, Caldeira terminou o doutorado em Física pela University of Sussex, no Reino Unido, sob orientação de Anthony Leggett. No mesmo ano, tornou-se professor da Unicamp. Em meados dos anos 1980, o professor fez pós-doutorado nos Estados Unidos, no Kavli Institute for Theoretical Physics (KITP), na University of California, e no Thomas J. Watson Research Laboratory, no IBM Research, em Nova Iorque. Em 1994 e 1995, com bolsa do CNPq, passou o ano sabático na Universidade de Illinois, Estados Unidos.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Do laboratório à linha de frente: Sandra Coccuzzo transforma pesquisa em resposta concreta à sociedade

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A biomedicina poderia ter levado Sandra Coccuzzo por muitos caminhos. Mas foi no Laboratório de Fisiopatologia do Instituto Butantan que a pesquisadora, ainda estagiária, encontrou o seu lugar. Hoje, doutora em farmacologia e diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC), integra o instituto há mais de 30 anos. Nesse percurso, investigou o potencial terapêutico do veneno de serpentes, esteve na linha de frente da pandemia de covid-19 e participou da formação de diversos cientistas. 

O impacto do trabalho ultrapassou os limites do laboratório, especialmente durante a pandemia, quando a ciência passou a ocupar o centro do debate público. Pesquisas antes restritas ao ambiente acadêmico passaram a ser acompanhadas pela população, com expectativa concreta de aplicação em tratamento e cuidado. 

Antes disso, o caminho até a pesquisa foi guiado pela curiosidade. Ainda na graduação, Sandra buscava compreender os mecanismos por trás das doenças. “A biomedicina tem uma característica de te instigar a perguntar, de querer entender o porquê das coisas. E foi isso que me capturou”, afirma. O primeiro contato com o Butantan também veio por meio de outra mulher, que a encaminhou a uma pesquisadora da instituição. O gesto acabou definindo o rumo da sua carreira — e se repetiria ao longo da trajetória. 

Crotoxina 

No Laboratório de Fisiopatologia, passou a investigar o potencial de substâncias presentes no veneno da cascavel, em especial a crotoxina. O que poderia ser visto como elemento nocivo revelou-se, sob determinadas condições, uma fonte promissora para o desenvolvimento de novas terapias. “Existe uma frase na farmacologia: entre o veneno e o remédio está a dose”, explica. 

Os estudos demonstraram que, em concentrações controladas, a toxina pode modular o sistema imunológico, com potencial terapêutico, inclusive em processos inflamatórios e tumorais. Com o avanço das pesquisas, o foco passou a incluir a compreensão detalhada de sua estrutura molecular, possibilitando a reprodução dessas moléculas em laboratório. 

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Esse processo permite transformar um elemento natural em base para medicamentos sem depender da extração contínua de venenos. “A natureza funciona como um protótipo. A gente aprende com ela e consegue reproduzir essas moléculas de forma sintética”, afirma. 

A dimensão do trabalho se ampliou quando os resultados passaram a circular fora do ambiente acadêmico. “Eu comecei a receber cartas de mães com crianças em tratamento. Pessoas que viam na pesquisa uma esperança. Isso não tem preço.” 

O enfrentamento à covid-19 

Esse movimento se intensificou durante a pandemia. “As pessoas passaram a entender o que é ciência, a se interessar. Hoje existe uma expectativa real sobre o que a pesquisa pode trazer para a vida delas”, afirma. 

À frente de estruturas estratégicas do Butantan, Sandra participou da organização de respostas diretas à crise sanitária, incluindo iniciativas voltadas ao diagnóstico molecular e à vigilância do vírus. 

A pesquisa passou a operar em tempo real, com impacto direto sobre decisões em saúde pública. Foi nesse contexto em que ela contraiu covid-19, mantendo-se em isolamento enquanto acompanhava as atividades do instituto, em um momento em que a ciência se consolidava como ferramenta central no enfrentamento da crise. 

Mulher e cientista 

Ao longo dessa trajetória, a presença feminina na ciência aparece como parte do caminho que Sandra precisou sustentar. No Brasil, a participação de mulheres em publicações científicas passou de 38%, em 2002, para 49%, em 2022, segundo relatório da Agência Bori e da Elsevier. Ainda assim, a desigualdade persiste nos espaços de liderança: em 2023, elas ocupavam 45,6% dos grupos de pesquisa, com menor presença em áreas científicas e tecnológicas. 

Sandra reconhece esse peso no próprio percurso. “Tem, sim. Eu tenho uma família extremamente contributiva. Meu marido sempre me deu muito apoio. Mas, nitidamente, você está dobrando sua responsabilidade”, afirma. 

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Ao assumir a direção científica, passou a acumular gestão, produção científica, formação de pesquisadores e captação de recursos. “Eu não posso deixar de ser cientista. Eu não posso deixar de formar pessoas. Eu não posso deixar de recrutar recursos”, resume. 

A maternidade atravessou esse processo. Para sustentar todas as frentes, precisou reorganizar a rotina. “Eu tive que sucumbir o meu tempo de casa para não deixar os pratinhos caírem”, diz. 

A trajetória, no entanto, não foi solitária. Sandra destaca a importância de uma rede de apoio formada por outras mulheres, desde referências no início da carreira até o apoio da mãe, Valéria, e de pesquisadoras e familiares. Mesmo com reconhecimento, as diferenças de tratamento ainda aparecem. “Existem posições que você toma que, se eu fosse homem, seriam acatadas e ovacionadas. Por eu ser mulher, elas são ouvidas e primeiro racionalizadas.” 

Instituída em 2004 por decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é realizada anualmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento, escolas, museus, governos locais, empresas e entidades da sociedade civil. Em 2026, ao adotar como tema as Mulheres e Meninas na Ciência, a iniciativa reforça a centralidade de trajetórias como as de Sandra — pesquisadora cujos trabalhos demonstram, na prática, como a produção científica liderada por mulheres amplia o impacto social da ciência, conecta conhecimento às necessidades da população e contribui para a construção de um sistema científico mais diverso e representativo.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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