Tribunal de Justiça de MT

Após 30 anos de espera, lavrador oficializa divórcio durante Expedição Araguaia-Xingu

Publicado

Com um olhar esperançoso e uma fé inabalável, o lavrador Antônio Messias da Conceição resumiu o sentimento de quem finalmente teve o direito de seguir em frente: “A justiça é que resolve todo problema. Eu corri atrás e agora consegui resolver os meus problemas. Eu confio na justiça. A lei é quem manda”.

Foram mais de três décadas de espera, idas e vindas e tentativas frustradas. Mas durante a 7ª Expedição Araguaia-Xingu, o lavrador finalmente viu a chance de encerrar um ciclo que já durava boa parte da sua vida. Em um dos atendimentos realizados pela equipe da Justiça Comunitária do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em parceria com a Defensoria Pública, “seu” Antônio conseguiu encaminhar o processo de divórcio que ele aguardava há mais de 30 anos.

“Nós nos separamos, daí ela ‘colocou na justiça’, no Maranhão. Eu apareci na audiência e ela não apareceu. Como está há mais de 30 anos, a gente corre para resolver”, contou o lavrador, com o semblante tranquilo, mas marcado por anos de espera e incertezas.

Morador da zona rural de Campinápolis e sem condições de contratar um advogado, ele buscava uma solução para um problema que o impedia até de abrir uma conta bancária em seu nome.

“Não podia abrir uma conta no banco para não pegar o nome dela. Deus abençoe que vai dar certo. Agora, vou conseguir guardar uns reais. A gente vai ficando velho e precisamos seguir a vida”, disse.

A situação de “seu” Antônio não é isolada e justamente por isso a atuação itinerante da Justiça faz tanta diferença. Segundo Ana Carla Bock, assessora jurídica que integra a equipe da Justiça Comunitária, o caso chamou atenção pela simplicidade e pelo tempo de espera.

Leia mais:  De um novo começo ao documento na mão: Expedição leva dignidade a comunidades isoladas de MT

“‘Seu’ Antônio nos procurou e não sabia como agir, até porque é uma pessoa que não tem recursos. Ele mora em um lugar afastado e não sabia como proceder. Há um tempo ele precisou de um empréstimo e o banco disse que não poderia liberar sem a assinatura da esposa. Ele relatou que já foi citado em uma ação há mais de 30 anos, compareceu à audiência, mas ela não foi. Encaminhamos o caso para a Defensoria Pública dar entrada em um pedido de divórcio litigioso unilateral, com tutela de urgência, e regularizar a situação”, explicou.

Para a assessora jurídica da Defensoria Pública, Paula Martins, o caso é um exemplo claro da importância de ações como a expedição, que proporcionam o acesso à Justiça a quem mais precisa.

“Ele já está há mais de 30 anos separado de fato. Agora, buscamos ingressar com um pedido de divórcio unilateral para que ele consiga uma liminar e uma sentença e retome a vida novamente. Muitas vezes as pessoas se separam e demoram anos para regularizar a situação, o que acarreta vários conflitos”, pontuou.

A história dele é uma entre tantas atendidas ao longo da 7ª Expedição Araguaia-Xingu, uma iniciativa do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, coordenada pela Justiça Comunitária, que percorre milhares de quilômetros levando serviços jurídicos, atendimentos sociais e cidadania a comunidades distantes, muitas delas sem acesso a esses direitos básicos.

Leia mais:  Sessões da Segunda Câmara Criminal do mês de outubro serão realizadas por videoconferência

Parceiros da 7ª Expedição Araguaia-Xingu

Compõem a lista de parceiros e instituições participantes a Casa Civil, a Proteção e Defesa Civil, a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) — nas áreas de Cultura e Esporte —, a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), a Secretaria de Estado de Saúde (SES), por meio do programa Imuniza Mais, e a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp).

Integram ainda o grupo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), o Juizado Especial Volante Ambiental (Juvam), o Programa Verde Novo, a Companhia de Polícia Ambiental de Tangará da Serra, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, o Detran-MT, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a Polícia Judiciária Civil (PJC), o Exército Brasileiro e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Somam-se aos parceiros a Defensoria Pública de Mato Grosso, o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), o Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur) do TJMT, a Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), a Caixa Econômica Federal, a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), a Receita Federal, a Aprosoja e a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT).

A relação de colaboradores contempla também a Energisa, as Prefeituras de Campinápolis e de Bom Jesus do Araguaia, além do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Autor: Vitória Maria Sena

Fotografo: Josi Dias

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Comentários Facebook
publicidade

Tribunal de Justiça de MT

Quando um filho chama

Publicado

Foto vertical que mostra o presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira, sentado em seu posto no plenário do tribunal, olhando para o lado. Ele é um senhor branco, de cabelo e barba brancos, usando toga e óculos de grau.Há um instante pequeno, quase invisível, em que a paternidade se revela: um filho chama, e o pai decide se continua o que estava fazendo ou olha para ele e o escuta. É uma cena comum, dessas que os adultos deixam passar. A criança pode guardá-la por muito tempo.

No Dia dos Pais, é natural celebrar afeto, cuidado e dedicação. A data também deixa uma pergunta incômoda: quando nossos filhos pensarem em nós anos depois, do que se lembrarão? Talvez esqueçam o que lhes demos. Dificilmente esquecerão como se sentiram ao nosso lado.

Quem trabalha na Justiça conhece as consequências de vínculos que se romperam ou nunca chegaram a se formar. Processos de reconhecimento de paternidade, pensão alimentícia e convivência familiar trazem histórias marcadas por espera, conflito e ausência. A lei pode reconhecer o vínculo, exigir sustento e proteger direitos. Nenhuma decisão judicial, porém, consegue fazer um pai parar e ouvir o filho com interesse.

Nos processos de família, os autos registram as versões dos adultos, mas a infância continua enquanto o caso é analisado. A rapidez importa. O tempo de uma criança não espera o andamento do processo. Um ano de demora pode atravessar uma etapa inteira de sua formação e transformar distância em costume.

Leia mais:  Juíza de Porto Alegre do Norte participa de encontro para fortalecer Rede de Proteção Infantil

Nenhum pai sabe tudo, embora muitos sintam que deveriam ter respostas para tudo. O filho precisa se aproximar sem achar que está incomodando quando o pai trabalha, usa o telefone ou está cansado. É preciso ouvi-lo antes de responder, perceber quando o silêncio esconde alguma coisa e reconhecer os próprios erros. Uma tarde comum pode ficar na memória por décadas porque o pai interrompeu o que fazia e permaneceu ali.

Muitos homens receberam pouco dos próprios pais e acabam repetindo a única forma de convivência que conheceram: disciplina sem ternura e afastamento. Esse passado ajuda a explicar a dificuldade, mas não precisa determinar o próximo gesto. Um pai pode pedir perdão, aproximar-se sem discurso e aprender, mesmo tarde, a demonstrar afeto.

Nenhum filho convive com um pai perfeito. Convive com um homem que trabalha, se cansa, erra e às vezes chega tarde à conversa necessária. Um pai pode morar longe e continuar presente. Há homens que não geraram uma criança, mas assumiram seu cuidado. Ao reconhecer a falha, o pai pode reconstruir a relação. A indiferença repetida ensina o filho a não esperar.

Leia mais:  Cidadão pode participar da Ouvidoria do TJMT com sugestões, elogios e reclamações

Toda criança tem direito a sustento, proteção e convivência. Há uma necessidade que nenhum processo consegue medir: saber que sua existência importa para alguém. Quando encontra essa certeza no pai, o filho ganha segurança para enfrentar a vida e tem condições de não repetir com os próprios filhos as ausências com que cresceu.

Muitos filhos esquecerão o presente dado ao pai neste domingo. Anos depois, uma conversa na cozinha ou a tarde em que o pai percebeu que havia algo errado poderá voltar à memória com nitidez inesperada. Ninguém planeja essas lembranças. Elas surgem enquanto a vida comum acontece: o telefone deixado sobre a mesa e uma conversa sem pressa.

José Zuquim Nogueira

Presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Comentários Facebook
Continue lendo

Mais Lidas da Semana