Tecnologia
Brasil consolida propostas científicas para a COP30 em encontro no Rio de Janeiro
Publicado
7 de outubro de 2025, 17:00
Urgência climática e ciência brasileira. Esses foram os assuntos que permearam o Workshop Integração e Fortalecimento da Ciência da Agenda Climática. O encontro foi promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no Rio de Janeiro. Foram reunidos cerca de cem dos principais cientistas do País em debates que resultarão em um documento com propostas a serem apresentadas na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que terá sede em Belém (PA) em 2025.
A ministra Luciana Santos (MCTI) afirmou, em vídeo, que seria um momento para mapear temas prioritários, identificar lacunas e desenhar proposições que dialoguem com os compromissos internacionais e as demandas nacionais. “O MCTI reafirma seu compromisso de fortalecer redes de ciência em todas as regiões do País e garantir que a produção científica brasileira tenha voz ativa nos fóruns globais”. A discussão foi gravada e está disponível no Youtube.

- Ministra Luciana Santos em vídeo enviado ao evento. Foto: Lucas Landau/Finep
A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, reforçou: “será a COP da verdade, e a verdade é baseada na ciência”. O encontro contou com quatro painéis que permearam o contexto nacional de pesquisa, internacional, a situação atual da Amazônia e a apresentação das proposições para a COP30. Após isso, foi feita uma síntese dos debates e o encerramento.
O secretário-executivo do MCTI, Luis Fernandes, também esteve presente no Workshop. Ao final dos debates, a autoridade valorizou o diálogo construído e sua importância em diversos campos. “O debate aqui é fundamental porque traz para o tema ciência o enfrentamento do negacionismo”, iniciou.

- Luis Fernandes durante participação no evento. Foto: Lucas Landau/Finep
Fernandes disse ainda que a COP30 é uma oportunidade de construir pontes de cooperação internacional e multilateralista. “A ciência tem um papel particular nisso. Daqui vem uma agenda que colabora com a da COP30. A Finep sediar esse evento contribui com o pensamento crítico e o mundo. Trago a saudação do MCTI e o registro da importância de todas essas contribuições aqui feitas à COP30”.
Brasil como protagonista
Um consenso entre os participantes do workshop é que o País assume um protagonismo especial na COP30 e que o destaque do Brasil traz a oportunidade de restabelecer o lugar da sua ciência após um período de negacionismo. De acordo com os especialistas, a expansão científica deve integrar a base já existente, trazendo identidade à produção científica brasileira.
A secretária de Políticas e Programas Estratégicos (Seppe), do MCTI, Andrea Latgé, falou no primeiro painel do evento e destacou projetos liderados pela pasta que apoiam a urgência climática. Para ela, existe alta necessidade de um trabalho transversal.

- Andrea Latgé durante participação no evento. Foto: Lucas Landau/Finep.
“O governo tem que estar junto, os ministérios têm que estar colados. Um tem que falar a linguagem do outro. É ótimo ter divergências, elas melhoram nossos resultados, mas a gente tem que fazer política pública unida e discutindo todos os lados dos problemas”, disparou. Ela lembrou ainda que o MCTI lidera estudos que subsidiam a agenda climática brasileira, além de alertar sobre desastres geohidrológicos (Cemanden) e mapeamento de riscos climáticos (Adapta Brasil). “Programas de ponta e plataformas de mapeamento são nossa rotina e radar”, completou.
Valorização da ciência
Grande autoridade do clima, o cientista brasileiro e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Nobre, esteve presente no evento durante o primeiro painel. Em sua fala, relembrou grandes conquistas alcançadas pelo setor científico, entre elas a Rede Clima, onde participou da criação, em 2007.

- Carlos Nobre durante participação no evento. Foto: Lucas Landau/Finep
A Rede Clima (Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais) é uma rede de pesquisadores e especialistas que dissemina conhecimento sobre as mudanças climáticas no Brasil. “Não há dúvida que foi superimportante para dar uma grande escala à qualidade da pesquisa sobre toda a emergência climática que vivemos”, disse.
Nobre é um dos vencedores do Prêmio Nobel da Paz de 2007. O climatologista foi reconhecido junto de uma equipe internacional de cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e Al Gore, por seus esforços em alertar o mundo sobre os perigos do aquecimento global e defender a preservação ambiental.
Segundo ele, a COP30 precisa ser tratada como a mais importantes já realizada. “A COP30 tem que ser a mais importante das 30 COPs, porque o Acordo de Paris e a COP 26 foram muito importantes, mas nós temos que fazer essa ainda maior”, disse.

- Mercedes Bustamante durante sua participação no evento. Foto: Lucas Landau/Finep
Já a professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante, destacou a importância da discussão da desigualdade entre gerações. “Existe uma disparidade entre gerações passadas, responsáveis pelas emissões, e as futuras, que viverão seus impactos”, determinou. Ela atribuiu a recuperação deste cenário a uma ação múltipla em todos os setores. “Sem uma ação climática ambiciosa, o desenvolvimento sustentável não pode ser alcançado”, finalizou.
A base da ciência brasileira

- Ricardo Galvão durante participação no evento. Foto: Lucas Landau/Finep
O presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ricardo Galvão, destacou a necessidade do combate às fake news, ao negacionismo e às mentiras. Para ele, a base da ciência brasileira está concentrada nos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) e nas universidades. No entanto, segundo a autoridade, é preciso aumentar a integração entre os institutos, universidades e pesquisadores. “Universidades até muito próximas trabalham sobre mesmos temas, com quase nenhuma articulação.”
O presidente da Finep, Luis Antonio Elias, fez a mesma crítica e afirmou ser necessário abraçar as unidades de pesquisa. “Temos que reforçar a importância das unidades de pesquisa, pela força que elas têm. Precisamos, como atores políticos, como seres, pensar sempre adiante”, disse.

- Luis Antonio Elias no evento. Foto: Lucas Landau/Finep
Elias afirmou ainda que o País tem muitas características aliadas à luta contra as mudanças climáticas. “O Brasil tem ciência de qualidade, diversidade de ecossistemas, matriz energética limpa, capacidade de inovação e, cada vez mais, compromisso político com a sustentabilidade. Podemos e devemos ser protagonistas globais na construção de um futuro sustentável, próspero e justo”, afirmou.
Agenda do Clima no MCTI
O diretor do Departamento para o Clima e Sustentabilidade (DECLS) da Seppe, Osvaldo Moraes, participou do segundo painel do evento e destacou ações do MCTI na Agenda do Clima. Ele detalhou o Inventário Nacional de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (GEE).
O programa promove o desenvolvimento de redes de pesquisa multi-institucionais e interdisciplinares, com foco no enfrentamento de grandes desafios. “Tudo o que a gente faz está ancorado em ciência e tecnologia feitas pelas unidades de pesquisa. Todo o sistema é irrigado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [FNDCT], CNPq e Finep”, disse.
O diretor expôs ainda dados da produção científica por meio de artigos e estudos ilustrados na apresentação. “Se a temperatura permanecer por mais de 1,5 grau, aproximadamente 50% das espécies correm risco de extinção. A ciência está dando sinais claros de que tudo que estamos fazendo de NDC [Contribuição Nacionalmente Determinada, termo do Acordo de Paris que se refere aos compromissos de cada país para reduzir as emissões de gases de efeito estufa] pode não estar funcionando”, continuou.
Dentro do MCTI, ele destacou a necessidade de aproximação do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. “Estamos tentando superar isso com o lançamento do livro Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento, com capítulos liderados por pesquisadores da área. Esse esforço busca uma cooperação para além do que está dentro do ministério”. O livro será lançado na COP30.
Demais pesquisadores participantes destacaram a necessidade de metas climáticas mais ambiciosas, diálogo amplo e transversal, alinhamento de pesquisas, valorização do Acordo de Paris, popularização da ciência, conscientização na base da educação, ações interdisciplinares e investimento massivo.
O workshop foi finalizado com a reafirmação do compromisso coletivo entre governo, comunidade científica e sociedade civil em fortalecer a ciência brasileira como base estratégica para enfrentar a crise climática. As propostas debatidas serão sistematizadas em um documento a ser apresentado na COP30, reforçando o papel do Brasil como protagonista global nas negociações climáticas e evidenciando que somente com ciência, integração e ação coordenada será possível avançar rumo a um futuro sustentável.
Tecnologia
Ciência leva soluções para a saúde, a produção de alimentos e a educação no Vale do São Francisco
Publicado
27 de junho de 2026, 12:01
A ciência ganha novos caminhos para transformar a vida de quem vive no Semiárido. Nesta sexta-feira (26), em Juazeiro (BA), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou um conjunto de projetos que reúne inovação, desenvolvimento regional e inclusão social. As iniciativas vão desde o reaproveitamento da água e a geração de energia limpa nas propriedades rurais até uma plataforma digital para reduzir o tempo de espera de pacientes com câncer e a ampliação da educação científica nas escolas públicas. Ao todo, são mais de R$ 43 milhões em investimentos voltados ao Vale do São Francisco.
Durante a cerimônia, a ministra Luciana Santos destacou que o desenvolvimento do país passa pela capacidade de transformar conhecimento em soluções concretas para a população. “Hoje estamos lançando ações que têm um mesmo objetivo: melhorar a vida das pessoas. Levar mais água, mais produção, mais saúde, mais educação e mais inovação para uma região que historicamente aprendeu a resistir, mas que hoje também é protagonista da ciência, da inovação e do desenvolvimento sustentável”, afirmou.
A ministra também ressaltou que a retomada dos investimentos em ciência e tecnologia tem permitido ampliar a presença do MCTI nos estados. Entre 2023 e 2025, o ministério investiu mais de R$ 1,3 bilhão na Bahia, fortalecendo universidades, institutos de pesquisa e projetos voltados ao desenvolvimento regional.
Um dos destaques do evento foi a ampliação do Sistema Sara, tecnologia social desenvolvida pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) para tratar o esgoto doméstico e reutilizar a água na produção agrícola.
A diretora substituta do Insa, Dilma Trovão, ressaltou que o Sistema Sara é resultado da aplicação do conhecimento científico às necessidades da população. “É uma tecnologia simples, mas profundamente transformadora. Desenvolvida por pesquisadores do instituto, ela trata a água utilizada nas residências para que possa voltar à produção agrícola, levando saneamento ambiental, fortalecendo a agricultura familiar e garantindo mais saúde e dignidade para quem mora no Semiárido”, afirmou.
A iniciativa transforma um problema ambiental em oportunidade para agricultores familiares, permitindo irrigar hortas, pomares e áreas de cultivo, além de ampliar a segurança hídrica e alimentar das comunidades rurais. O investimento de R$ 21 milhões permitirá a implantação de mais 41 unidades do sistema, das quais 23 já estão em execução, sendo 16 na Bahia.
Desde sua criação, o Sistema SARA já beneficiou centenas de famílias em nove estados do Semiárido, contribuindo para eliminar o esgoto a céu aberto, aumentar a produtividade agrícola e fortalecer a adaptação às mudanças climáticas.
Tecnologia para agilizar o tratamento do câncer
Na área da saúde, o MCTI anunciou investimento de R$ 1,2 milhão no Projeto Dant, que desenvolverá um ecossistema digital para apoiar a gestão Oncológica do Sistema Único de Saúde (SUS).
O coordenador do Projeto DANT, Manoel Messias, destacou que a proposta utiliza tecnologia para tornar o atendimento oncológico mais ágil e acessível. “Queremos desenvolver ferramentas que aproximem os pacientes do sistema de saúde, especialmente aqueles que vivem em áreas mais vulneráveis. A expectativa é que essa experiência se torne referência para o SUS e mostre que a ciência e desenvolvimento tecnológico também nascem no interior do Brasil”, disse.
A plataforma reunirá informações clínicas e epidemiológicas para qualificar a tomada de decisão dos gestores e integrar os diferentes níveis de atendimento, reduzindo o tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento.
A iniciativa beneficiará cerca de 2,1 milhões de pessoas em 53 municípios da Bahia e de Pernambuco atendidos pela Rede Interestadual de Saúde Pernambuco-Bahia (Rede PEBA).
Mais ciência dentro das escolas
A programação incluiu ainda a ampliação do programa Mais Ciência na Escola em Juazeiro. Durante o evento, foram anunciadas mais duas escolas contempladas, com investimento de R$ 200 mil destinado à implantação de laboratórios maker e à concessão de bolsas de iniciação científica, ampliando as oportunidades para que estudantes tenham contato com a pesquisa desde a educação básica.
O coordenador do programa Mais Ciência na Escola na Bahia, Antonio Brotas, enfatizou que o principal legado da iniciativa permanece nas escolas. “O conhecimento fica com professores e estudantes, fortalecendo a educação científica e mostrando que a ciência é para todos”, ressaltou.
Na Bahia, a iniciativa já atende 182 escolas, com investimento superior a R$ 18 milhões do MCTI. No município, 12 escolas participam do programa, envolvendo 120 estudantes bolsistas e 12 professores orientadores.
Inteligência de dados para fortalecer o campo
Fechando o conjunto de anúncios, o MCTI lançou o Sistema de Diagnóstico Rural Familiar, desenvolvido em parceria com o Instituto Federal da Bahia (Ifba), no Campus Irecê.
Para o coordenador do projeto Irecê, Jeime Nunes de Andrade, a iniciativa aproxima a agricultura familiar das tecnologias digitais. “Nosso objetivo é levar conceitos da agricultura de precisão para apoiar agricultores familiares com dados e inteligência artificial, aumentando a produtividade e fortalecendo a geração de renda no Semiárido”, finalizou.
A plataforma digital reunirá informações sobre solo, recursos hídricos, produção agrícola, criação de animais e dados georreferenciados, além de utilizar inteligência artificial para interpretar análises de solo e água e gerar recomendações de manejo.
A ferramenta apoiará agricultores familiares, equipes de assistência técnica e gestores públicos, contribuindo para aumentar a produtividade, ampliar o acesso ao crédito rural e orientar políticas públicas para cerca de 20 municípios do território de Irecê.
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