Política Nacional

Câmara aprova projeto que exige uso de linguagem simples na comunicação de órgãos públicos

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A Câmara dos Deputados aprovou emendas do Senado ao projeto de lei que institui uma política nacional de linguagem simples, com procedimentos a serem adotados pelos órgãos e entidades da administração pública em suas comunicações com a população. A proposta será enviada à sanção presidencial.

De autoria da deputada Erika Kokay (PT-DF), o Projeto de Lei 6256/19 contou com substitutivo do deputado Pedro Campos (PSB-PE) e parecer favorável às emendas pela relatora, deputada Lídice da Mata (PSB-BA).

Lídice de Mata afirmou que as emendas do Senado são adequadas para ampliar o uso da linguagem simples pela administração pública. “É meritória e oportuna a matéria, que universaliza a obrigatoriedade da linguagem simples, estendendo-a a todos os poderes e esferas federativas, conforme os princípios da legalidade e da impessoalidade”, disse.

A autora, deputada Erika Kokay, afirmou que a proposta vai facilitar o controle social pela população. “Se você transforma a linguagem e os atos da administração como sendo compreensíveis para o conjunto da população, você assegura o processo democrático, e as pessoas vão saber entender as mensagens”, explicou.

Segundo o texto aprovado nesta terça-feira (21), os órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os poderes da União, de estados, do Distrito Federal e dos municípios deverão definir um servidor encarregado do tratamento da informação em linguagem simples.

Esse servidor terá as atribuições de fazer o treinamento dos comunicadores do órgão sobre as técnicas da linguagem simples e supervisionar a aplicação da futura lei em seu órgão, tomando as providências administrativas para que a política de linguagem simples seja executada. Suas informações de contato deverão ser divulgadas preferencialmente no site do órgão.

Uma das emendas dos senadores aprovada retirou trecho que isentava municípios com menos de 50 mil habitantes de seguir a lei se isso implicasse aumento de despesas.

Conceito
O texto considera linguagem simples o conjunto de técnicas para transmitir informações de maneira clara e objetiva, permitindo ao leitor encontrar facilmente o que procura, compreender o que encontrou e usar a informação. Para isso, devem ser usadas palavras, estrutura e leiaute da mensagem que facilitem essa obtenção de informação.

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Nos casos em que a comunicação oficial se destinar a comunidade indígena, além da versão em português, o projeto determina a feitura de uma versão no idioma do destinatário sempre que possível.

Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Discussão e votação de propostas legislativas. Dep. Erika Kokay (PT - DF)
Erika Kokay, autora do projeto de lei

Técnicas
Os senadores sugeriram e a Câmara aprovou emenda para retirar do texto a necessidade de se seguir o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp).

Quanto às técnicas de linguagem simples que a administração pública deverá adotar na redação de textos destinados ao cidadão, a lista de 11 técnicas passa para 18.

Confira algumas delas:

  • redigir frases curtas e em ordem direta;
  • organizar o texto para que as informações mais importantes apareçam primeiro;
  • desenvolver uma ideia por parágrafo;
  • usar sinônimos de termos técnicos e de jargões ou explicá-los no próprio texto;
  • evitar palavras estrangeiras que não sejam de uso corrente;
  • organizar o texto de forma esquemática quando couber, com o uso de listas, tabelas e gráficos;
  • usar linguagem acessível à pessoa com deficiência;
  • evitar palavras imprecisas; e
  • testar com o público-alvo se a mensagem é compreensível.

Objetivos e princípios
Quanto aos objetivos da política nacional, o projeto pretende reduzir a necessidade de intermediários nas comunicações entre os poderes públicos e a população; e reduzir os custos administrativos e o tempo gasto com atividades de atendimento ao cidadão.

Outros objetivos são facilitar a compreensão das comunicações públicas para pessoas com deficiência; promover a transparência ativa e o acesso à informação pública de forma clara; e facilitar a participação e o controle da gestão pública pela população.

Em relação aos princípios, destacam-se o foco no cidadão e a facilitação de seu acesso aos serviços públicos; a transparência; e a facilitação de sua participação no controle social.

O deputado Pedro Campos disse que relatou o projeto pensando em seu irmão adolescente com síndrome de Down. “O Estado brasileiro precisa ter linguagem simples, falar de maneira acessível, conversar com todos, para poder dar transparência para o cidadão entender seus direitos e acessá-los”, declarou. Campos foi relator do texto quando este esteve na Câmara na primeira vez.

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O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) também defendeu o projeto. Para ele, a linguagem é uma forma de dominação. “Quando você sofistica, complexifica, você quer manter na ignorância e desconhecimento, à distância aqueles a quem você supostamente se dirige”, disse.

A linguagem jurídica, de acordo com o deputado, acaba criando uma casta, e não favorece a fruição da Justiça. “A gente aprovar a linguagem simples nos documentos oficiais é um passo de democratização.”

Linguagem de gênero
Outra das técnicas listadas determina não usar novas formas de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa, como “todes”, usado comumente para se referir a pessoas que não se identificam com o gênero masculino ou feminino.

Deputados da oposição ressaltaram que o texto não deve validar o uso da chamada linguagem neutra, usada para evitar marcadores de gênero (como ‘o’ e ‘a’) para ser mais inclusiva com pessoas não binárias.

O deputado Eli Borges (PL-TO) falou que é a favor da linguagem simples, mas disse ser contra a neutra. “Não podemos ideologizar o português. À linguagem simples, mais comunicativa, ninguém vai se opor”, declarou.

Para o deputado Junio Amaral (PL-MG), o texto coloca a necessidade de se repudiar a “aberração linguística” da linguagem neutra. Para o deputado Bibo Nunes (PL-RS), a linguagem neutra é “forçar a barra”.

A autora do projeto, Erika Kokay, disse que a proposta nunca tratou de linguagem neutra, mas de linguagem simples.

Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei

Reportagem – Eduardo Piovesan e Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli

Fonte: Câmara dos Deputados

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Política Nacional

Relatório final do grupo de trabalho sobre combate à misoginia será apresentado na próxima quarta-feira

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A Câmara dos Deputados encerrou nesta quarta-feira (3) a fase de audiências públicas do grupo de trabalho que analisa o Projeto de Lei 896/23, que equipara a misoginia, definida como o ódio ou a aversão às mulheres, ao crime de racismo. O texto prevê penas de 2 a 5 anos de reclusão para combater discursos de ódio e a discriminação baseada na crença da supremacia masculina.

A coordenadora do colegiado, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), anunciou que o grupo ainda pode receber sugestões técnicas para construir a versão final do texto para votação. Segundo a deputada, o relatório será apresentado na próxima quarta-feira (10), às 14 horas. “Nós encerramos as audiências públicas e entramos na fase de receber contribuições textuais”, pontuou.

A última audiência pública reuniu juristas, pesquisadores e diplomatas para avaliar a eficiência jurídica da proposta. O objetivo é assegurar que os novos mecanismos possam ser aplicados de forma prática pelo sistema de Justiça e estejam alinhados com os princípios da Constituição Federal, como a liberdade de expressão e a dignidade humana.

Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Aspectos jurídicos da criminalização da misoginia: direito nacional constitucionalidade e experiências internacionais. Chefe de Gabinete da Embaixada da França em Brasília e Conselheira Política, Cynthia Ohayon.
Cynthia Ohayon: direito francês prefere focar em “sexismo” ou “violência sexista e sexual”

Experiências estrangeiras
Representantes estrangeiros compartilharam as experiências de seus países. Simon Fairweather explicou que o Reino Unido incluiu gênero na lista de motivações de crimes de ódio. Pela legislação britânica, se um crime for motivado por hostilidade baseada no gênero, a pena se torna mais severa. O diplomata também destacou ações voltadas para o ambiente digital, como a proibição de aplicativos de inteligência artificial que tiram a roupa de mulheres em fotos sem autorização.

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Já a representante da embaixada francesa, Cynthia Ohayon, afirmou que a lei da França evita o termo “misoginia” por considerá-lo amplo e subjetivo. O direito francês prefere focar em “sexismo” ou “violência sexista e sexual”. Ela detalhou que o país pune severamente o assédio de rua e ataques virtuais coordenados. Ela alertou, porém, que as leis sozinhas não resolvem o problema e apontou que a subnotificação e o arquivamento de casos ainda são desafios reais na França.

Decisões do STF
A presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, Maira Recchia, disse que o Brasil precisa de uma legislação específica para frear o aumento e a crueldade da violência de gênero, impulsionada por grupos organizados na internet.

Ela sugeriu que o projeto adote o termo “preconceito de gênero” ao lado da palavra misoginia, para alinhar o texto a decisões do Supremo Tribunal Federal. “A nossa liberdade de expressão encontra limite quando ela violenta o outro”, ressaltou a advogada.

Discurso de ódigo
A constitucionalista Alice Bianchini, presidente da Associação Brasileira de Mulheres de Carreiras Jurídicas, garantiu que a proposta atende aos critérios técnicos necessários para integrar o sistema penal. Ela rebateu críticas de que o texto criaria um conceito vago e explicou que a proposta segue a mesma lógica das leis que já punem o racismo e a homotransfobia. “O discurso de ódio não está acobertado pela liberdade de expressão”, afirmou Bianchini.

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O projeto, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), já foi aprovado pelo Senado. A proposta também dobra a pena prevista no Código Penal para crimes como injúria, difamação e calúnia cometidos contra mulheres em contexto de violência doméstica.

Se o texto for aprovado pela Câmara dos Deputados sem alterações, poderá seguir diretamente para a sanção presidencial.

Reportagem – Murilo Souza
Edição – Geórgia Moraes

Fonte: Câmara dos Deputados

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