O Governo de Mato Grosso construiu junto ao Ministério Público do Estado e Assembleia Legislativa termo de acordo judicial para promover solução técnica, ambiental, fundiária e jurídica, regularizando definitivamente a área do Parque Cristalino II, localizado no Norte do Estado.
Dessa forma, o Parque Cristalino II passará a ter área total de 119.451,95 hectares de florestas nativas, com conservação e proteção integral. Ou seja, 1,4 mil hectares a mais de áreas protegidas, do que tinha à época do decreto de sua criação, que eram 118 mil hectares.
Com o acordo global, chega ao fim ao problema das áreas ocupadas irregularmente na unidade de conservação. Considerando que o parque é alvo de disputas há pelo menos 25 anos, o acordo permitirá a extinção definitiva dos processos judiciais, inclusive de decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que determinou a nulidade do decreto de criação do parque, em abril de 2024.
O acordo prevê a retirada de uma parte da área, que foi ocupada na década de 1990 para agropecuária, mas também acrescenta novas áreas protegidas ao traçado do parque. Consta no acordo que o Estado fará estudos técnicos, ambientais, fundiários e socioeconômicos para inclusão de uma área pública preservada de 5 mil hectares, localizada fora do perímetro do parque, para ampliação da área da unidade de conservação.
A solução definitiva da nova área do Parque Cristalino II será votada pela Assembleia Legislativa, por meio de projeto de lei, que também deverá realizar audiência pública para consulta à população.
Sociedade Comercial e Agropecuária Triângulo Ltda., e Sociedade Comercial AJJ Ltda se comprometem a não desmatar novas áreas e reduzir as atividades agropecuárias na região. Além disso, as empresas deverão buscar as devidas regularizações fundiárias de suas áreas no âmbito estadual e construir a sede administrativa do parque.
A Sociedade Comercial AJJ Ltda também fica obrigada a pagar R$ 45 milhões ao Estado, em nove parcelas anuais, a título de contribuir para preservação das florestas nativas dentro do Parque Cristalino II. Os recursos serão utilizados conforme definição do Poder Executivo.
O parque foi criado em 30 de maio de 2001 e está localizado na Amazônia mato-grossense. Naquele ano, a unidade de conservação foi anexada ao Parque Estadual Cristalino I, criado em 2000.
Na região dos Parques Estaduais Cristalino I e II foram identificadas mais de 600 espécies de aves, sendo que 25 estão ameaçadas de extinção, 82 espécies de répteis, 60 de anfíbios, 98 de mamíferos, 2 mil de borboletas, 39 de peixes, além de mais de 1,4 mil espécies de plantas já catalogadas. Ao todo, são 41 espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção e 38 espécies endêmicas.
Lágrimas, orações, cânticos e manifestações de fé marcaram a manhã histórica de sábado (13.6), em Jauru, na cerimônia que oficializou a beatificação do padre Nazareno Lanciotti. Sob o sol forte do oeste mato-grossense, milhares de fiéis permaneceram por horas acompanhando a celebração de beatificação do missionário italiano, assassinado em 2001, reconhecido agora pela Igreja Católica como mártir da fé. Nem o calor intenso diminuiu a emoção de quem aguardava há mais de duas décadas por esse momento.
A celebração reuniu mais de 80 caravanas de diversas regiões de Mato Grosso e de outros Estados, além de autoridades civis e religiosas. Estiveram presentes o governador Otaviano Pivetta, secretários de Estado, parlamentares e representantes da Igreja Católica de várias partes do Brasil. O momento mais aguardado ocorreu quando o cardeal Dom João Braz de Aviz, enviado do Vaticano para representar o Papa Leão XIV, leu a carta apostólica que oficializou a beatificação.
“Concedemos que o venerável servo de Deus, Nazareno Lanciotti, mártir, missionário infatigável do Evangelho, fundador fecundo de obras de caridade social e promotor dedicado do culto mariano, seja doravante chamado Beato”, declarou o cardeal diante da multidão.
Mais do que um marco religioso, a cerimônia abriu uma nova perspectiva para Jauru. Com a beatificação, a cidade passa a integrar o mapa dos destinos de peregrinação católica e pode se consolidar como um importante polo de turismo religioso em Mato Grosso.
A expectativa da Igreja é que o fluxo de visitantes aumente nos próximos anos. Hoje, Jauru já recebe peregrinos atraídos pela história do padre Nazareno, pelo Movimento Sacerdotal Mariano e pelos locais ligados à sua trajetória. Com o reconhecimento oficial da Igreja, esse movimento tende a se intensificar.
Para o padre Diogo Monteiro, da Arquidiocese de Cuiabá, a beatificação coloca definitivamente o município no cenário nacional do turismo religioso.
“Jauru já era um lugar de peregrinação. Todos os anos, os fiéis vinham por causa da história do padre Nazareno e da espiritualidade mariana. Agora, com a beatificação e com as relíquias do beato preservadas aqui, a tendência é que esse movimento cresça ainda mais”, afirmou.
Segundo ele, muitas pessoas que chegaram para a cerimônia nunca haviam visitado a cidade. “A beatificação colocou Jauru e também Mato Grosso no cenário do turismo religioso. Muita gente está conhecendo a cidade pela primeira vez e descobrindo toda a história construída aqui”, disse.
Os locais ligados ao beato já formam uma espécie de roteiro de fé para os visitantes. Entre eles estão a Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, onde está a urna com os restos mortais do beato; o Memorial Beato Nazareno Lanciotti; o Santuário Imaculado Coração de Maria; o Hospital Nossa Senhora do Pilar; o Lar dos Velhinhos Imaculado Coração de Maria; além da Sala do Martírio, do bosque e de outros espaços que preservam sua memória.
A transformação de Jauru em destino de peregrinação encontra respaldo na própria história do sacerdote italiano que chegou à região na década de 1970. Durante quase três décadas, padre Nazareno permaneceu na mesma paróquia, dedicando-se não apenas à evangelização, mas também à criação de obras sociais, projetos educacionais e ações voltadas ao atendimento dos mais vulneráveis.
O cardeal Dom João Braz de Aviz destacou que a relevância do reconhecimento vai além do aspecto religioso.
“Se a gente olha Jauru quando ele chegou e o que é hoje, pode notar não apenas o crescimento da Igreja, mas também o crescimento humano e social proporcionado por ele. Basta ver as obras sociais que ficaram”, afirmou.
O legado permanece vivo na memória dos moradores que conviveram com o sacerdote. Um deles é Adilson Barbosa dos Santos, conhecido como Pio, que foi coroinha do padre Nazareno e hoje atua como ministro da Igreja Católica.
Visivelmente emocionado ao lembrar do antigo pároco, ele recordou a convivência iniciada ainda na infância.
“Tudo o que existe aqui na igreja, o asilo, tantas obras, têm a marca dele. Ele doou a vida por essa cidade. Eu fui coroinha do padre Nazareno e depois recebi dele o convite para ser ministro. Foi um sonho realizado.”
Para Pio, a beatificação representa também uma oportunidade de desenvolvimento para Jauru.
“Eu acredito que a cidade deu um grande passo. O padre Nazareno fez muito por nós e creio que Jauru vai crescer ainda mais com esse reconhecimento.”
Entre os milhares de fiéis presentes estava a controladora interna Bárbara Nathalia Nogueira Garnica Rocha, que visitou Jauru pela primeira vez especialmente para acompanhar a cerimônia.
“A figura do padre Nazareno nos mostra que a devoção mariana nos leva a amar ainda mais Jesus Cristo. Estar aqui hoje é muito significativo. É um evento grandioso, o primeiro desse tipo em Mato Grosso, acontecendo praticamente no quintal de casa”.
Embora a beatificação represente a conclusão de uma etapa importante, para a Igreja ela também pode ser o início de um novo caminho. O próximo passo possível é a canonização, que transformaria o beato em santo.
Rumo à santificação
Amigo da família Lanciotti e autor de um livro sobre sua trajetória, o italiano Ivaldo Riva acompanha o processo há anos e acredita que a devoção popular ao beato será fundamental para essa nova fase.
Ele próprio atribui ao padre Nazareno uma experiência que considera milagrosa. Após sofrer uma hemorragia cerebral e passar por uma cirurgia complexa em 2017, disse ter recorrido à intercessão do sacerdote.
“A emoção de todo esse processo está ligada a essa experiência que vivi. Sempre acreditei na santidade do padre Nazareno”, contou.
Segundo ele, a beatificação foi construída não apenas por documentos e investigações, mas também pela fé das pessoas que mantiveram viva a memória do sacerdote durante mais de duas décadas.
“Uma coisa que sempre me impressionou foi perceber que já existia um culto popular. As pessoas vinham rezar, visitar o túmulo, manter viva a lembrança dele. Isso foi muito importante para a beatificação.”
Agora, a expectativa é que a devoção cresça ainda mais. Se um milagre for oficialmente reconhecido pelo Vaticano por intercessão do beato Nazareno Lanciotti, o missionário que dedicou a vida a Jauru poderá dar o próximo passo rumo aos altares da Igreja Católica, transformando a cidade que escolheu para viver e morrer em um dos mais importantes centros de peregrinação religiosa do Centro-Oeste brasileiro.
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