Educação

MEC lança novo curso de licenciatura intercultural indígena

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Em um território marcado pela preservação de saberes ancestrais e pela defesa do direito à educação própria, o Ministério da Educação (MEC), em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), lançou o curso de Licenciatura Intercultural Indígena, na terça-feira, 16 de junho, durante visita à Aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto/Jarina, no Mato Grosso. Após horas de viagem por trechos de asfalto, estradas de terra e travessia de balsa sobre o Rio Xingu, uma comitiva do MEC, composta pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), chegou à aldeia para realizar a entrega aguardada há anos pelas lideranças da região, uma conquista construída a partir das demandas dos povos indígenas que levou a oferta da formação superior para dentro do território. 

O curso, que receberá investimento de R$ 1,5 milhão do MEC, integra o Programa de Apoio à Formação Superior e às Licenciaturas Interculturais (Prolind) e representa uma mudança importante na forma de acesso à formação docente. Historicamente, muitos indígenas precisavam deixar suas aldeias para cursar a educação superior em cidades distantes. Em diversos casos, a mudança significava também o afastamento da família, da comunidade e das referências culturais. Para povos que vivem, em grande parte, daquilo que produzem em seus territórios, manter-se longe de casa durante anos de estudo nem sempre era uma possibilidade. 

Agora, a lógica se inverte, já que o curso será ofertado a partir da própria aldeia, respeitando os processos próprios de aprendizagem, as línguas indígenas e os conhecimentos tradicionais dos povos Mẽbêngôkre (Kayapó), Trumai e Tapayuna. Com 60 vagas e carga horária de 3.216 horas, a licenciatura será estruturada nos eixos de pedagogia, linguagens e humanidades, ciências da natureza e matemática. A proposta busca preparar educadores para atuar nas escolas indígenas a partir de uma formação que dialogue com os conhecimentos científicos e os processos próprios de ensino e aprendizagem desenvolvidos pelas comunidades. 

A entrega atendeu a uma demanda histórica das lideranças do Território Etnoeducacional (TEE) Mẽbêngôkre, especialmente do cacique Raoni Metuktire, que há anos defende a oferta da educação superior dentro do território indígena. A cerimônia reuniu lideranças tradicionais, educadores, representantes de instituições de ensino e gestores públicos de diferentes regiões do território. 

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A secretária da Secadi, Zara Figueiredo, destacou o significado da iniciativa para as futuras gerações indígenas. “Estar aqui hoje e ver este curso se tornar realidade é testemunhar a força de uma luta construída por muitas lideranças, educadores e comunidades ao longo dos anos. Mais do que abrir vagas em uma licenciatura, estamos criando oportunidades para que jovens indígenas possam se formar, ensinar e contribuir com o futuro de seus povos sem abrir mão de suas identidades, de suas línguas e de seus territórios. É assim que construímos uma educação que respeita a diversidade e fortalece o Brasil”. 

Para a secretária de Direitos Humanos da UFMT, Onice Dalloglio, a construção coletiva do curso foi um dos principais diferenciais da iniciativa. “Essa parceria é muito importante para a UFMT. É uma proposta para atender uma demanda do povo, ela foi feita de forma coletiva, atendendo os anseios do povo. É muito diferente das outras formações que eles têm que sair do seu território para estudar”. 

A iniciativa simbolizou o reconhecimento de uma reivindicação construída ao longo de gerações. Em um território onde a educação é entendida como ferramenta de fortalecimento cultural e de preservação dos saberes ancestrais, a chegada da licenciatura intercultural representa um passo importante para que os próprios povos indígenas formem os educadores responsáveis por ensinar às futuras gerações. 

O presidente da Associação Indígena Tapayuna, Wetaktxi Tapayuna, ressaltou que a formação responde a uma reivindicação antiga das comunidades e fortalece o futuro da educação indígena. “Precisamos muito dessa formação intercultural específica. A formação é importante para que eles possam ensinar dentro das suas comunidades, é uma expectativa grande dos anciões que vêm lutando para que isso aconteça”.  

O sentimento de conquista também esteve presente entre os demais povos que serão atendidos pela iniciativa. Em fala traduzida da língua nativa dos Kayapós por sua filha, Kokopryti Metuktire, a indígena Nhakangroti Metuktire celebrou a chegada da licenciatura. “Estou muito feliz com o que está acontecendo. Isso é muito importante para o nosso povo”. 

Desafios – A criação do curso ocorre em um contexto de crescimento da população indígena no Brasil e de desafios para a formação de professores. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o país possui 1.654.876 indígenas, quase o dobro dos 896.917 registrados em 2010. Ao mesmo tempo, houve redução proporcional da população residente em terras indígenas, que passou de 57,6% para 36,7% no período, evidenciando as transformações vividas pelos povos indígenas nas últimas décadas. 

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Os dados educacionais também demonstram a importância de ampliar as oportunidades de formação superior. Entre os 16.414 profissionais que atuam em escolas indígenas no país, apenas 38,5% possuem educação superior completa. A maioria, 57,1%, tem formação em nível médio. Outros 3% possuem apenas ensino fundamental, enquanto 16,3% participaram de formação continuada específica. 

No TEE Mẽbêngôkre, composto pelos municípios mato-grossenses de Guarantã do Norte, Matupá, Peixoto de Azevedo e São José do Xingu, existem atualmente 16 escolas indígenas, sendo cinco estaduais e 11 municipais, que atendem 1.017 estudantes da educação básica. São 94 professores em atividade, dos quais apenas 32 possuem educação superior. Entre 2024 e 2025, a formação inicial de docentes no território registrou crescimento de 10%, mas a ampliação da qualificação profissional segue como uma demanda apontada pelas próprias comunidades. 

PNEEI-TEE – A oferta da licenciatura dialoga diretamente com a Política Nacional de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais (PNEEI-TEE), instituída pela Portaria MEC nº 539/2025. A política busca fortalecer uma educação escolar indígena multilíngue, específica, diferenciada e intercultural, respeitando as organizações sociais, culturais e territoriais dos povos indígenas. 

O TEE Mẽbêngôkre é um dos 52 previstos pela política nacional. A estrutura de governança local conta com coordenadores, articuladores de formação e agentes territoriais que atuam para ampliar o acesso e a qualidade da educação escolar indígena na região. 

Além da formação inicial proporcionada pela nova licenciatura, a Secadi investirá R$ 600 mil, em parceria com a UFMT e a Universidade de Brasília (UnB), para a formação continuada de 280 professores indígenas em 2026. Entre eles, estarão 83 educadores dos povos Mẽbêngôkre, Panará, Terena, Tapayuna e Trumai da Terra Indígena Capoto/Jarina. 

Assessoria de Comunicação Social do MEC, com informações da Secadi 

Fonte: Ministério da Educação

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Educação

Mulher Indígena: educação, protagonismo e enfrentamento à violência

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A partir de 2026, o dia 5 de setembro reúne dois marcos dedicados às mulheres indígenas. A data, tradicionalmente reconhecida como o Dia Internacional da Mulher Indígena, passa a ser também o Dia Nacional de Proteção e Combate à Violência contra as Mulheres e Meninas Indígenas, instaurado pela Lei nº 15.382/2026

A celebração internacional foi instituída em 1983, durante a Segunda Reunião de Organizações e Movimentos das Américas, realizada em Tiwanaku, na Bolívia. A data homenageia Bartolina Sisa, mulher indígena aimara que liderou movimentos de resistência ao domínio espanhol no Alto Peru, atual Bolívia, e foi assassinada em 1782. 

No Brasil, a criação da data nacional acrescenta ao 5 de setembro uma dimensão específica de proteção e enfrentamento à violência contra mulheres e meninas indígenas. 

A valorização e a proteção das mulheres indígenas também passam pela garantia de acesso a direitos e pela possibilidade de ocupar diferentes espaços da sociedade. Na educação, essas trajetórias podem ser vistas no ingresso e na permanência das mulheres indígenas em escolas e universidades, onde levam consigo saberes, conhecimentos e experiências construídas em seus territórios. 

Educação e Protagonismo – A trajetória de Luizete Nukini ajuda a mostrar como a educação pode transformar trajetórias individuais e ampliar possibilidades para as comunidades indígenas. Natural de Mâncio Lima, no Acre, e integrante do povo Nukini, chegou à Universidade de Brasília (UnB) para cursar farmácia depois de uma trajetória escolar marcada por limitações de acesso. 

Na infância, Luizete estudou em uma escola composta por apenas uma sala, onde estudantes de diferentes séries compartilhavam o espaço e tinham aulas com uma única professora. Anos depois, já adulta, retomou o projeto de ingressar no ensino superior. Foi aprovada no processo seletivo e passou a integrar a universidade. 

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Para a estudante, a chegada à universidade representa também uma possibilidade de inspirar outras meninas e crianças de sua comunidade a reconhecerem a educação como um caminho possível. “Assim como eu consegui, como eu estou conseguindo, elas também têm essa capacidade, principalmente nós, como mulheres”. 

Hoje, Luizete busca aproximar os conhecimentos adquiridos na formação acadêmica dos saberes tradicionais de sua comunidade. Entre seus futuros projetos está a produção de uma cartilha sobre plantas medicinais, construída a partir do diálogo entre os conhecimentos aprendidos na universidade e aqueles transmitidos pelas demais gerações. 

A experiência também evidencia como a presença de mulheres indígenas em espaços de formação pode contribuir para ampliar referências para outras gerações. Para Luizete, ocupar a universidade representa também a possibilidade de levar novos conhecimentos para sua comunidade e fortalecer os vínculos com os saberes tradicionais. 

A diretora de Políticas de Educação Escolar Indígena no Ministério da Educação (MEC), Rosani Kamuri Kaingang, também destaca a importância da presença de mulheres indígenas em diferentes espaços da sociedade. 

“Apoiar a presença das indígenas mulheres em todos os espaços de poder é garantir o rompimento de um silenciamento histórico e é fortalecer a nossa luta pela valorização das nossas línguas, dos nossos territórios, das nossas culturas e das nossas tradições”. 

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Proteção Contra Violência – A instituição do Dia Nacional de Proteção e Combate à Violência contra as Mulheres e Meninas Indígenas estabelece um marco para ampliar a atenção à proteção desse público e ao enfrentamento das diferentes formas de violência. 

A escolha do 5 de setembro conecta essa agenda à memória de Bartolina Sisa e à trajetória histórica de resistência das mulheres indígenas. A data passa, assim, a reunir duas dimensões: o reconhecimento do protagonismo das mulheres indígenas e a necessidade de garantir seus direitos e sua proteção. 

No campo educacional, essa perspectiva também envolve assegurar condições para que meninas e mulheres indígenas possam acessar, permanecer e avançar em suas trajetórias escolares e acadêmicas, preservando os vínculos com seus territórios, culturas e comunidades. 

A data reforça ainda a importância de reconhecer as mulheres indígenas como sujeitos de direitos e protagonistas na construção de seus próprios caminhos, seja nas comunidades, nas escolas, nas universidades ou em espaços de participação e decisão. 

Multimídia

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Assessoria de Comunicação Social do MEC, com informações da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) 

Fonte: Ministério da Educação

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