Tecnologia
Plataforma AdaptaBrasil publica novos dados sobre segurança alimentar, biodiversidade, saúde e recursos hídricos
Publicado
20 de agosto de 2025, 18:30
A plataforma AdaptaBrasil passou a disponibilizar novos setores e dados revisados, que oferecem uma visão estratégica sobre os impactos da mudança do clima em todos os municípios brasileiros. A atualização, publicada nesta terça-feira (19), inclui a incorporação do setor de Biodiversidade e a revisão das análises referentes aos Setores Estratégicos Saúde, Recursos Hídricos e Segurança Alimentar.
Segundo a secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Andrea Latgé, ao disponibilizar informações sobre risco climático, a plataforma AdaptaBrasil desempenha um papel importante no apoio à formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
“O AdaptaBrasil é uma das iniciativas mais bem-sucedidas do MCTI voltada para a coprodução de evidências que subsidiam políticas públicas”, avaliou. Latgé destaca que a boa aceitação da plataforma reside no arranjo institucional protagonizado por gestores públicos, pesquisadores e técnicos, além da estreita colaboração técnica com diferentes instituições, seguindo premissas da coprodução de evidências.
“A plataforma reúne capacidades estatais de diversos entes federais, além de instituições científicas de excelência na agenda climática. Ressalto ainda a importância crescente que o AdaptaBrasil tem assumido na construção do Plano Clima Adaptação, coordenado pelo MMA com o apoio técnico do MCTI”, afirmou a secretária.
Para o coordenador científico do AdaptaBrasil e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Jean Ometto, o lançamento dos novos dados é um avanço importante no fortalecimento da disponibilização de informações baseadas em evidências para o apoio à tomada de decisão.
“O AdaptaBrasil vem se consolidando como uma importante fonte de informações para estratégias e planos de adaptação, desde o nível municipal até o federal. Isso só é possível porque é uma plataforma lastreada na ciência, desenvolvida em colaboração com importantes instituições nacionais, além de ser de acesso livre para toda a população”, destacou Ometto.
Conheça os novos dados disponíveis na plataforma Adapta Brasil:
Biodiversidade – O Setor Estratégico Biodiversidade foi criado para apresentar projeções e cenários ligados ao impacto das mudanças climáticas sobre os biomas brasileiros e fornecer informações científicas para orientar políticas públicas de proteção à diversidade biológica do país.
Peter Mann de Toledo, pesquisador titular do INPE e uma das lideranças científicas envolvidas na construção dos dados, explica que o setor surgiu justamente porque o Brasil detém 20% da biodiversidade mundial. “Tratar essa riqueza como prioridade e inseri-la no contexto de risco climático é essencial para compreender como o clima pode afetar a biodiversidade brasileira”, pontuou.
O Setor aborda os seis biomas presentes no território brasileiro (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa). Eles foram priorizados porque representam uma escala fundamental de análise e compreensão da biodiversidade, uma vez que abrangem períodos evolutivos significativos e permitem avaliar a integridade e a resiliência dos ecossistemas diante das mudanças climáticas e de outros impactos ambientais.
O Setor foi desenvolvido em colaboração com a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Saúde – Em sua nova versão, o AdaptaBrasil passa a disponibilizar um módulo dedicado às arboviroses (doenças provocadas por picadas de insetos). Os dados envolvem mapas e indicadores que estimam o risco em nível municipal no presente, em 2030 e em 2050. Desenvolvido em parceria com a Fiocruz, o novo módulo incrementa o Setor Saúde, que já apresentava dados sobre malária e leishmanioses.
No ano passado, o Brasil registrou mais de 6,5 milhões de casos prováveis, considerado o maior surto da doença. Na avaliação de Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-Fiocruz) e uma das lideranças científicas do Setor, a emergência climática tem um papel central nesse cenário. “A temperatura mínima aumentou. O que antes era 15°C a 16°C em algumas regiões, agora ultrapassa os 22°C à noite – caso de Brasília, por exemplo. Isso prolonga o tempo de exposição humana aos mosquitos e facilita a reprodução desses vetores”, explicou.
Além do fator climático, os dados do AdaptaBrasil alertam que determinantes sociais, como urbanização desordenada (ou a falta de urbanização), saneamento, coleta de lixo e abastecimento com água potável, combinados a alta densidade populacional, também contribuem para a proliferação dos vetores. “A emergência climática tem contribuído para essa situação, mas não é o único fator. O desmatamento e a destruição de ecossistemas também abrem caminho para que os vetores entrem em contato com os humanos. Ignorar essa realidade torna o cenário de exposição ainda mais favorável ao mosquito. A emergência climática deve estar no centro das políticas públicas para evitar impactos ainda maiores na saúde pública e no meio ambiente”, frisou a pesquisadora.
Recursos Hídricos – A nova versão do Setor Recursos Hídricos, construída em parceria entre o INPE e a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), reúne 38 indicadores que permitem analisar o risco de impacto das mudanças do clima nas águas superficiais e subterrâneas disponíveis para o uso humano.
O Setor avalia os recursos hídricos do ponto de vista da Disponibilidade e do Acesso na perspectiva da garantia da segurança hídrica para os diversos usos da água, incluindo o abastecimento humano, a manutenção dos serviços ecossistêmicos de regulação hídrica, o desenvolvimento de atividades socioeconômicas e a manutenção da saúde e bem-estar.
“A água, assim como a mudança climática, é um tema profundamente transversal. Quando falamos de segurança hídrica, inevitavelmente estamos olhando também para energia, agricultura e qualquer atividade que dependa do recurso”, contou Saulo Aires de Souza, coordenador de Mudanças Climáticas da ANA e uma das lideranças científicas do Setor.
A nova versão conecta o risco de escassez hídrica (Ameaça) ao risco de estresse hídrico (resultado da interação da Ameaça com a Vulnerabilidade e a Exposição socioecológica), contemplando riscos em cascata que se iniciam no clima, atravessam o ciclo hidrológico e impactam na sociedade.
Souza destaca que a versão 2.0 do Setor Estratégico Recursos Hídricos existe para apoiar o tomador de decisão. “Ele precisa saber do pior para se preparar. A partir daí entram as ferramentas de adaptação. Se o quadro crítico acontecer, já existem meios de mitigar o impacto; se não acontecer, também não podemos sair fazendo obras caríssimas que possam virar ‘elefantes brancos’. Por isso falamos em ‘estratégias de baixíssimo arrependimento’: em qualquer futuro, reduzir perdas nos sistemas de distribuição de água é bom; em qualquer futuro, investir em educação e capacitar gestores é bom; soluções baseadas na natureza também entregam benefícios que vão além da questão hídrica”, explicou.
Segurança Alimentar – A atualização deste Setor Estratégico mapeia como o clima afeta a produção, o acesso e o consumo de alimentos no Brasil. A estrutura do Setor foi redesenhada para trabalhar com impactos em cadeia e está organizada em dois subsetores: disponibilidade de alimentos e acesso e consumo de alimentos. Entende-se por disponibilidade a capacidade produzir e colocar à disposição da população os alimentos in natura para uso doméstico. Acesso e consumo engloba a garantia de que toda a população tenha acesso econômico e físico a alimentos nutritivos de forma segura e socialmente aceitável.
A metodologia considera as quatro dimensões da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) (disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade) e entrega mapas comparáveis por município no presente, em 2030 e em 2050, para orientar políticas de adaptação.
“Nosso trabalho foi construir indicadores que representassem os fatores que impactam as diversas culturas agrícolas e calibrá-los com base na experiência regional da Embrapa. É um esforço grande sintetizar décadas de dados para traduzir em mapas e métricas que façam sentido para o Brasil de hoje”, acrescentou Aryeverton Fortes de Oliveira, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e uma das lideranças científicas do Setor.
A nova estrutura do Setor foi desenvolvida com apoio técnico da EMBRAPA, do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). A colaboração permitiu aprimorar os indicadores e torná-los mais sensíveis às realidades regionais e produtivas do país.
Sobre o AdaptaBrasil – O AdaptaBrasil é uma plataforma pública que mapeia riscos climáticos no país e oferece dados e indicadores para apoiar políticas de adaptação. A plataforma produz informações a partir de dados públicos e análises colaborativas de especialistas de diferentes instituições, oferecendo não apenas índices abstratos de risco, mas também dados concretos que podem subsidiar a tomada de decisão por gestores públicos e pela sociedade em geral. Esses insumos passam por padronização e validação metodológica, permitindo comparar territórios, identificar fatores que mais pesam no risco local e priorizar investimentos. Em um só ambiente, reúne informações sobre ameaça climática, exposição e vulnerabilidade, traduzidas em mapas comparáveis por município e projeções para diferentes horizontes temporais e cenários.
A plataforma AdaptaBrasil é desenvolvida por meio de cooperação entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Rede Nacional de Pesquisa e Ensino (RNP) e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Atualmente, é uma das bases científicas utilizadas para a construção do Plano Clima Adaptação e apontada na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira para prover informações sobre risco climático nacional.
Acesse o site do AdaptaBrasil e conheça os novos dados.
Tecnologia
Ciência leva soluções para a saúde, a produção de alimentos e a educação no Vale do São Francisco
Publicado
27 de junho de 2026, 12:01
A ciência ganha novos caminhos para transformar a vida de quem vive no Semiárido. Nesta sexta-feira (26), em Juazeiro (BA), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou um conjunto de projetos que reúne inovação, desenvolvimento regional e inclusão social. As iniciativas vão desde o reaproveitamento da água e a geração de energia limpa nas propriedades rurais até uma plataforma digital para reduzir o tempo de espera de pacientes com câncer e a ampliação da educação científica nas escolas públicas. Ao todo, são mais de R$ 43 milhões em investimentos voltados ao Vale do São Francisco.
Durante a cerimônia, a ministra Luciana Santos destacou que o desenvolvimento do país passa pela capacidade de transformar conhecimento em soluções concretas para a população. “Hoje estamos lançando ações que têm um mesmo objetivo: melhorar a vida das pessoas. Levar mais água, mais produção, mais saúde, mais educação e mais inovação para uma região que historicamente aprendeu a resistir, mas que hoje também é protagonista da ciência, da inovação e do desenvolvimento sustentável”, afirmou.
A ministra também ressaltou que a retomada dos investimentos em ciência e tecnologia tem permitido ampliar a presença do MCTI nos estados. Entre 2023 e 2025, o ministério investiu mais de R$ 1,3 bilhão na Bahia, fortalecendo universidades, institutos de pesquisa e projetos voltados ao desenvolvimento regional.
Um dos destaques do evento foi a ampliação do Sistema Sara, tecnologia social desenvolvida pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) para tratar o esgoto doméstico e reutilizar a água na produção agrícola.
A diretora substituta do Insa, Dilma Trovão, ressaltou que o Sistema Sara é resultado da aplicação do conhecimento científico às necessidades da população. “É uma tecnologia simples, mas profundamente transformadora. Desenvolvida por pesquisadores do instituto, ela trata a água utilizada nas residências para que possa voltar à produção agrícola, levando saneamento ambiental, fortalecendo a agricultura familiar e garantindo mais saúde e dignidade para quem mora no Semiárido”, afirmou.
A iniciativa transforma um problema ambiental em oportunidade para agricultores familiares, permitindo irrigar hortas, pomares e áreas de cultivo, além de ampliar a segurança hídrica e alimentar das comunidades rurais. O investimento de R$ 21 milhões permitirá a implantação de mais 41 unidades do sistema, das quais 23 já estão em execução, sendo 16 na Bahia.
Desde sua criação, o Sistema SARA já beneficiou centenas de famílias em nove estados do Semiárido, contribuindo para eliminar o esgoto a céu aberto, aumentar a produtividade agrícola e fortalecer a adaptação às mudanças climáticas.
Tecnologia para agilizar o tratamento do câncer
Na área da saúde, o MCTI anunciou investimento de R$ 1,2 milhão no Projeto Dant, que desenvolverá um ecossistema digital para apoiar a gestão Oncológica do Sistema Único de Saúde (SUS).
O coordenador do Projeto DANT, Manoel Messias, destacou que a proposta utiliza tecnologia para tornar o atendimento oncológico mais ágil e acessível. “Queremos desenvolver ferramentas que aproximem os pacientes do sistema de saúde, especialmente aqueles que vivem em áreas mais vulneráveis. A expectativa é que essa experiência se torne referência para o SUS e mostre que a ciência e desenvolvimento tecnológico também nascem no interior do Brasil”, disse.
A plataforma reunirá informações clínicas e epidemiológicas para qualificar a tomada de decisão dos gestores e integrar os diferentes níveis de atendimento, reduzindo o tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento.
A iniciativa beneficiará cerca de 2,1 milhões de pessoas em 53 municípios da Bahia e de Pernambuco atendidos pela Rede Interestadual de Saúde Pernambuco-Bahia (Rede PEBA).
Mais ciência dentro das escolas
A programação incluiu ainda a ampliação do programa Mais Ciência na Escola em Juazeiro. Durante o evento, foram anunciadas mais duas escolas contempladas, com investimento de R$ 200 mil destinado à implantação de laboratórios maker e à concessão de bolsas de iniciação científica, ampliando as oportunidades para que estudantes tenham contato com a pesquisa desde a educação básica.
O coordenador do programa Mais Ciência na Escola na Bahia, Antonio Brotas, enfatizou que o principal legado da iniciativa permanece nas escolas. “O conhecimento fica com professores e estudantes, fortalecendo a educação científica e mostrando que a ciência é para todos”, ressaltou.
Na Bahia, a iniciativa já atende 182 escolas, com investimento superior a R$ 18 milhões do MCTI. No município, 12 escolas participam do programa, envolvendo 120 estudantes bolsistas e 12 professores orientadores.
Inteligência de dados para fortalecer o campo
Fechando o conjunto de anúncios, o MCTI lançou o Sistema de Diagnóstico Rural Familiar, desenvolvido em parceria com o Instituto Federal da Bahia (Ifba), no Campus Irecê.
Para o coordenador do projeto Irecê, Jeime Nunes de Andrade, a iniciativa aproxima a agricultura familiar das tecnologias digitais. “Nosso objetivo é levar conceitos da agricultura de precisão para apoiar agricultores familiares com dados e inteligência artificial, aumentando a produtividade e fortalecendo a geração de renda no Semiárido”, finalizou.
A plataforma digital reunirá informações sobre solo, recursos hídricos, produção agrícola, criação de animais e dados georreferenciados, além de utilizar inteligência artificial para interpretar análises de solo e água e gerar recomendações de manejo.
A ferramenta apoiará agricultores familiares, equipes de assistência técnica e gestores públicos, contribuindo para aumentar a produtividade, ampliar o acesso ao crédito rural e orientar políticas públicas para cerca de 20 municípios do território de Irecê.
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