Tecnologia
Projeto de baixo custo promove ciência cidadã para monitorar o litoral
Publicado
19 de setembro de 2025, 17:30
O projeto CoastSnap, uma iniciativa global de ciência cidadã, tem ajudado a preencher uma lacuna da gestão ambiental brasileira: o monitoramento comunitário sistemático da linha de costa. A partir de totens instalados em pontos estratégicos das praias, qualquer pessoa pode tirar fotos com o celular e enviá-las via WhatsApp para pesquisadores. São cerca de 35 estações de monitoramento distribuídas por 30 praias em nove estados: Amapá (AP), Bahia (BA), Ceará (CE), Maranhão (MA), Pernambuco (PE), Rio Grande do Sul (RS), Rio de Janeiro (RJ), Santa Catarina (SC) e Sergipe (SE).
O processamento das imagens segue metodologia padronizada em todo o País: as fotos são retificadas com auxílio de tecnologias que aprimoram a precisão dos dados — como o GPS RTK, um GPS de maior precisão, e Matlab, um software que realiza cálculos numéricos com vetores e desenvolvimento de matrizes — como se fossem imagens aéreas, compensadas pelas variações de maré e usadas para traçar a linha da costa e medir a largura da faixa de areia. “Essa uniformidade torna o CoastSnap um avanço importante em termos de metodologia de monitoramento de praias”, afirma o coordenador nacional do projeto CoastSnap Brasil, Pedro de Souza Pereira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Diante dos altos valores dos equipamentos e de campanhas de campo, o baixo custo da solução é um grande atrativo, explica Pedro comparando o valor da iniciativa com outra de tecnologia similar.
“No passado, tivemos um projeto aprovado pelo CNPq que visava instalar estações de monitoramento da costa por vídeo, no valor total de R$ 50 mil. Com o CoastSnap a gente tem a mesma proposta, mas conseguimos fazer uma estação com suporte para celular com apenas R$ 600. “Em um país como o nosso, com mais de 8,5 mil quilômetros de costa, onde as praias são objeto do cotidiano do brasileiro, conseguimos de uma forma barata fazer o monitoramento de várias praias do litoral”, diz o pesquisador.
A meta é ter ao menos uma estação em cada estado costeiro do País. Grupos de São Paulo e Paraná já demonstraram interesse em integrar a rede, e novas propostas estão sendo preparadas para captar recursos após o fim do atual ciclo de financiamento, em 2025. O projeto envolve 11 instituições de pesquisa e recebe financiamento do CNPq por meio de um edital para ciência cidadã. Participam do projeto duas pesquisadoras da Rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo): Flavia Lins de Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Mônica Ferreira Costa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
CoastSnap RJ
Depois de Santa Catarina, com 12 estações, o Rio de Janeiro é o segundo estado em quantidade de totens instalados (11). As primeiras estações foram instaladas em 2020, com destaque para a Prainha, na Zona Oeste da capital, que ostenta o selo internacional Bandeira Azul. Desde então, o projeto se expandiu com apoio de prefeituras, associações de moradores e unidades de conservação, alcançando praias em Cabo Frio, Niterói, Macaé e Rio das Ostras. A equipe fluminense, liderada pela vice-coordenadora do CoastSnap Brasil, Flavia Lins de Barros, promove atividades educativas com escolas e moradores, reforçando o valor dos ambientes costeiros e incentivando o engajamento contínuo da população.
Para manter o selo do Programa Bandeira Azul a cada temporada, as prefeituras precisam apresentar relatórios técnicos e evidências de que a praia está sendo monitorada e gerida de forma responsável. O programa promovido pela Foundation for Environmental Education (FEE) certifica praias que atendem a rígidos critérios de qualidade ambiental, segurança, acessibilidade, educação ambiental e gestão sustentável. É aí que entra o CoastSnap. As imagens captadas com a ajuda da população fornecem dados confiáveis e atualizados sobre a dinâmica costeira, eventos extremos e mudanças na linha de praia, contribuindo diretamente para o cumprimento de parte dos requisitos do programa. Em muitas dessas praias, como a Prainha e a Praia do Peró, em Cabo Frio, o projeto também integra ações educativas que promovem o engajamento comunitário, outro ponto valorizado pelo selo.
A participação popular é expressiva, principalmente no norte do estado do Rio de Janeiro. A Praia do Campista, em Macaé, recebeu 990 fotos em um ano; a Praia da Baleia, em Rio das Ostras, já ultrapassou 600 imagens em apenas 12 meses e é a que apresenta maior regularidade mensal de contribuições. O CoastSnap RJ reúne aproximadamente 2,9 mil fotos em 4 anos de atividades.
As imagens coletadas no estado do Rio de Janeiro vêm sendo utilizadas para estudar a vulnerabilidade costeira, ressacas, transformações na paisagem, usos da praia e até o impacto de eventos climáticos extremos. Um dos objetivos do projeto é criar um sistema de alerta de impacto de ressacas que considere não apenas a onda, mas também o estoque sedimentar da praia e sua geomorfologia para prever se um evento será capaz de gerar impactos concretos na costa. Parte dos dados já processados começa a gerar resultados acadêmicos.
“Uma das coisas que a gente está tentando entender é que o fato de ter uma onda de 3,5 metros não significa que vai gerar impacto em todas as praias. A ideia final é criar um sistema de alerta — não de ressacas —, mas de impactos de ressacas. Ou seja, uma vez que tem a ressaca, saber se vai ter impacto ou não”, explica Flavia.
Imagens captadas têm usos diversos
As imagens geradas pela população têm aplicações diretas e específicas em cada local, indo muito além da simples identificação da linha de costa. Em Santa Catarina são usadas para detectar correntes de retorno, que representam risco aos banhistas. No Ceará, ajudam a documentar a retração de falésias. Em Pernambuco e no próprio Ceará, registram a chegada de algas e o acúmulo de lixo. No Amapá, uma estação foi instalada em uma praia fluvial da Amazônia. Em outras localidades, as imagens têm sido combinadas com ferramentas de inteligência artificial para contagem de pessoas, contribuindo para estudos de capacidade de carga turística e uso público das praias.
Em Pernambuco, a estação do CoastSnap está instalada na praia do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá. A professora Mônica Ferreira Costa, da UFPE e membro da rede de pesquisadores do Inpo, utiliza o CoastSnap para realizar a análise da costa com sua equipe. As fotos enviadas pelos visitantes ajudam a monitorar a erosão, a frequência de banhistas e a balneabilidade da praia, complementada pelos dados fornecidos pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). A ideia agora é dar um passo além: integrar essas informações ao Observatório Costeiro e Marinho de Pernambuco, que vai reunir dados sobre qualidade da água, uso das praias, fauna, flora e capacidade de carga turística para orientar estratégias de conservação do litoral.
“É difícil reverter um processo de poluição. Não existe compensação ambiental. O ambiente nunca volta ao ponto de partida. Precisamos atuar na prevenção, avançar nos tratamentos e nas ações antes dos resíduos chegarem no oceano. Não deixar para trocar a fechadura depois da porta arrombada”, afirma a professora.
Desafios de engajamento e vandalismo ainda limitam alcance do projeto
Apesar da eficácia e baixo custo, o CoastSnap enfrenta desafios importantes. Um dos principais é o engajamento do público. Mesmo em praias movimentadas, como a do Santinho (SC), que recebe cerca de 200 mil pessoas por ano, o número de fotos recebidas pode ser inferior a 60 por ano. Muitos banhistas utilizam os totens para tirar selfies e ignoram as instruções, mesmo diante de placas informativas.
“Um dos grandes desafios é a manutenção, porque a gente depende de parceiros locais para cuidar das placas e também para incentivar os frequentadores a usarem. Nem sempre as pessoas entendem a proposta, então algumas tiram fotos e não as enviam, outras acham que é só uma plaquinha de informação turística”, afirma Flavia.
Outro problema recorrente é o vandalismo. Em Santa Catarina, três estações já foram removidas após danos repetidos. No Rio de Janeiro, diversas praias também tiveram suas estruturas comprometidas. Isso dificulta a continuidade do monitoramento e gera custos adicionais para substituição dos equipamentos. Ainda assim, os pesquisadores seguem buscando formas de tornar o projeto mais resiliente, seja com totens mais robustos, seja com campanhas locais de conscientização.
Tecnologia
Ciência leva soluções para a saúde, a produção de alimentos e a educação no Vale do São Francisco
Publicado
27 de junho de 2026, 12:01
A ciência ganha novos caminhos para transformar a vida de quem vive no Semiárido. Nesta sexta-feira (26), em Juazeiro (BA), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou um conjunto de projetos que reúne inovação, desenvolvimento regional e inclusão social. As iniciativas vão desde o reaproveitamento da água e a geração de energia limpa nas propriedades rurais até uma plataforma digital para reduzir o tempo de espera de pacientes com câncer e a ampliação da educação científica nas escolas públicas. Ao todo, são mais de R$ 43 milhões em investimentos voltados ao Vale do São Francisco.
Durante a cerimônia, a ministra Luciana Santos destacou que o desenvolvimento do país passa pela capacidade de transformar conhecimento em soluções concretas para a população. “Hoje estamos lançando ações que têm um mesmo objetivo: melhorar a vida das pessoas. Levar mais água, mais produção, mais saúde, mais educação e mais inovação para uma região que historicamente aprendeu a resistir, mas que hoje também é protagonista da ciência, da inovação e do desenvolvimento sustentável”, afirmou.
A ministra também ressaltou que a retomada dos investimentos em ciência e tecnologia tem permitido ampliar a presença do MCTI nos estados. Entre 2023 e 2025, o ministério investiu mais de R$ 1,3 bilhão na Bahia, fortalecendo universidades, institutos de pesquisa e projetos voltados ao desenvolvimento regional.
Um dos destaques do evento foi a ampliação do Sistema Sara, tecnologia social desenvolvida pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) para tratar o esgoto doméstico e reutilizar a água na produção agrícola.
A diretora substituta do Insa, Dilma Trovão, ressaltou que o Sistema Sara é resultado da aplicação do conhecimento científico às necessidades da população. “É uma tecnologia simples, mas profundamente transformadora. Desenvolvida por pesquisadores do instituto, ela trata a água utilizada nas residências para que possa voltar à produção agrícola, levando saneamento ambiental, fortalecendo a agricultura familiar e garantindo mais saúde e dignidade para quem mora no Semiárido”, afirmou.
A iniciativa transforma um problema ambiental em oportunidade para agricultores familiares, permitindo irrigar hortas, pomares e áreas de cultivo, além de ampliar a segurança hídrica e alimentar das comunidades rurais. O investimento de R$ 21 milhões permitirá a implantação de mais 41 unidades do sistema, das quais 23 já estão em execução, sendo 16 na Bahia.
Desde sua criação, o Sistema SARA já beneficiou centenas de famílias em nove estados do Semiárido, contribuindo para eliminar o esgoto a céu aberto, aumentar a produtividade agrícola e fortalecer a adaptação às mudanças climáticas.
Tecnologia para agilizar o tratamento do câncer
Na área da saúde, o MCTI anunciou investimento de R$ 1,2 milhão no Projeto Dant, que desenvolverá um ecossistema digital para apoiar a gestão Oncológica do Sistema Único de Saúde (SUS).
O coordenador do Projeto DANT, Manoel Messias, destacou que a proposta utiliza tecnologia para tornar o atendimento oncológico mais ágil e acessível. “Queremos desenvolver ferramentas que aproximem os pacientes do sistema de saúde, especialmente aqueles que vivem em áreas mais vulneráveis. A expectativa é que essa experiência se torne referência para o SUS e mostre que a ciência e desenvolvimento tecnológico também nascem no interior do Brasil”, disse.
A plataforma reunirá informações clínicas e epidemiológicas para qualificar a tomada de decisão dos gestores e integrar os diferentes níveis de atendimento, reduzindo o tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento.
A iniciativa beneficiará cerca de 2,1 milhões de pessoas em 53 municípios da Bahia e de Pernambuco atendidos pela Rede Interestadual de Saúde Pernambuco-Bahia (Rede PEBA).
Mais ciência dentro das escolas
A programação incluiu ainda a ampliação do programa Mais Ciência na Escola em Juazeiro. Durante o evento, foram anunciadas mais duas escolas contempladas, com investimento de R$ 200 mil destinado à implantação de laboratórios maker e à concessão de bolsas de iniciação científica, ampliando as oportunidades para que estudantes tenham contato com a pesquisa desde a educação básica.
O coordenador do programa Mais Ciência na Escola na Bahia, Antonio Brotas, enfatizou que o principal legado da iniciativa permanece nas escolas. “O conhecimento fica com professores e estudantes, fortalecendo a educação científica e mostrando que a ciência é para todos”, ressaltou.
Na Bahia, a iniciativa já atende 182 escolas, com investimento superior a R$ 18 milhões do MCTI. No município, 12 escolas participam do programa, envolvendo 120 estudantes bolsistas e 12 professores orientadores.
Inteligência de dados para fortalecer o campo
Fechando o conjunto de anúncios, o MCTI lançou o Sistema de Diagnóstico Rural Familiar, desenvolvido em parceria com o Instituto Federal da Bahia (Ifba), no Campus Irecê.
Para o coordenador do projeto Irecê, Jeime Nunes de Andrade, a iniciativa aproxima a agricultura familiar das tecnologias digitais. “Nosso objetivo é levar conceitos da agricultura de precisão para apoiar agricultores familiares com dados e inteligência artificial, aumentando a produtividade e fortalecendo a geração de renda no Semiárido”, finalizou.
A plataforma digital reunirá informações sobre solo, recursos hídricos, produção agrícola, criação de animais e dados georreferenciados, além de utilizar inteligência artificial para interpretar análises de solo e água e gerar recomendações de manejo.
A ferramenta apoiará agricultores familiares, equipes de assistência técnica e gestores públicos, contribuindo para aumentar a produtividade, ampliar o acesso ao crédito rural e orientar políticas públicas para cerca de 20 municípios do território de Irecê.
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