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Projeto de baixo custo promove ciência cidadã para monitorar o litoral

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O projeto CoastSnap, uma iniciativa global de ciência cidadã, tem ajudado a preencher uma lacuna da gestão ambiental brasileira: o monitoramento comunitário sistemático da linha de costa. A partir de totens instalados em pontos estratégicos das praias, qualquer pessoa pode tirar fotos com o celular e enviá-las via WhatsApp para pesquisadores. São cerca de 35 estações de monitoramento distribuídas por 30 praias em nove estados: Amapá (AP), Bahia (BA), Ceará (CE), Maranhão (MA), Pernambuco (PE), Rio Grande do Sul (RS), Rio de Janeiro (RJ), Santa Catarina (SC) e Sergipe (SE).

O processamento das imagens segue metodologia padronizada em todo o País: as fotos são retificadas com auxílio de tecnologias que aprimoram a precisão dos dados — como o GPS RTK, um GPS de maior precisão, e Matlab, um software que realiza cálculos numéricos com vetores e desenvolvimento de matrizes — como se fossem imagens aéreas, compensadas pelas variações de maré e usadas para traçar a linha da costa e medir a largura da faixa de areia. “Essa uniformidade torna o CoastSnap um avanço importante em termos de metodologia de monitoramento de praias”, afirma o coordenador nacional do projeto CoastSnap Brasil, Pedro de Souza Pereira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Diante dos altos valores dos equipamentos e de campanhas de campo, o baixo custo da solução é um grande atrativo, explica Pedro comparando o valor da iniciativa com outra de tecnologia similar.

“No passado, tivemos um projeto aprovado pelo CNPq que visava instalar estações de monitoramento da costa por vídeo, no valor total de R$ 50 mil. Com o CoastSnap a gente tem a mesma proposta, mas conseguimos fazer uma estação com suporte para celular com apenas R$ 600. “Em um país como o nosso, com mais de 8,5 mil quilômetros de costa, onde as praias são objeto do cotidiano do brasileiro, conseguimos de uma forma barata fazer o monitoramento de várias praias do litoral”, diz o pesquisador.

A meta é ter ao menos uma estação em cada estado costeiro do País. Grupos de São Paulo e Paraná já demonstraram interesse em integrar a rede, e novas propostas estão sendo preparadas para captar recursos após o fim do atual ciclo de financiamento, em 2025. O projeto envolve 11 instituições de pesquisa e recebe financiamento do CNPq por meio de um edital para ciência cidadã. Participam do projeto duas pesquisadoras da Rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo): Flavia Lins de Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Mônica Ferreira Costa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

CoastSnap RJ

Depois de Santa Catarina, com 12 estações, o Rio de Janeiro é o segundo estado em quantidade de totens instalados (11). As primeiras estações foram instaladas em 2020, com destaque para a Prainha, na Zona Oeste da capital, que ostenta o selo internacional Bandeira Azul. Desde então, o projeto se expandiu com apoio de prefeituras, associações de moradores e unidades de conservação, alcançando praias em Cabo Frio, Niterói, Macaé e Rio das Ostras. A equipe fluminense, liderada pela vice-coordenadora do CoastSnap Brasil, Flavia Lins de Barros, promove atividades educativas com escolas e moradores, reforçando o valor dos ambientes costeiros e incentivando o engajamento contínuo da população. 

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Para manter o selo do Programa Bandeira Azul a cada temporada, as prefeituras precisam apresentar relatórios técnicos e evidências de que a praia está sendo monitorada e gerida de forma responsável. O programa promovido pela Foundation for Environmental Education (FEE) certifica praias que atendem a rígidos critérios de qualidade ambiental, segurança, acessibilidade, educação ambiental e gestão sustentável. É aí que entra o CoastSnap. As imagens captadas com a ajuda da população fornecem dados confiáveis e atualizados sobre a dinâmica costeira, eventos extremos e mudanças na linha de praia, contribuindo diretamente para o cumprimento de parte dos requisitos do programa. Em muitas dessas praias, como a Prainha e a Praia do Peró, em Cabo Frio, o projeto também integra ações educativas que promovem o engajamento comunitário, outro ponto valorizado pelo selo.

A participação popular é expressiva, principalmente no norte do estado do Rio de Janeiro. A Praia do Campista, em Macaé, recebeu 990 fotos em um ano; a Praia da Baleia, em Rio das Ostras, já ultrapassou 600 imagens em apenas 12 meses e é a que apresenta maior regularidade mensal de contribuições. O CoastSnap RJ reúne aproximadamente 2,9 mil fotos em 4 anos de atividades.

As imagens coletadas no estado do Rio de Janeiro vêm sendo utilizadas para estudar a vulnerabilidade costeira, ressacas, transformações na paisagem, usos da praia e até o impacto de eventos climáticos extremos. Um dos objetivos do projeto é criar um sistema de alerta de impacto de ressacas que considere não apenas a onda, mas também o estoque sedimentar da praia e sua geomorfologia para prever se um evento será capaz de gerar impactos concretos na costa. Parte dos dados já processados começa a gerar resultados acadêmicos.

“Uma das coisas que a gente está tentando entender é que o fato de ter uma onda de 3,5 metros não significa que vai gerar impacto em todas as praias. A ideia final é criar um sistema de alerta — não de ressacas —, mas de impactos de ressacas. Ou seja, uma vez que tem a ressaca, saber se vai ter impacto ou não”, explica Flavia.

Imagens captadas têm usos diversos

As imagens geradas pela população têm aplicações diretas e específicas em cada local, indo muito além da simples identificação da linha de costa. Em Santa Catarina são usadas para detectar correntes de retorno, que representam risco aos banhistas. No Ceará, ajudam a documentar a retração de falésias. Em Pernambuco e no próprio Ceará, registram a chegada de algas e o acúmulo de lixo. No Amapá, uma estação foi instalada em uma praia fluvial da Amazônia. Em outras localidades, as imagens têm sido combinadas com ferramentas de inteligência artificial para contagem de pessoas, contribuindo para estudos de capacidade de carga turística e uso público das praias.

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Em Pernambuco, a estação do CoastSnap está instalada na praia do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá. A professora Mônica Ferreira Costa, da UFPE e membro da rede de pesquisadores do Inpo, utiliza o CoastSnap para realizar a análise da costa com sua equipe. As fotos enviadas pelos visitantes ajudam a monitorar a erosão, a frequência de banhistas e a balneabilidade da praia, complementada pelos dados fornecidos pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). A ideia agora é dar um passo além: integrar essas informações ao Observatório Costeiro e Marinho de Pernambuco, que vai reunir dados sobre qualidade da água, uso das praias, fauna, flora e capacidade de carga turística para orientar estratégias de conservação do litoral.

“É difícil reverter um processo de poluição. Não existe compensação ambiental. O ambiente nunca volta ao ponto de partida.  Precisamos atuar na prevenção, avançar nos tratamentos e nas ações antes dos resíduos chegarem no oceano. Não deixar para trocar a fechadura depois da porta arrombada”, afirma a professora. 

Desafios de engajamento e vandalismo ainda limitam alcance do projeto

Apesar da eficácia e baixo custo, o CoastSnap enfrenta desafios importantes. Um dos principais é o engajamento do público. Mesmo em praias movimentadas, como a do Santinho (SC), que recebe cerca de 200 mil pessoas por ano, o número de fotos recebidas pode ser inferior a 60 por ano. Muitos banhistas utilizam os totens para tirar selfies e ignoram as instruções, mesmo diante de placas informativas.

“Um dos grandes desafios é a manutenção, porque a gente depende de parceiros locais para cuidar das placas e também para incentivar os frequentadores a usarem. Nem sempre as pessoas entendem a proposta, então algumas tiram fotos e não as enviam, outras acham que é só uma plaquinha de informação turística”, afirma Flavia.

Outro problema recorrente é o vandalismo. Em Santa Catarina, três estações já foram removidas após danos repetidos. No Rio de Janeiro, diversas praias também tiveram suas estruturas comprometidas. Isso dificulta a continuidade do monitoramento e gera custos adicionais para substituição dos equipamentos. Ainda assim, os pesquisadores seguem buscando formas de tornar o projeto mais resiliente, seja com totens mais robustos, seja com campanhas locais de conscientização.

Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo)

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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MCTI defende fortalecimento da ciência e da soberania em política de minerais críticos

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Os minerais críticos vêm ganhando centralidade no cenário global. Os ingredientes invisíveis, ou terras raras, são a base material de tecnologias essenciais e viabilizam sistemas impulsionados pela transição energética e pela expansão de tecnologias digitais — de celulares a carros elétricos. O assunto está no debate central na agenda de ciência, tecnologia e, principalmente, inovação, além de ser estratégico para o desenvolvimento econômico e a soberania tecnológica do País. No Brasil, o tema avança no Congresso Nacional, com a proposta de criação de uma política nacional para o setor, citada no Projeto de Lei 2.780/2024.

A matéria em discussão estrutura uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A proposta busca fomentar a pesquisa, a indústria, a distribuição, o comércio e o consumo dos produtos gerados. Além disso, ela cria um Comitê de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE) — que ficaria vinculado ao Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) e destinado à formulação de diretrizes com vistas ao desenvolvimento do setor mineral brasileiro.

Para o MCTI, o projeto de lei é um primeiro passo. “O projeto cria um arcabouço mínimo, mas não aprofunda essa questão”, avalia o chefe da Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares e Federativos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luiz Rodrigues. De acordo com o ministério, a inclusão de recursos para ciência e tecnologia é um dos pontos positivos do texto, como a previsão de investimento mínimo de 0,4% da receita bruta das empresas em pesquisa e inovação. “O projeto avança ao destinar recursos para ciência, tecnologia e inovação. Não é o valor que desejávamos, mas foi o possível dentro do consenso político”, afirmou.

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O MCTI entende que o desenvolvimento pleno da cadeia produtiva exigirá medidas adicionais. “Se o projeto for entendido como suficiente, a gente continua na situação atual”, alertou Rodrigues, ao destacar que o Brasil ainda enfrenta limitações estruturais para avançar nas etapas de maior valor agregado.

A avaliação da pasta é que o projeto em tramitação deve ser visto como ponto de partida para uma agenda mais ampla. “Ele não é o fim da discussão. É o início”, disse.

Para o ministério, a futura política nacional de minerais críticos deve incorporar de forma central a dimensão científica e tecnológica, com metas claras e integração com outras estratégias de desenvolvimento. A expectativa é que, a partir da aprovação do projeto, o debate avance para novas iniciativas capazes de consolidar uma cadeia produtiva mais robusta e menos dependente de tecnologias externas.

Minerais críticos

“Os minerais críticos são fundamentais na economia digital e na transição energética, com aplicações que vão de comunicação crítica a materiais de alto valor tecnológico”, explica Luiz Rodrigues.

Além do potencial geológico, o cenário internacional reforça a importância do tema. Atualmente, a cadeia global de minerais críticos — especialmente no caso das terras raras — é concentrada. “Esse mercado hoje é fortemente concentrado, especialmente na China, o que abre uma oportunidade para o Brasil se posicionar e avançar na cadeia produtiva”, disse.

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Apesar das oportunidades, o avanço do País no setor depende de superar gargalos tecnológicos. Segundo Rodrigues, o domínio das etapas mais sofisticadas de processamento ainda é restrito a poucos países, o que limita a capacidade de agregação de valor. Segundo a Agência Internacional de Energia (International Energy Agency, IEA), a China responde por cerca de 91% do refino global de terras raras e cerca de 94% da produção de ímãs permanentes, etapa final de alto valor. “Não é só uma questão de investimento. É preciso investir em ciência, tecnologia e inovação e construir arranjos que deem capacidade ao País de avançar no processamento”, destacou.

Entre os desafios apontados estão a necessidade de ampliar investimentos em pesquisa, fortalecer a articulação com a política industrial e desenvolver modelos institucionais capazes de viabilizar o processamento no País. “Sem ampliar o investimento em ciência, tecnologia e inovação e estruturar arranjos produtivos, não será possível avançar no processamento no Brasil”, afirmou.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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