Política Nacional

Ribeirinhos denunciam violações em unidade de conservação no Pará

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Enquanto ribeirinhos e pequenos agricultores denunciaram um quadro de insegurança jurídica e vulnerabilidade social na unidade de conservação Estação Ecológica da Terra do Meio, no Pará, representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) afirmaram que a criação da área protegida foi fundamental para conter a grilagem de terras, reduzir conflitos e frear o desmatamento na região. O tema foi debatido em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos (CDH), nesta terça-feira (10).

O território tem mais de 3 milhões de hectares e foi transferido do estado para a União para criação da unidade de conservação em 2005. 

Os participantes alegaram que a unidade foi instituída em território historicamente ocupado por povos e comunidades tradicionais, camponeses e pequenos produtores rurais que ali estabeleceram moradia, produção e vínculos comunitários muito antes da edição do ato normativo federal. 

Eles afirmaram que, após esse período, a União e o ICMBio não concluíram processos efetivos de regularização fundiária, indenização prévia e justa ou implementação de instrumentos de transição, como termo de ajustamento de conduta (TAC). Segundo eles a situação provocou atraso administrativo e  consequências negativas na vida de famílias que permanecem sob restrições ao exercício do trabalho, à produção de alimentos e à manutenção de sua subsistência.

Para o senador Zequinha Marinho (PL-PA), autor do pedido para a realização da audiência, os direitos humanos dessas pessoas não estão sendo levados em consideração pela União ao infringir direitos como o individual, à propriedade e ao trabalho. Ele argumentou que as ações têm sido justificadas pelo Ministério do Meio Ambiente em razão de questões ideológicas, atendendo, segundo ele, a interesses de organizações não governamentais (ONGs) e de pressões internacionais. 

— É muito fácil de você ver 10, 15, 20 camionetes do ICMbio, do Ibama, da Força Nacional, da Polícia Federal ali presentes para reprimir um pequeno produtor rural que mora ali. Quando a reserva chegou ele já estava lá há muito tempo. Ele sequer foi consultado se essa reserva deveria ser instalada ali. O governo cria oficialmente e a partir do dia seguinte essas pessoas são consideradas criminosas.  

O senador ainda e criticou a ausência de representantes do Ministério Público na audiência, sem nenhuma justificativa.

Direitos violados 

Para os ribeirinhos, a ausência de solução estrutural revela falha de governança ambiental e ineficiência na gestão da política pública. O prolongamento desse estado de indefinição, segundo eles, compromete não apenas direitos individuais, mas o próprio equilíbrio socioambiental, que exige conciliação entre conservação, justiça social e desenvolvimento regional sustentável.

Marcelo Norkey Duarte Pereira, que é pequeno produtor e morador da APA Triunfo do Xingu, alertou que na época da criação da unidade, as comunidades locais não foram ouvidas e o projeto implantado acabou não atendendo às demandas e ao estudo técnico realizado naquele momento. De acordo com ele, o mosaico ideal que respeitaria os direitos dos ribeirinhos, a territorialidade e as economias já consolidadas não foi seguido. 

O produtor explicou que, por conta da unidade, todas as atividades econômicas são proibidas, sendo permitida apenas aquelas ligadas à pesquisa científica, restringindo os meios de sobrevivência a essa comunidade. Ele comparou a situação a uma “escravização ambiental”. 

— Porque eles trabalham a partir da floresta, não recebem nada, eles estão presos lá, não podem sair, eles não têm saneamento básico, estão em situação insalubre. Como que é o nome disso hoje em dia? Se fosse numa fazenda seria o quê? Mas quando é para proteger a virtude ambiental a dignidade da pessoa humana, que é um direito fundamental da nossa Constituição e do Estado brasileiro ele é colocado de lado. 

Valmira Jerônimo da Silva, ribeirinha, extrativista, moradora da Estação Ecológica da Terra do Meio e integrante de uma família que está na região há mais de 60 anos defendeu que as famílias possam permanecer no território com dignidade.

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— Nós queremos a nossa tradição de volta, queremos aquilo que foi tirado de nós. Nós estamos presos lá e somos impedidos de ter acesso a alguns direitos como escola, saude, educação para nossos filhos. E infelizmente a gente não tem (…). Nós cuidamos daquilo ali, preservamos, não fazemos nada que vá nos prejudicar  e nem prejudicar ao meio ambiente, somos funcionários do governo sem salário. 

O ribeirinho, extrativista e membro do Conselho Gestor da Estação Ecológica Edson Pereira de Souza reforçou as críticas de Valmira e disse que a situação é de calamidade pública. Ele ainda solicitou que a União obedeça ao termo de compromisso já assinado com algumas famílias.

— Temos três escolas dentro da população e elas estão em estado de calamidade. Não tem banheiro, as casas estão em tempo de cair em cima da população, nós mesmos improvisamos para ter as escolas. Então a gente pede escola digna, posto de saúde.

Truculência 

Outra denúncia feita pelos ribeirinhos foi em relação à atuação do ICMBio na região. Segundo eles, o órgão, por meio da base instalada na localidade, tem agido com truculência entre os moradores e dificultado autorizações para a realização de qualquer serviço ou atividade nas terras do ribeirinhos. 

— Nós vivemos lá da agricultura e agora não podemos mais tirar nada. Nós temos um gadinho, pouquinho, temos financiamento do Banco da Amazônia [Basa], e não podemos trabalhar. Como vamos fazer? Vamos comprar o gado com o dinheiro que o governo deu e criar dentro de casa porque não pode fazer nada na roça, na terra? — questionou o agricultor Wilmar Joaquim da Silva. 

O agricultor familiar e membro da Associação dos Produtores Rurais do Iriri e Moradores do Igarapé da Bala (Aprimiba) Adevaldo Castro Alcântara relatou que teve sua propriedade queimada pelo ICMBio duas vezes. Após perder tudo, não ter mais meio de sobrevivência e morar de favor em um terreno de um conhecido, ele pediu que os poderes públicos tenham urgência em socorrer a população ribeirinha daquela localidade.

— Nós estamos aqui para pedir socorro. Que seja visto logo porque nós não estamos mais aguentando. Nós temos nossos direitos, tem um documento lá que fala que nós temos os nossos direitos como produtor rural que nós geramos emprego, alimento. E hoje eu estou morando embaixo de uma lona, na terra alheia, de abrigo, sendo que eu tinha tudo. 

Garantias 

O coordenador técnico Territorial de Santarém (PA) e representante ICMBio, Bruno Rafael Miranda Matos, explicou que a criação da unidade teve o objetivo de frear a ocupação desordenada e a forte presença de grilarem na região que, nas décadas de 1990 e 2000, geravam conflitos e violência às populações tradicionais do território. 

Ele informou que entre os ribeirinhos, dos 32 termos de compromisso assinados, 21 foram renovados e estão válidos até 2028. Segundo Matos, o termo permite uma série de ações, produções, reformas e deslocamento que precisam ser formalmente solicitados ao ICMBio. 

— A gente tem um instrumento que permite a produção, a abertura de área, a produção de roça, extração de produtos não madeiros, a gente tem também regras que permitem a reforma e ampliação de estruturas físicas. Então para escolas, para posto de saúde, sedes de associações lógico, tem que ter um pedido simples para poder a gente avaliar a localização com base nas regras de manejo da unidade, então é totalmente possível. Então basta que haja a formalização. 

O coordenador esclareceu ainda que desde 2023 não houve pedido formal ao ICMBio, por exemplo, para a reforma dessas estruturas físicas, como de escolas ou postos de saúde. E apontou que o órgão atua apenas como articulador e fomentador das políticas públicas, mas a implantação, segundo ele, é de responsabilidade dos governos municipal e estadual.  

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— Obviamente que a gente tem que destacar que a construção de escolas, a alocação de professores ou mesmo a construção de postos de saúde e alocação de médicos e profissionais de saúde é de responsabilidade de outras instituições. A gente tem que lembrar que o estado do Pará e os municípios sobrepostos da unidade tem competências e responsabilidades no território que, formalmente falando, é deles. 

Regularização 

Segundo Matos, existem atualmente 204 processos de regularização fundiária, com foco nas propriedade localizadas nas estradas vicinais Transiriri e Leão, por recomendação do Ministério Público, com a justificativa de ter maior número de ocupação. 

Ele informou ainda que o órgão está fazendo a transição dos colonos no processo de regularização, encaminha para a Secretaria de Assistência Social e ao Ministério Pública a lista de moradores que estão em vulnerabilidade social, conduz a aplicação de um plano emergencial de retirada de gado em razão da regularidade sanitária e prioriza a construção de um instrumento temporário de compatibilização de direitos com moradores antigos para que sejam priorizados. 

Ainda de acordo com o coordenador, o reforço na atuação do ICMBio na região levou a uma redução no desmatamento de de mais de 80% de 2022 a 2023/2024.

Transferência para União

Paralelamente a essa questão, os representantes das comunidades ribeirinhas alertaram para a crescente criação de unidades de preservação implicando significativa transferência de domínio territorial dos governos estaduais de ocasião para a União por meio de decretos.

Na opinião deles, esse cenário tem ocorrido sem que haja, até o momento, compensação financeira ou patrimonial correspondente.

— Nós recebemos agora, através de uma ação civil pública que nós estamos movendo contra o ICMbio, contra o governo federal, uma resposta do governo do estado dizendo que nunca recebeu um centavo do ICMbio. Vinte anos ocupando uma área do governo estadual, ocupando uma gleba estadual, e até hoje eles não indenizaram, não pagaram nada, só tirou renda — disse Marcelo Norkey. 

Diligência e encaminhamentos 

Na avaliação do senador Jorge Seif (PL-SC), responsável por presidir os debates, é preciso buscar soluções que equilibrem a preservação ambiental, segurança jurídica e o respeito às pessoas que vivem nesse território há décadas. Ele considerou os relatos graves e sugeriu que a comissão faça uma diligência para apurar a situação no local. 

— Nós precisamos ir lá conversar com esse pessoal, que autoridade é essa? Ou seja, não recebem indenização de Belo Monte, não pode pescar, não pode fazer turismo, não pode plantar, não pode colher, não pode levar um bicho, não pode construir uma cerca?

Já a presidente da CDH, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), classificou os relatos como uma séria violação dos direitos humanos e disse que buscará posicionamentos do Ministério da Igualdade Racial e a Comissão Nacional de Soluções Fundiárias do Conselho Nacional da Justiça (CNJ) sobre a questão.  

— Eu quero o meio ambiente preservado, mas o ser mais precioso que está inserido no meio ambiente é o ser humano. Como que eu vou falar para esse povo: sai que vocês são violadores do meio ambiente? São bandidos, vão para uma lista negra. A gente deu voz a essas pessoas, mas eu acho que os órgãos de governo precisam se falar entre si. 

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Política Nacional

Câmara aprova regras para realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino no Brasil em 2027

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A Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que regulamenta direitos e deveres da União e da Federação Internacional de Futebol (Fifa) em razão da realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino no Brasil em 2027. A proposta será enviada ao Senado.

De autoria do Poder Executivo, o Projeto de Lei 1315/26 foi aprovado na forma do substitutivo da relatora, deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ela defendeu a proposta como de importância esportiva, social e institucional, para favorecer o desenvolvimento e a promoção do futebol feminino, ampliar sua visibilidade e fortalecer a formação de atletas e público, entre outros benefícios.

Propaganda de bebidas
Segundo o texto, ao contrário da proibição legal, será permitida a propaganda de bebidas alcoólicas nas transmissões dos eventos oficiais do torneio (jogos, treinos, sorteio, etc.) e em emissoras de rádio e TV fora do horário restrito das 22 horas de um dia às 6 horas do dia seguinte.

Como a jurisprudência legal e o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publiciária (Conar) estendem a proibição legal às redes sociais, canais de internet e outros meios virtuais de transmissão, por extensão a permissão de propaganda desses produtos nos eventos também atingirá esses meios.

Comércio
A relatora incluiu no substitutivo toda a Medida Provisória 1335/26, que disciplina questões como patentes, comércio nos locais de eventos e acesso a imagens.

Quanto à venda de bebida alcoólica, Gleisi Hoffmann retirou trecho ambíguo da MP a fim de permitir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios e locais de eventos oficiais.

Entretanto, a proteção aos direitos comerciais e de marketing não implica autorização, dispensa ou flexibilização de normas sanitárias.

Exclusividade
O texto estabelece regras de exclusividade para a Fifa e seus parceiros econômicos para a realização da Copa no Brasil, envolvendo a titularidade de todos os direitos de exploração comercial relacionados às imagens, sons, símbolos, marcas, slogans, marketing e demais propriedades intelectuais de todos os eventos relacionados à Copa, desde as partidas oficiais até treinos, festas, entrevistas, etc.

Uma das novidades em relação às normas da Copa de 2014 é o resguardo dos direitos do governo federal pelo uso de seus próprios slogans, mascotes, denominações, campanhas, personagens, símbolos oficiais e outros existentes ou criados especificamente para uso em publicidade institucional, comunicação de utilidade pública, campanhas educativas, informativas ou de interesse público ou divulgação de políticas públicas, ainda que realizados no contexto ou no âmbito dos eventos oficiais e desde que não haja exploração comercial nem associação promocional com marcas ou produtos de terceiros.

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Imagens
O projeto também traz regra para a liberação de imagens para outras emissoras não autorizadas a transmitir integralmente as partidas, cerimônias de abertura e encerramento ou sorteio da competição.

Essas imagens liberadas após o fim do evento oficial, classificadas como flagrantes, poderão ser usadas apenas para fins jornalísticos com uso nas 24 horas após o evento, proibida sua associação a qualquer forma de patrocínio, promoção, publicidade ou marketing.

As emissoras não autorizadas poderão exibir um máximo de 30 segundos de flagrantes para cada evento, exceto no caso das partidas, cujo limite será de 3% do tempo de partida.

Para ter acesso a essas imagens, os veículos de comunicação terão de comunicar à Fifa com 72 horas de antecedência sua intenção de usar o material.

Edição de imagens
A Fifa ou pessoa por ela indicada deverá preparar 6 minutos de gravação dos principais momentos das partidas ou eventos oficiais, dos quais serão extraídos os flagrantes dentro dos limites de tempo estipulados. A gravação será entregue em até 6 horas depois do evento.

O conteúdo editado poderá ser distribuído pelas emissoras às suas filiadas, que também terão de cumprir os limites de tempo dos flagrantes.

Em todos os casos, não poderá ser associada às imagens qualquer atividade publicitária ou haver exploração comercial do conteúdo.

Todas as regras serão aplicáveis à veiculação pela internet ou plataformas digitais.

Premiação
O texto permite ainda ao Ministério do Esporte pagar um prêmio de R$ 500 mil a cada jogadora da seleção brasileira de futebol feminino participante do Torneio Experimental Fifa realizado na China em 1988.

Nesse torneio, o Brasil ficou na terceira colocação e participaram, a convite, 12 seleções das confederações de futebol para avaliar o potencial econômico e de inserção no calendário de um torneio mundial da Fifa em caráter permanente.

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Nesse ponto, a relatora incluiu como beneficiárias da premiação as jogadoras participantes da 1º Copa do Mundo Fifa de Futebol Feminino, igualmente realizada na China em 1991. Com isso, o total de jogadoras que podem receber as premiações passa de 18 para 30.

A estimativa inicial de impacto orçamentário do governo é de R$ 9 milhões. Caso alguma jogadora já tenha falecido, os sucessores indicados pela Justiça poderão receber o prêmio proporcionalmente à sua cota-parte na sucessão da herança.

A premiação não tem data definida para pagamento, mas a vigência desse trecho do projeto ocorrerá a partir de 24 de junho, um ano antes do início da Copa.

Reparação histórica
Gleisi Hoffmann afirmou que o poder público tem a obrigação de promover o futebol feminino. Ela lembrou que o Decreto-Lei 3.199/41 proibiu por mais de 40 anos às mulheres a prática de esportes considerados “incompatíveis com as condições da natureza feminina” e afetou principalmente as modalidades como futebol, lutas e halterofilismo.

“Se foi o Estado, em tempos de ditaduras, que proibiu o esporte por tanto tempo e gerou as dificuldades que vemos agora, nada mais justo do que promover, na democracia, as medidas de reparação”, disse.

Feriado
Outra medida prevista no projeto é a permissão para a União decretar feriado nacional nos dias em que houver jogo da seleção brasileira de futebol durante o torneio. Estados, Distrito Federal e municípios poderão também decretar feriado ou ponto facultativo nos dias em que ocorrerem eventos oficiais em seus territórios.

Já os calendários escolares dos sistemas de ensino deverão ser ajustados para que as férias do primeiro semestre de 2027 abranjam todo o período entre a abertura e o encerramento da Copa, tanto nos estabelecimentos da rede pública quanto nos da rede privada.

Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei

Reportagem – Eduardo Piovesan e Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli

Fonte: Câmara dos Deputados

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