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Da violência psicológica à reconstrução de uma vida com propósito e ajuda do Judiciário de MT

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“Eu fui ao inferno e voltei”. A declaração, que resume uma jornada de superação da violência psicológica, é de Jennifer Surita, de 39 anos. Sua história, marcada pela dor e pelo isolamento, culminou numa busca por ajuda que a levou ao Centro Especializado de Atenção às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais (CEAV) do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em Cuiabá, um apoio fundamental para que ela pudesse reencontrar sua identidade e inspirar outras mulheres. Sem medo nem vergonha de se identificar e mostrar o rosto, ela é uma das muitas pessoas acompanhadas pela equipe multidisciplinar do CEAV, que funciona no Fórum da Comarca de Cuiabá e que durante a Semana Justiça pela Paz em Casa, intensifica as ações de conscientização e combate contra a violência doméstica e familiar.

Jennifer faz questão de contar sua história para encorajar outras mulheres a romperem o ciclo de violência, mudarem de vida, e o mais importante, preservar sua própria vida. “O resgate humano que é oferecido pela equipe do Ceav é maravilhoso. A gente vê essas mulheres que nos inspiram a querer ser uma pessoa melhor e ter um padrão de vida melhor. Eu não tinha essa vontade antes, eu achava que era só trabalhar, pagar as contas do dia. Hoje quero ser uma mulher grande. Tenho sonhos de novo.”

Embora o CEAV atenda pessoas vítimas de crimes e atos infracionais de qualquer natureza, das quase duas mil pessoas atendidas entre janeiro e junho de 2025, 90% foi de mulheres em situação de violência doméstica e familiar, um público considerado mais vulnerável.

Jennifer conheceu seu ex-marido há sete anos. No início, ele era tudo o que ela poderia desejar em um parceiro: cativante, bondoso, educado, prestativo e com os mesmos objetivos de vida. Ele a cortejou de maneira calculada, estudando seus gostos e interesses, e aos poucos foi se tornando uma figura onipresente em sua vida. Jennifer, nascida em Corumbá (MS), mas criada em Cuiabá desde os dois anos, descreve-o como um homem charmoso, bem-sucedido e aparentemente religioso, que usava sua comunicação e postura para encantar a todos.

“Ele me estudou para poder me conquistar. Era muito educado, muito respeitoso. Ele tem uma ótima fachada de ser humano, mas no relacionamento… ele me confessou que sentia prazer em fazer aquilo comigo.”

A ascensão da violência e a descoberta da abusividade

Mulher de cabelos escuros veste camisa jeans e conversa em uma mesa com outras duas pessoas; sua postura séria indica relato importante, em ambiente de atendimento com móveis claros e acolhedores.O ciclo de violência começou após o casamento e a gravidez do primeiro dos três filhos do casal. O comportamento do marido mudou drasticamente. Ele se tornou paranoico, ciumento e controlador. Jennifer conta que ele via coisas onde não existiam, criando discussões por motivos banais, como um olhar no mercado ou a presença de amigos em um churrasco familiar.

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“A palavra dele sempre era que eu estava louca,” diz Jennifer. Ele a criticava constantemente, desvalorizava suas conquistas e falava que ela não teria sorte em encontrar um homem melhor do que ele. Tudo o que a fazia feliz era motivo para ser desqualificado, desde um novo corte de cabelo até uma simples roupa. O objetivo era minar sua autoestima e isolá-la. Ele a afastou de amigos e, com a chegada do bebê, a convenceu a largar o trabalho, tornando-a financeiramente dependente.

A pandemia de COVID-19 intensificou a violência, quando a família se mudou para o Pará. Foi lá, assistindo TV, que Jennifer ouviu uma atriz descrever a violência psicológica e reconheceu todos os sinais em sua própria vida. “Nossa! Eu estou vivendo isso! Foi o que falei quando me identifiquei com o que a atriz estava falando”, lembra.

A declaração de Jennifer ilustra a importância de campanhas contra a violência doméstica e todas as ações desenvolvidas pelo poder público

A luta pela separação e a batalha legal

Mulher de vestido jeans entra pela porta do Centro Especializado de Atendimento às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais; a fachada azul com o nome da instituição está em destaque na cena.Jennifer demorou cerca de dois anos para tomar a decisão de se separar, mesmo após a descoberta da violência. Ela tentou de tudo, inclusive buscou ajuda na igreja, acreditando que o problema era algo espiritual e que ele poderia mudar. “Ir pra a igreja só prolongou o sofrimento, porque eu não me decidia, pensando que era a vontade de Deus estar com ele”. Quando finalmente decidiu pela separação, o marido não aceitou e começou a usar os filhos como instrumento de controle.

A situação culminou num incidente grave, quando ele a seguiu até ele chegar na Delegacia das Mulheres de Cuiabá e tentou passar com o carro por cima dela. Ela registrou então, o primeiro de três boletins de ocorrência, que foram necessários para que ele entendesse a seriedade da lei. Apesar da resistência, o agressor foi confrontado por seus advogados, que o alertaram sobre as consequências de suas ações. “Se tem uma lei que funciona é a lei da mulher,” disseram a ele.

A reconstrução de uma vida

Após o fim do relacionamento abusivo, Jennifer se viu com a vida e a autoestima destruídas. Ela tinha pensamentos suicidas e a sensação de que estava vivendo em “piloto automático”, como se seu corpo existisse, mas sua alma estivesse morta.

Foi no Ceav que ela encontrou o suporte necessário para recomeçar. Jennifer relata que a equipe a acolheu de forma calorosa e profissional, oferecendo apoio psicológico e orientação. “O trabalho das meninas é ótimo, muito acolhedor. Eu cheguei aqui com a mente destruída.”

O atendimento psicológico foi um passo fundamental. Jennifer, hoje com 39 anos e mãe de cinco filhos no total (dois adultos, dois adolescentes e três crianças com o ex-marido), começou a se reconstruir, a retomar seus estudos e a ter novamente vontade de viver. Ela também encontrou uma nova fonte de renda, trabalhando com vendas e participando de feiras organizadas pela própria unidade do Fórum, como a feira da Semana Justiça pela Paz em Casa, realizada durante toda a semana em Cuiabá. Além do apoio psicológico, Jennifer destaca a importância do curso de autodefesa pessoal oferecido na unidade. “É muito importante, é muito sério. A gente não é invencível, a gente precisa de ajuda”.

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Planos, recomeços e uma missão

Hoje, Jennifer se sente 80% reconstruída. Ela faz faculdade de marketing EAD, planeja estudar inglês e sonha em fazer um intercâmbio no exterior. Embora ainda sinta receio de iniciar novos relacionamentos, ela está focada em seu processo de recuperação e nos filhos. “Cada lugar que entro, sempre vai haver uma mulher que passou por isso, e eu posso ajudá-la com palavras, com indicação de lugares como o CEAV, para que ela seja acolhida e possa recomeçar como eu pude.”

A história de Jennifer é um testemunho de que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, é possível encontrar forças para recomeçar. Sua vida é a prova de que a reconstrução é um processo gradual e de que a ajuda profissional é fundamental para que as vítimas de violência recuperem a autoestima e o direito de viver com dignidade. Como ela mesma diz, “é difícil, mas não é impossível”, afirma a juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, coordenadora do CEAV e titular da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá.

CEAV Cuiabá

O Centro foi criado para prestar apoio e atenção a pessoas que sofreram danos físicos, morais, patrimoniais ou psicológicos em decorrência de crimes ou atos infracionais e funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h, no Fórum de Cuiabá. Também atende por WhatsApp pelo número: (65) 9 99247-1462.

Em Cuiabá, foram realizados 4.099 atendimentos entre agosto de 2024 e julho de 2025. Embora atenda a todos os públicos, cerca de 90% dos casos são relacionados à violência doméstica e familiar contra mulheres. A juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, coordenadora do Ceav, explica que essas vítimas demandam atenção especial, pois a violência é frequentemente cometida por pessoas próximas e se repete por anos, tornando o processo de recuperação mais complexo.

O Fórum de Várzea Grande também abriga um CEAV, que funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h. O WhatsApp do CEAV VG é (65) 3688-8404.

Autor: Marcia Marafon

Fotografo: Alair Ribeiro

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

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Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

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Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

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Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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