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Normas técnicas ganham protagonismo na governança da inteligência artificial e ampliam debate estratégico no Brasil

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A forma como a inteligência artificial será desenvolvida, aplicada e regulada no mundo passa, cada vez mais, por um elemento muitas vezes invisível ao público: as normas técnicas. É nesse espaço que se definem critérios de segurança, qualidade e interoperabilidade, com impacto direto na economia, na inovação e na soberania tecnológica dos países. Diante desse cenário, o debate sobre normalização se consolida como uma etapa essencial para garantir que o Brasil participe ativamente da construção das regras que moldam o futuro digital. 

Com esse foco, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) promoveu, nesta terça-feira (14), o webinar Papel Estratégico da Normalização e Padronização na Governança e Geopolítica da IA. O encontro reuniu representantes do governo, especialistas e instituições estratégicas para discutir como a padronização pode fortalecer políticas públicas, ampliar a inserção internacional do País e contribuir para o uso responsável da tecnologia. 

Durante a abertura, o secretário de Ciência e Tecnologia para Transformação Digital do MCTI, Henrique Miguel, destacou que a discussão vai além da regulação e envolve toda a estrutura de funcionamento da inteligência artificial. “Esse papel transcende a governança. Ele também abrange o uso, a normatização e a operação da inteligência artificial no relacionamento entre empresas e entre países”, afirmou. 

O secretário ressaltou que, embora temas como dados, infraestrutura e capacitação sejam centrais, há uma camada estruturante que influencia diretamente o desenvolvimento da tecnologia. “São as normas técnicas que podem definir critérios, estabelecer parâmetros de qualidade, segurança, confiabilidade e interoperabilidade. Na prática, elas têm grande influência na forma como essas tecnologias são desenvolvidas, implementadas e utilizadas”, explicou. 

A normalização também se consolida como um elemento estratégico no cenário internacional. Mais do que instrumentos técnicos, os padrões incorporam valores, percepções de risco e visões de mundo, tornando-se mecanismos concretos de influência nas disputas globais por tecnologia e inovação. Nesse ambiente, as regras que orientam o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial passam a ter impacto direto na forma como países se posicionam economicamente e tecnologicamente. 

Diante desse contexto, a participação ativa do Brasil na definição dessas normas se torna essencial. Não se trata apenas de acompanhar o que é estabelecido no exterior, mas de contribuir para a construção desses referenciais, considerando interesses nacionais e capacidades científicas. O avanço dessa agenda depende de articulação entre governo, setor produtivo e comunidade científica, com atuação coordenada de instituições que operam em diferentes frentes da política de ciência, tecnologia e inovação. 

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Disputa global e necessidade de regras 

Representando o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o embaixador Eugênio Vargas Garcia destacou que a discussão ocorre em um contexto internacional marcado por disputas tecnológicas e instabilidade geopolítica. “Estamos vivendo uma conjuntura internacional muito complexa, com turbulências que afetam a governança global. Há uma disputa por supremacia tecnológica que impacta dados, infraestrutura digital e também a arquitetura de governança”, disse. 

A definição de normas e padrões também aparece como condição central para garantir confiança no uso da inteligência artificial, especialmente em um ambiente internacional marcado por disputas tecnológicas e instabilidade. Para além das fronteiras, a construção de sistemas confiáveis depende da existência de balizas claras, diretrizes compartilhadas e estruturas interoperáveis que permitam a integração entre diferentes países e mercados. 

Ao mesmo tempo, o cenário geopolítico atual impõe desafios adicionais a esse processo. A complexidade das relações internacionais e a disputa por liderança tecnológica tornam a construção de consensos mais difícil, reforçando a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o tema. Ainda há pouco entendimento sobre a dimensão dessas discussões e sobre como elas ocorrem na prática, o que evidencia a importância de espaços de diálogo que contribuam para qualificar o debate e orientar decisões estratégicas. 

Do ponto de vista econômico, o secretário de Competitividade e Política Regulatória do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Pedro Ivo Sebba Ramalho, destacou que a normalização é fundamental para facilitar o comércio, reduzir custos e promover interoperabilidade entre sistemas”. Ele explicou que, ao contrário da regulamentação obrigatória, a padronização funciona como um mecanismo voluntário que incentiva boas práticas e simplificação de processos. 

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A normalização também contribui para a simplificação de processos e para o aumento da competitividade em um ambiente global cada vez mais integrado, ao estabelecer referências comuns que facilitam o comércio, reduzem custos operacionais e ampliam a interoperabilidade entre sistemas. Esse tema se conecta diretamente à Estratégia Nacional de Infraestrutura da Qualidade, que contempla um eixo voltado à inovação e à transformação digital, no qual a inteligência artificial se destaca como uma área de fronteira que exige alinhamento entre políticas públicas e desenvolvimento tecnológico. 

O diretor de projetos estratégicos e relações internacionais do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Caetano Pena, ressaltou que a normalização deixou de ser apenas uma questão técnica para ocupar um papel central na formulação de políticas públicas. “A normalização se torna um espaço onde se definem regras do jogo. Ela pode ajudar a avançar objetivos estratégicos e mitigar impactos negativos das tecnologias”, afirmou. 

Ele destacou a atuação do CGEE em estudos sobre inteligência artificial e tecnologias digitais, incluindo o apoio à implementação do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (Pbia). 

A produção de análises voltadas à formulação de políticas públicas tem sido uma frente consolidada de atuação, fortalecida pela criação do Observatório de Tecnologias Digitais, que acompanha debates sobre regulação, ética e soberania tecnológica. Nesse contexto, o conteúdo discutido no webinar será sistematizado em uma nota técnica, com o objetivo de reunir contribuições e apoiar o avanço dessa agenda no país. 

Construção coletiva e agenda nacional 

O webinar contou com a participação de instituições como Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e representantes de diferentes áreas do governo, reforçando a necessidade de uma atuação integrada. A iniciativa tem a parceria do Ministério das Relações Exteriores, o CGEE, o Observatório de Tecnologias Digitais e a Associação Brasileira de Normas Técnicas. 

Assista na íntegra:

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Unidade vinculada do MCTI integra novo conselho de apoio ao empreendedorismo feminino

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Apesar das dificuldades e preconceitos, as mulheres estão cada vez mais ocupando espaços que antes eram majoritariamente masculinos, como o empreendedorismo. Ainda que o movimento tenha avançado nos últimos anos e seja uma grande conquista, a diretora da Lunagreen Bioativos, Nathália Pedroso, conta que o desafio continua. “Nós precisamos nos provar o tempo inteiro, mostrar que somos capazes, que somos tão boas quanto qualquer homem ou empresa liderada por um homem. Mesmo que isso canse, eu amo tanto o que faço, que essa luta já virou rotina”, explica.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em 2024, cerca de 10,4 milhões de mulheres eram donas do seu próprio negócio — contra os quase 20 milhões de homens na mesma posição. Com o intuito de apoiá-las e diminuir as desigualdades, o consórcio internacional Enterprise Europe Network Brasil (EEN) criou o Conselho Nacional de Empreendedorismo Feminino, Governança e Sustentabilidade Socioambiental. “Nós precisamos e queremos ver mulheres crescendo, ajudando umas às outras. Nós precisamos desse crescimento, não para provar para a sociedade a nossa capacidade, mas para mostrar para nós mesmas que podemos realizar os nossos sonhos e conquistar a nossa independência”, continua a empreendedora.

Unidade vinculada do MCTI integra novo conselho de apoio ao empreendedorismo feminino
Em 2024, cerca de 10,4 milhões de mulheres eram donas de seu próprio negócio

De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), nove entre dez mulheres relataram práticas para aumentar a sustentabilidade ambiental de seus negócios e, quatro, entre cinco, para objetivos de sustentabilidade social. A Lunagreen é uma empresa de pesquisa, desenvolvimento e fabricação de insumos naturais e biotecnológicos para a indústria de cosméticos.

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“Eu brinco que toda a parte natural que os cosméticos têm, a Lunagreen faz. Nós nascemos de um projeto muito especial, que é um beneficiamento de rejeitos. Hoje, todos os nossos insumos e processos são focados em obter biotecnologia com muita responsabilidade social e ambiental, sempre pensando em todos os elos da cadeia produtiva, de modo que todo mundo se beneficie e que o nosso trabalho não prejudique o meio ambiente”, explica Nathália.

Ainda segundo o GEM, as empreendedoras ganham em média 20% menos que os homens. Mesmo com os constantes desafios, Nathália Pedroso considera que o prêmio final ainda vale o caminho. “Para mim, a mulher é tão boa como empreendedora porque, além de ser boa já pelo trabalho que faz, ela ainda coloca o coração nas coisas. E, quando a gente coloca o coração nas coisas, as coisas saem muito melhor”, finaliza.

O conselho

O conselho terá seus trabalhos desenvolvidos em sintonia com a Comissão de Combate às Desigualdades do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável, da Secretaria de Relações Institucionais ligada à Presidência da República. O comitê será formado por instituições do ecossistema do EEN, como o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

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Segundo a vice-presidente da EEN Brasil e coordenadora-geral de Informação Tecnológica e Informação para a Sociedade (CGIT) do Ibict, Cecília Leite, a iniciativa nasce como uma plataforma estratégica de transformação. “O objetivo é impulsionar uma nova agenda de desenvolvimento para o País, ancorada na inclusão produtiva, na sustentabilidade e, sobretudo, no protagonismo feminino. Mais do que reduzir desigualdades, o conselho busca reposicionar as mulheres como líderes nos negócios, inclusive no cenário internacional, reconhecendo que fortalecer a liderança feminina é acelerar a inovação, a competitividade e o crescimento econômico do Brasil”, afirma. 

O conselho funcionará principalmente em ambientes digitais, com inteligência informacional e estratégias de comunicação inovadoras. “É nesse ponto que o Ibict assume um papel decisivo: como indutor de um ecossistema de informação e inovação, o instituto desenvolve e disponibiliza plataformas, ferramentas e conteúdos estratégicos que democratizam o acesso ao conhecimento. Isso permite que mais mulheres — em diferentes regiões e contextos — tenham acesso a informações qualificadas, oportunidades de capacitação e inserção em cadeias produtivas globais”, explica Leite. 

Também participam do consórcio a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (Fapec), Organização Brasileira de Mulheres Empresárias, Enrich in Lac e Rede Brasileira de Certificação, Pesquisa e Inovação.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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