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Brasil registra aumento de raios em todo o território nacional

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A quantidade de raios que caem sobre o território brasileiro tem aumentado nas últimas décadas, segundo análises de séries históricas de longo prazo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dados mais recentes indicam que o Brasil registrou, na média dos últimos 10 anos, cerca de 100 a 150 milhões de descargas elétricas por ano, a depender da técnica de monitoramento adotada. Até 2100, se o atual ritmo de aquecimento do planeta continuar, a expectativa é de que a média brasileira chegue perto ou ultrapasse 200 milhões de raios por ano. 

“A Terra já aqueceu quase 1,5ºC nos últimos 100 anos. Então, quanto mais quente estiver o ambiente, maior a chance de formar tempestades e, assim, aumentar a atividade de raios”, afirma o pesquisador do Inpe Kleber Naccarato. Estimativas atualizadas da unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) indicam que, para cada 1°C de aumento na temperatura média global, a incidência de raios pode crescer de 15% a 40%.  

A variação é alta pois, apesar do aquecimento da atmosfera aumentar a energia disponível para a formação de tempestades, não é só a temperatura que influencia no processo. Existem outros fatores combinados, como o desmatamento florestal, a poluição atmosférica e o crescimento urbano e populacional. Por isso, os números podem ser diferentes, dependendo de ações humanas que influenciam o meio ambiente. 

Intensos e frequentes, raios são descargas elétricas extremamente poderosas que ocorrem quando há grande acúmulo de cargas dentro de uma nuvem de tempestade. Eles são como uma espécie de faísca gigante na atmosfera, transferindo, em frações de segundo, uma quantidade enorme de eletricidade acumulada nas nuvens. De acordo com Naccarato, um raio pode causar parada cardiorespiratória em pessoas expostas, incêndios em áreas de vegetação, danos a linhas de transmissão e distribuição, equipamentos, além de interromper serviços como fornecimento de energia e tráfego aéreo.  

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Os mais vulneráveis aos raios estão concentrados em áreas rurais e abertas, onde o cuidado deve ser redobrado. “As regiões afastadas, fora das áreas urbanas, são mais perigosas porque quase nenhuma construção tem proteção contra raios. Na cidade, existem os prédios com os para-raios e as linhas de distribuição de energia com protetores de surto”, diferencia o pesquisador. Porém, “uma pessoa que estiver numa praça cheia de árvores, por exemplo, ou em um ponto de ônibus ou em uma piscina descoberta, que são lugares mais abertos, mesmo que ela esteja na cidade, corre um risco maior de ser atingida”.  

Como se proteger?  

A principal recomendação é evitar locais abertos ao ouvir trovões. Abrigos improvisados, como quiosques de palha ou barracas de lona, não oferecem proteção adequada. O local mais seguro em caso de tempestade é dentro de construções de alvenaria ou veículos, ambos fechados, como carros, ônibus, caminhões, tratores com cabine, entre outros. 

Casas e prédios, mesmo sem para-raios, têm estruturas metálicas internas que ajudam a dissipar a corrente elétrica do raio, o que fornece uma melhor proteção para as pessoas, embora possam danificar equipamentos. As normas brasileiras sugerem que todas as construções tenham para-raios. Especialistas reforçam que, diante de sinais de tempestade, a orientação é procurar abrigo imediatamente e aguardar em local fechado até que toda a atividade elétrica cesse, ou seja, quando não se ouve mais trovões.  

Brasil, um dos líderes em raios do planeta 

O Brasil está entre os três países com maior incidência de raios do planeta, acompanhado da República Democrática do Congo, na África, e dos Estados Unidos, na América do Norte. A liderança varia muito de um ano para outro, pois depende das condições ambientais e da técnica de monitoramento utilizada. Mas, por quê? 

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A explicação está na geografia e no clima. Com dimensão continental e localizado majoritariamente na faixa tropical do planeta, o Brasil recebe grande quantidade de energia solar ao longo do ano. A combinação de calor, umidade abundante — especialmente proveniente da Floresta Amazônica (a maior do mundo) e dos oceanos — e vasta extensão territorial cria condições ideais para a formação de muitas tempestades com descargas elétricas. 

Igualmente ocorre com a República Democrática do Congo. Mesmo com uma área menor que o Brasil, está na faixa equatorial, próxima à Bacia do Congo, e tem a segunda maior floresta tropical do planeta. Já os Estados Unidos têm uma extensão territorial levemente maior que a do Brasil e, mesmo fora da faixa mais quente do planeta, apresenta condições que contribuem para uma intensa atividade de tempestades, que incluem tornados e furacões.  

Embora os raios sejam um fenômeno natural diretamente influenciado por fatores climáticos globais, o monitoramento e as pesquisas científicas são fundamentais para compreender sua dinâmica e reduzir impactos. Com uma das bases de dados de raios mais amplas no País, o Inpe mantém séries históricas superiores a duas décadas. O acompanhamento contínuo permite identificar tendências de aumento, mapear áreas mais vulneráveis e produzir projeções de longo prazo associadas às mudanças climáticas.  

Essas informações subsidiam desde o planejamento do setor elétrico até estratégias de defesa civil e gestão ambiental. Dados sobre incidência de raios ajudam concessionárias a dimensionar sistemas de proteção das linhas de transmissão e distribuição, orientam políticas de prevenção a incêndios florestais, com destaque para a Amazônia, e apoiam campanhas de conscientização para reduzir mortes, que ainda se concentram, majoritariamente, em áreas rurais, praias, campos de futebol, clubes, entre outros locais abertos.  

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Cerâmica ancestral renasce pelas mãos de mulheres da Amazônia

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Uma história viva. É assim que a coordenadora do Grupo de Agricultores Orgânicos da Missão, Bernardete Araújo, descreve a japuna, um tipo de forno de origem indígena. Hoje, essa e tantas outras peças há tempos esquecidas voltam a ganhar vida pelas mãos de mulheres agricultoras e ceramistas da comunidade que fica em Tefé (AM), graças ao projeto Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões.  

“A japuna, para mim, significa a história viva, um museu vivo. Eu via, desde pequena, minha mãe produzindo e usando essa peça para torrar farinha, café, cacau, milho e castanha. Estamos resgatando o conhecimento tradicional das nossas mães, avós e bisavós”, conta a coordenadora. Outro ponto positivo de voltar a adotar a técnica ancestral é a possibilidade de gerar renda com a venda de vasos, fogareiros, fruteiras e panelas. 

A iniciativa reuniu as mulheres da associação Clube de Mães para atuar em todas as etapas do processo, chamada pelos arqueólogos de cadeia operatória das japuna. Esse processo vai desde a coleta do barro na própria comunidade, passando pela modelagem e pela queima natural do material, até a finalização das peças, práticas aprendidas com suas antepassadas. 

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O projeto conta com três eixos de pesquisa: o primeiro com base em escavações na região; o segundo, de caráter etno-histórico, fundamentado em relatos de livros históricos e na memória das mulheres; e o terceiro, etnográfico, baseado na observação das técnicas das ceramistas da comunidade. A iniciativa é uma parceria entre o grupo e o Instituto Mamirauá, organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

Segundo a arqueóloga do Mamirauá e uma liderança da iniciativa, Geórgea Holanda, há anos a produção das japuna estava adormecida, com risco de ser extinta. “Mas elas estavam presentes na mente das ceramistas. Então, por meio do projeto, foi possível colocar em prática esse conhecimento. Que foi repassado de geração para geração pelas suas antepassadas”, conta.  

“Voltar a fazer as japuna é como o resgate do conhecimento tradicional dos nossos pais. A gente tem que manter viva essa tradição, esse conhecimento e a continuidade dessa história da nossa ancestralidade”, diz Bernardete. 

De acordo com Geórgea, a relação entre o instituto e a comunidade acontece de forma participativa, sempre respeitando as decisões das pessoas da comunidade. “Esse trabalho só foi possível porque elas aceitaram e passaram esse rico conhecimento para nós”, finaliza a arqueóloga. 

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Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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