Tribunal de Justiça de MT

Delegada fala sobre denúncias de violência de gênero em capacitação para professores no TJMT

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Na sexta-feira (15 de agosto), o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) realizou a segunda capacitação do projeto “A escola ensina, a mulher agradece”, para 190 professores e diretores de escolas estaduais. O evento, que ocorreu no auditório do TJMT em Cuiabá, abordou o combate à violência de gênero com palestras ministradas por especialistas no assunto. Uma delas foi conduzida pela delegada Judá Maali Pinheiro Marcondes, titular da Delegacia Especial em Defesa da Mulher de Cuiabá, que falou sobre “A Denúncia dos Atos de Violência contra a Mulher”.

A capacitação faz parte de um esforço maior do Poder Judiciário, por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), para transformar educadores em agentes de conscientização, levando a discussão para dentro das salas de aula. Esta etapa do projeto incluiu professores de Artes, Língua Portuguesa e História dos municípios de Cuiabá, Barra do Garças, Cáceres, Rondonópolis, Sinop e Várzea Grande. A iniciativa já havia capacitado 130 gestores escolares em maio.

Denunciar é preciso

Em sua palestra, a delegada Judá Maali Pinheiro Marcondes destacou a importância de desconstruir o estigma social em torno das mulheres que denunciam a violência. Ela ressaltou que, na sociedade, historicamente, a mulher que busca a polícia é vista como alguém “problemático”, “falso” ou que “está se vingando”, reforçando a misoginia presente em piadas e narrativas culturais.

A delegada listou aos professores diversos recursos disponíveis para denunciar a violência contra mulheres e ressaltou a importância de ensinar as crianças, principalmente os meninos, o respeito pelas meninas e mulheres.

As denúncias podem ser feitas pelos canais das Polícias Civil (197) e Militar (190), além do Disque 180 (específico para violência doméstica) e Disque 100 (para Direitos Humanos). Ela explicou também que é possível pedir uma Medida Protetiva online e ressaltou a facilidade de solicitar uma medida protetiva pelo aplicativo SOS Mulher MT, disponível nas lojas de aplicativos de qualquer aparelho celular.

O aplicativo também oferece o botão do pânico, uma ferramenta de proteção em caso de perigo iminente, que está disponível em Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis e Cáceres, onde funciona o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp).

Já o dispositivo conectado à tornozeleira eletrônica do homem autor de agressão está disponível em todo o Estado. “Hoje, uma grande ferramenta de proteção às mulheres é a possibilidade de conectar um aparelho à tornozeleira eletrônica usada pelo agressor. Se ele estiver num raio que o juiz limitou, o alarme é acionado e ela consegue sair do local ou buscar ajuda”, explicou a delegada.

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Ela falou também que o grande e principal desafio da polícia ao lidar com denúncias de violência doméstica é a conscientização da vítima sobre o risco iminente de feminicídio. De acordo com a delegada Judá Maali, muitas mulheres, inseridas no ciclo da violência, não conseguem perceber o perigo e acabam retornando para o relacionamento abusivo.

“A gente pede a prisão, encaminha para a Casa de Amparo, mas muitas vezes, quando vamos prender o agressor, a mulher está com ele e até nos pede para não fazer nosso trabalho”, revelou a delegada. Ela enfatiza que, para romper esse ciclo, são necessárias ações de apoio contínuo, como o atendimento psicológico.

O papel dos educadores na identificação da violência

Para a delegada, a formação de professores é fundamental para identificar sinais de violência em alunas. Ela explica que educadores devem estar atentos a mudanças de comportamento, como isolamento, manchas no corpo e um controle excessivo por parte do parceiro. “Um homem que controla a vida da mulher, que a isola de amigos, que a busca na escola todos os dias e mantém contato o tempo todo pelo celular pode ser um potencial feminicida”, alerta.

Para a especialista, o que muitas vezes é romantizado como ciúmes e cuidado, na verdade, são condutas que indicam um risco grave. A conscientização, neste caso, pode salvar vidas. Ela também afirmou que é necessário ensinar e estimular os meninos ao cuidado e proteção em relação às mulheres.

Ao final da palestra, a coordenadora da Cemulher-MT, desembargadora Maria Erotides Kneip, afirmou que Mato Grosso lidera os números de feminicídio e demais violências de gênero porque as mulheres não pedem ajuda. “Elas vão vivendo, sofrendo caladas e acham que a fase ruim vai passar. Não passa”.

Professor vê machismo crescente entre jovens

Romário Gomes da Silva, professor de História na Escola Estadual Aureolina Estácio Ribeiro, em Cuiabá, destacou a importância de levar o debate sobre violência de gênero para as salas de aula, especialmente num contexto onde o machismo “tem se tornado mais comum entre a juventude”.

De acordo com Romário, o machismo tem crescido entre os jovens do ensino médio, principalmente entre os alunos do primeiro e segundo anos, de forma mais acentuada no terceiro ano. Ele descreve o fenômeno como uma “banalização da maldade”, onde os jovens enxergam a submissão feminina como algo normal. “O jovem trata a mulher como inferior e a violência como algo banal, como algo que não fosse impactante para a vida daquela mulher”, afirma o professor.

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Ele ressalta que essa percepção dificulta o trabalho em sala de aula, pois, quando confrontados, os alunos respondem com “isso é uma piada” ou “isso é normal, professor”.

A Educação como solução

Para o professor, a educação é a chave para reverter esse cenário. Ele acredita que a conscientização precisa começar cedo, no ensino fundamental, para que os jovens possam crescer em uma sociedade diferente.

Romário já utiliza sua disciplina, a História, para abordar o tema. Ao lecionar sobre a Primeira República, ele usa a série “Gabriela” como ponto de partida para discutir a violência doméstica. A partir do comportamento do personagem Coronel Jesuíno, ele questiona os alunos sobre o tratamento que as mulheres recebem na sociedade atual e os direitos que elas têm.

Apesar da tristeza que o assunto lhe causa, Romário, que vivenciou a violência doméstica com sua própria mãe, não desiste de levar a discussão para a sala de aula, pois acredita que a educação pode plantar uma “semente” para o futuro.

Educação como ferramenta de transformação social

O projeto, coordenado pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), tem como objetivo capacitar os profissionais da educação para que a cultura de prevenção à violência se espalhe pelas escolas e chegue até as famílias e comunidades. A iniciativa também está alinhada à Lei Federal nº 14.164/2021, que institui a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher, e faz parte do Plano de Gestão 2025-2026 do TJMT.

Além das capacitações, o projeto prevê palestras nas escolas e um Concurso Escolar com categorias como dissertação, poesia, música e produção audiovisual. Essas ações buscam sensibilizar estudantes e comunidades para a importância do respeito e da valorização da mulher, construindo uma sociedade mais justa e igualitária.

O TJMT tem promovido ações semelhantes em parceria com prefeituras em outras cidades, como Várzea Grande, Sinop e Rondonópolis.

Autor: Marcia Marafon

Fotografo: Lucas Figueiredo

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

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Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

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Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

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Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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