Tribunal de Justiça de MT

Seminário fortalece integração do sistema de justiça na prevenção ao feminicídio

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A integração entre instituições e o uso de ferramentas técnicas para prevenção da violência contra a mulher estiveram no centro dos debates do “Seminário Mato-grossense de Prevenção ao Feminicídio: Gestão de Risco e Decisão Fundamentada”, promovido pelo Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher do Governo de Mato Grosso, realizado nesta terça-feira (14), em Cuiabá. O evento reuniu integrantes do sistema de justiça, da segurança pública e de outros órgãos da rede de proteção para discutir estratégias de prevenção ao feminicídio, com ênfase no uso padronizado do Formulário Nacional de Avaliação de Risco (Fonar) e no papel da mídia como agente de proteção.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) foi representado pela desembargadora e presidente da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar no âmbito do Poder Judiciário do Estado (Cemulher-MT), Maria Erotides Kneip. Ela ressaltou que o feminicídio é um crime, em muitos casos, previsível e anunciado, o que impõe às instituições o dever de agir de forma preventiva.

“Este encontro tem valor estratégico por reunir atores do sistema de justiça para refletir sobre números, causas, enfrentamento e prevenção. O combate à violência contra a mulher exige ação contínua e coordenada. Por isso é fundamental o avanço da interiorização da rede de proteção em Mato Grosso, que já está presente em 110 dos 142 municípios do Estado, equivalente a 75%. Porém, a meta é ampliar ainda mais essa cobertura nos próximos meses. Nós não aceitamos ficar inertes diante do anúncio de feminicídios”, afirmou, ao destacar o esforço conjunto de magistrados, promotores, defensores, delegados e demais profissionais que atuam em todo o território mato-grossense.

O juiz Marcos Terêncio Agostinho Pires, titular da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Cuiabá, também destacou a relevância do evento. Para ele, a prevenção ao feminicídio e à violência doméstica não pode ser conduzida de forma isolada por uma única instituição.

“É fundamental o enfrentamento em rede por todas as instituições e pela sociedade. Esse tipo de violência ocorre na maioria das vezes dentro de casa e longe do olhar público, o que exige preparo técnico e sensibilidade para a correta análise de risco”, comentou.

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O magistrado explicou ainda que a qualificação dos profissionais pode contribuir para tornar mais efetiva a resposta do Estado. Segundo ele, o grande desafio está em identificar, entre milhares de medidas protetivas em vigor, os casos que exigem atenção prioritária. “Hoje temos aproximadamente 4 mil medidas protetivas vigentes em Cuiabá. Não temos 4 mil policiais para fazer patrulhamento ostensivo diário. Por isso, a análise de risco é essencial para concentrar os esforços onde realmente há necessidade naquele momento”, ressaltou.

A secretária-chefe do Gabinete de Enfrentamento à Violência de Gênero Contra a Mulher, delegada Mariell Antonini, que ministrou a palestra “Feminicídio: Relatório das mortes violentas de mulheres e meninas por razões de gênero – 2025”, reforçou que o combate à violência contra a mulher exige corresponsabilidade entre Estado e sociedade. Segundo ela, trata-se de um problema estrutural e cultural, que demanda integração entre Executivo, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, forças de segurança, educação, assistência social e imprensa. “Estamos lidando com um problema complexo, que exige compartilhamento de responsabilidades”, pontuou.

Mariell explicou que o seminário foi concebido justamente para fortalecer essa integração e aprimorar a capacidade técnica dos profissionais que atuam na rede de proteção. Ela destacou que a proposta foi aprofundar o debate sobre avaliação de risco, classificação dos casos e medidas cabíveis conforme a gravidade da situação. A delegada também ressaltou a importância da mídia no enfrentamento à violência de gênero, especialmente quando a cobertura contribui para a responsabilização criminal e para a mudança de comportamento social. Além disso, ela lembrou que o Estado vem ampliando a estrutura de atendimento especializado, com novas delegacias da mulher e núcleos 24 horas previstos para diferentes municípios.

A promotora de Justiça Claire Vogel Dutra afirmou que a violência doméstica e familiar contra a mulher não pode ser tratada como uma criminalidade comum. Para ela, a resposta estatal não pode se limitar à lógica penal tradicional, baseada apenas em repressão e aumento de penas. “A gente precisa de uma atuação integrada de diversas instituições”, destacou. Claire defendeu o fortalecimento de políticas públicas articuladas envolvendo, além do sistema de justiça, setores como saúde, educação e assistência social.

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Na avaliação da promotora, a capacitação da rede de atendimento e enfrentamento é fundamental para melhorar a identificação de situações mais graves e definir prioridades com base em critérios técnicos. Ela pontuou que, diante do grande volume de ocorrências e processos, não é possível agir sem instrumentos que permitam distinguir a urgência dentro da própria urgência. Por isso, considerou que a gestão e a análise de risco são ferramentas indispensáveis para a atuação mais assertiva da rede.

Representando o Governo do Estado, o chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho, destacou que o combate à violência contra a mulher é uma das prioridades da gestão estadual. Ele observou que a criação do Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, instalado no Palácio Paiaguás, sede do governo, demonstra o compromisso institucional com a pauta e facilita a articulação direta com o governador, a Casa Civil e demais órgãos do Estado. Para ele, o seminário marca um importante passo na busca por respostas mais efetivas diante de um problema que desafia todo o país.

“Nós temos que ter um trabalho de conscientização da sociedade mato-grossense para que a gente diminua esses índices que nos envergonham”, afirmou.

A programação do seminário incluiu palestras sobre o panorama dos feminicídios em Mato Grosso, a finalidade e aplicação do Formulário Nacional de Avaliação de Risco, a classificação e gestão do risco, além do papel da mídia como agente de proteção. Entre os palestrantes convidados estiveram a juíza auxiliar da Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Luciana Lopes Rocha, e o delegado Marcelo Zago, pesquisador do tema mídia e violência de gênero.

Autor: Ana Assumpção

Fotografo: Josi Dias

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Plano deve pagar congelamento de óvulos para evitar infertilidade

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A imagem apresenta uma balança dourada, símbolo da justiça, centralizada em um fundo branco. À direita da base da balança, as letras "TJMT" em dourado. No lado direito, a frase "2ª INSTÂNCIA" em azul e "DECISÃO DO DIA" em azul escuro e negrito. No lado esquerdo, três linhas horizontais azul-marinho.Resumo:

  • Plano de saúde deverá custear congelamento de óvulos para evitar infertilidade causada por tratamento médico, mas não pagará despesas futuras.

  • A decisão diferenciou prevenção de infertilidade de reprodução assistida.

Uma operadora de plano de saúde deverá custear parte do procedimento de congelamento de óvulos de uma paciente diagnosticada com endometriose profunda, diante do risco de infertilidade decorrente de tratamento cirúrgico. A decisão, porém, limitou a cobertura apenas às etapas iniciais do procedimento, excluindo despesas futuras.

O caso foi analisado pela Quarta Câmara de Direito Privado, sob relatoria do desembargador Rubens de Oliveira Santos Filho. A paciente relatou que precisava passar por cirurgia para tratar a doença e que, por orientação médica, deveria realizar a criopreservação de óvulos como forma de preservar a fertilidade.

A operadora negou o custeio sob o argumento de que o procedimento estaria relacionado à reprodução assistida, o que não é de cobertura obrigatória. No entanto, ao julgar o recurso, o relator destacou que a situação não se confunde com fertilização in vitro, mas sim com uma medida preventiva para evitar um dano decorrente do próprio tratamento de saúde.

Segundo o entendimento adotado, quando o plano cobre a doença, também deve arcar com medidas necessárias para evitar efeitos colaterais previsíveis, como a infertilidade. O magistrado ressaltou que a criopreservação, nesse contexto, tem caráter preventivo e está ligada diretamente ao tratamento médico indicado.

Por outro lado, a decisão estabeleceu limites para essa obrigação. Ficou definido que a operadora deve custear apenas as fases iniciais do procedimento, como a estimulação ovariana, a coleta e o congelamento dos óvulos.

Já os custos posteriores, como taxas de armazenamento do material genético e eventual utilização futura em fertilização assistida, não deverão ser arcados pelo plano, por se tratarem de medidas relacionadas ao planejamento familiar.

Processo nº 1004443-86.2026.8.11.0000

Autor: Flávia Borges

Fotografo:

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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