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Meninas STEM: a tecnologia como esperança em Petrópolis

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A ciência brasileira, muitas vezes vista como um campo distante e impenetrável, ganha novos contornos e rostos nos laboratórios de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. No Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o que se vê não são apenas processadores de alto desempenho, mas uma mudança profunda na trajetória de jovens estudantes. O projeto Meninas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) atua como um motor de transformação, focado em quebrar o ciclo de exclusão que historicamente afastou mulheres das carreiras de exatas. 

O projeto não se resume a um curso de computação. É, na verdade, uma estratégia de inclusão que ataca a base do problema: o desinteresse ou a insegurança que muitas vezes são impostos a meninas ainda no Ensino Médio. Ao oferecer ferramentas técnicas e, principalmente, referências femininas reais, o Meninas STEM prova que o lugar dessas jovens é onde elas decidirem estar — inclusive no comando de complexos sistemas de tecnologia. 

O despertar para o universo tecnológico 

Muitas vezes, o talento está lá, mas falta o canal para que ele se manifeste. Para Sara Tavares e Ana Mayworm, hoje alunas do Ensino Médio no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), a ciência entrou na vida de forma quase casual, por meio de um incentivo na escola. Um professor de física percebeu o potencial da dupla e sugeriu o projeto como uma “oportunidade incrível”. Naquele momento, nenhuma delas imaginava que o convite mudaria a carreira delas. 

Sara, que já tinha planos traçados para áreas como administração ou publicidade, viu sua perspectiva girar 180 graus após o contato com a lógica computacional. Ela pensava em fazer administração ou publicidade, mas agora tem muito interesse em programação. Essa mudança de rota não é apenas individual, ela reflete a importância de políticas públicas que apresentam o universo tecnológico para jovens que, por falta de exemplo, sequer consideravam essa possibilidade. 

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Para Ana Mayworm, a experiência no LNCC foi o que humanizou a tecnologia. Ela descobriu que programar não é uma atividade isolada, mas uma forma de resolver problemas reais da sociedade. “Para mim, abriu um leque de possibilidades sobre pesquisa, principalmente as multidisciplinares. Descobri que é possível ajudar pessoas na saúde com tecnologia e programação”, reflete. Essa visão multidisciplinar é um dos pontos fortes do projeto, mostrando que a exatidão dos números pode ser usada para salvar vidas e melhorar a saúde pública. 

O diferencial do Meninas STEM é que ele retira a aluna da posição de espectadora. A metodologia é ativa: as estudantes precisam criar. Além das aulas teóricas de programação, a rotina é composta por atividades no clube de ciências e visitas técnicas que mostram o dia a dia de um centro de pesquisa de ponta. Essa imersão serve para desmistificar a ideia de que a ciência é algo mágico ou impossível de alcançar. 

O desafio final de cada ciclo é a prova de fogo: o desenvolvimento de um jogo digital. O processo exige não só código, mas criatividade, narrativa e resiliência para lidar com os erros que surgem no caminho. “O nosso jogo foi desenvolvido com muita criatividade e apoio das professoras. Nós amamos o projeto”, conta Ana. O nível de entrega foi tão alto que os jogos criados pela turma de 2025 foram disponibilizados no site oficial do LNCC. Ver o próprio trabalho publicado em um portal institucional de ciência é o selo definitivo de que elas agora fazem parte desse ecossistema.  

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O fator social: equidade e perspectiva de futuro 

Ensinar tecnologia em um país desigual como o Brasil exige um olhar atento às vulnerabilidades. Pós-doutora do LNCC e uma das professoras do projeto, Andressa Alves Machado entende que o papel da educação vai muito além da técnica. “A gente enfrentou vários desafios, né? Nada é fácil”, admite. Mas ela destaca que o ganho social é o que realmente importa. “O impacto do projeto para meninas em vulnerabilidade social é imenso. Algumas delas não tinham muita perspectiva, a gente vê como elas chegaram e como foram incentivadas a ver que são capazes.” 

Para Andressa, o projeto é uma ferramenta de reconstrução de autoestima. Ela relata que é comum receber alunas profundamente inseguras, que duvidam da própria inteligência por questões socioeconômicas ou de gênero. “Entraram meninas muito inseguras e saíram meninas totalmente seguras, e com objetivos claros de carreira”, observa. O Meninas STEM dá a essas jovens o que o mercado muitas vezes nega: o protagonismo. “É importante que elas entendam que o local delas é onde elas quiserem, que tenham incentivo para ter mais objetivos e a clareza do potencial delas.” 

A meta pedagógica é ambiciosa: promover a equidade em Petrópolis levando a ciência para onde ela costuma ser negada. Como diz a professora Andressa, o aprendizado é mútuo. Enquanto as meninas descobrem as linguagens de programação, as educadoras renovam seu compromisso com a democratização do conhecimento. “A gente ensina, mas a gente aprende muito também”, conclui. 

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Cerâmica ancestral renasce pelas mãos de mulheres da Amazônia

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Uma história viva. É assim que a coordenadora do Grupo de Agricultores Orgânicos da Missão, Bernardete Araújo, descreve a japuna, um tipo de forno de origem indígena. Hoje, essa e tantas outras peças há tempos esquecidas voltam a ganhar vida pelas mãos de mulheres agricultoras e ceramistas da comunidade que fica em Tefé (AM), graças ao projeto Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões.  

“A japuna, para mim, significa a história viva, um museu vivo. Eu via, desde pequena, minha mãe produzindo e usando essa peça para torrar farinha, café, cacau, milho e castanha. Estamos resgatando o conhecimento tradicional das nossas mães, avós e bisavós”, conta a coordenadora. Outro ponto positivo de voltar a adotar a técnica ancestral é a possibilidade de gerar renda com a venda de vasos, fogareiros, fruteiras e panelas. 

A iniciativa reuniu as mulheres da associação Clube de Mães para atuar em todas as etapas do processo, chamada pelos arqueólogos de cadeia operatória das japuna. Esse processo vai desde a coleta do barro na própria comunidade, passando pela modelagem e pela queima natural do material, até a finalização das peças, práticas aprendidas com suas antepassadas. 

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O projeto conta com três eixos de pesquisa: o primeiro com base em escavações na região; o segundo, de caráter etno-histórico, fundamentado em relatos de livros históricos e na memória das mulheres; e o terceiro, etnográfico, baseado na observação das técnicas das ceramistas da comunidade. A iniciativa é uma parceria entre o grupo e o Instituto Mamirauá, organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

Segundo a arqueóloga do Mamirauá e uma liderança da iniciativa, Geórgea Holanda, há anos a produção das japuna estava adormecida, com risco de ser extinta. “Mas elas estavam presentes na mente das ceramistas. Então, por meio do projeto, foi possível colocar em prática esse conhecimento. Que foi repassado de geração para geração pelas suas antepassadas”, conta.  

“Voltar a fazer as japuna é como o resgate do conhecimento tradicional dos nossos pais. A gente tem que manter viva essa tradição, esse conhecimento e a continuidade dessa história da nossa ancestralidade”, diz Bernardete. 

De acordo com Geórgea, a relação entre o instituto e a comunidade acontece de forma participativa, sempre respeitando as decisões das pessoas da comunidade. “Esse trabalho só foi possível porque elas aceitaram e passaram esse rico conhecimento para nós”, finaliza a arqueóloga. 

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Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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