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Dez dias após bloqueio europeu, valor da arroba recua nas principais regiões produtoras

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Dez dias após a União Europeia suspender a entrada da carne bovina brasileira, os primeiros reflexos começam a aparecer no mercado pecuário. A restrição fechou um destino de alto valor agregado justamente quando a China também reduziu suas compras, combinação que alongou as escalas dos frigoríficos e aumentou a pressão sobre a arroba em algumas das principais regiões produtoras.

Nos quatro primeiros dias úteis de setembro, o Brasil exportou 40,58 mil toneladas de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada. A média diária caiu 29,1% em relação ao mesmo período de 2025. A receita somou aproximadamente R$ 1,28 bilhão, com retração de 22,5% na média diária.

Os números ainda não permitem atribuir a redução exclusivamente à União Europeia. A restrição entrou em vigor em 3 de setembro e coincide com a desaceleração das compras chinesas. Entretanto, o fechamento do mercado europeu retira uma alternativa importante de comercialização, especialmente para cortes de maior valor agregado.

A União Europeia tem participação menor no volume total exportado pelo Brasil, mas costuma remunerar melhor produtos específicos. Em agosto, antes da entrada em vigor da suspensão, o bloco recebeu 23,4 mil toneladas de carne bovina brasileira, aumento de 108,6% na comparação anual. A receita ficou próxima de R$ 1,04 bilhão, indicando uma antecipação dos embarques diante da proximidade do bloqueio.

A perda desse destino não afeta todos os pecuaristas da mesma forma. O impacto tende a ser maior nas propriedades que fornecem animais para frigoríficos habilitados a exportar à Europa, especialmente o chamado boi Europa, produzido dentro de protocolos de rastreabilidade, controle sanitário e manejo exigidos pelo bloco.

Sem a possibilidade de embarcar essa carne, as indústrias precisam procurar compradores em outros países ou direcionar parte dos cortes ao mercado interno. Essa substituição não é automática. Cada mercado exige padrões, cortes, embalagens e certificações diferentes, além de pagar preços distintos.

Na prática, o frigorífico pode encontrar maior dificuldade para manter os adicionais pagos por animais enquadrados nos protocolos europeus. Caso a suspensão se prolongue, a redução desses prêmios poderá chegar ao produtor, diminuindo a vantagem econômica de sistemas que exigem mais controle e documentação.

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A pressão já aparece parcialmente no mercado físico. Em São Paulo, a arroba do boi gordo encerrou a semana a R$ 340, queda de 1,45%. Em Goiânia, recuou para R$ 330, enquanto em Dourados, Mato Grosso do Sul, caiu 2,9% e terminou cotada a R$ 335.

Em Cuiabá, a referência permaneceu em R$ 330 por arroba. Uberaba registrou estabilidade em R$ 335 e Vilhena manteve a cotação de R$ 333. As diferenças mostram que a disponibilidade regional de animais e a situação das escalas de abate continuam determinantes na formação dos preços.

Os frigoríficos de maior porte entraram na semana com animais contratados para vários dias, reduzindo a necessidade de disputar novos lotes. O fechamento temporário de um destino externo fortalece essa posição, porque diminui a urgência de compra e amplia a possibilidade de pressão sobre as ofertas apresentadas aos pecuaristas.

A China representa um risco ainda maior pelo volume envolvido. O país respondeu por quase metade da carne bovina exportada pelo Brasil em 2025. A forte redução das compras chinesas durante agosto, associada ao preenchimento acelerado da cota anual destinada ao produto brasileiro, retirou sustentação do mercado no mesmo momento em que a porta europeia foi fechada.

Por isso, a movimentação recente não pode ser explicada somente pela decisão da União Europeia. O produtor enfrenta, na realidade, uma sobreposição de problemas: menor presença do maior comprador em volume, interrupção de um destino que remunera cortes nobres e escalas de abate confortáveis nas grandes indústrias.

Os contratos futuros do boi gordo seguiram valorizados durante a semana, impulsionados por expectativas de uma eventual retomada antecipada das compras chinesas. Essa alta, porém, ainda não chegou ao mercado físico. A utilização de rotas marítimas mais longas aumentaria o custo dos embarques e torna incerta a concretização dessa alternativa.

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No atacado brasileiro, os efeitos também não foram uniformes. O quarto traseiro subiu 1,92%, para R$ 26,50 por quilo, favorecido pela entrada dos salários e pela reposição de estoques. O quarto dianteiro caiu 5%, para R$ 19 por quilo. O comportamento mostra que o redirecionamento das exportações pode pressionar determinados cortes sem provocar necessariamente uma queda generalizada no preço da carne.

A restrição europeia não foi motivada pela identificação de carne contaminada. O impasse envolve as garantias exigidas pelo bloco sobre o controle do uso de medicamentos antimicrobianos e a rastreabilidade dos animais. Para os bovinos, a solução é mais complexa porque o acompanhamento precisa abranger todo o ciclo de vida, que pode durar de dois a três anos.

Mesmo que seja encontrada uma saída provisória para frigoríficos e propriedades já habilitados, a retomada plena pode exigir auditorias, adequações documentais e novos protocolos. Além da perda temporária das vendas, a cadeia poderá enfrentar aumento de custos com identificação dos animais, registros sanitários, segregação de lotes e comprovação da origem.

Para o pecuarista, o principal risco é a continuidade desse quadro. Caso Europa e China permaneçam comprando menos, os frigoríficos poderão alongar ainda mais as escalas, reduzir os preços oferecidos e diminuir bonificações. Uma retomada dos embarques, por outro lado, devolveria competição pelas boiadas e poderia aproximar o mercado físico das cotações mais firmes observadas nos contratos futuros.

Até que isso aconteça, a recomendação é acompanhar não apenas a cotação da arroba, mas também as escalas dos frigoríficos, as bonificações destinadas ao boi Europa e o comportamento das compras chinesas. O fechamento europeu é relevante pelo valor da carne que deixou de ser embarcada, mas será a duração da restrição, somada ao ritmo da China, que determinará o tamanho do prejuízo no campo.

Fonte: Pensar Agro

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Renegociação rural ainda esbarra em laudos e exigências bancárias

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Quase metade do prazo concedido para a contratação das linhas especiais de renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores relatam dificuldades para acessar o mecanismo. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, estabeleceu período de 120 dias para as operações, que termina em meados de novembro.

A demora preocupa porque a renegociação foi criada para recuperar a capacidade financeira de produtores atingidos por perdas climáticas e pela queda dos preços agrícolas. Sem resolver o passivo, parte deles pode enfrentar dificuldades para comprar insumos, contratar crédito e iniciar uma nova safra.

Em carta aberta divulgada na sexta-feira, 11, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirmou que a medida ainda não chega ao campo na velocidade e na escala necessárias. Os maiores obstáculos estariam entre pequenos agricultores e produtores que já não possuem recursos para atender às novas exigências apresentadas durante a análise bancária.

Entre os entraves estão a necessidade de laudos agronômicos para comprovar perdas ocorridas em safras anteriores, os custos da documentação, a reavaliação das garantias e a cobrança de uma entrada para a contratação da nova operação. Para quem já está sem capital de giro, antecipar qualquer valor pode tornar a renegociação inviável.

A medida provisória exige que o produtor tenha sofrido perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo assinado por profissional habilitado.

Essa exigência busca evitar fraudes, mas se tornou um dos principais pontos de dificuldade. Em propriedades pequenas, o custo individual de contratar um profissional e reconstruir informações de safras passadas pode ser elevado em relação ao valor da dívida.

A FPA propõe permitir laudos coletivos para agricultores familiares e pequenos produtores, quando tecnicamente possível. Também defende a dispensa de um novo documento para operações que já foram renegociadas e continuam com saldo comprometido, uma vez que as perdas teriam sido verificadas anteriormente.

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As linhas especiais permitem renegociar operações de custeio, comercialização, industrialização e determinadas parcelas de investimentos. Também podem alcançar Cédulas de Produto Rural (CPRs) financeiras emitidas para quitar ou amortizar compromissos anteriores, desde que atendam às condições estabelecidas.

Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.

As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais beneficiários. O pagamento pode ser feito em até oito anos, com a primeira parcela do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam cobrados durante a carência.

Produtores que tenham perdido pelo menos 40% da renda em três ou mais safras podem acessar condições ampliadas. Nesse grupo, os limites chegam a R$ 500 mil no Pronaf, R$ 2,5 milhões no Pronamp e R$ 8 milhões para os demais, com prazo de até dez anos e taxas menores.

A estimativa apresentada durante a elaboração da medida era de que mais de R$ 100 bilhões em dívidas poderiam ser renegociados. O volume efetivamente contratado, entretanto, dependerá da capacidade dos produtores de cumprir as exigências e da disposição das instituições financeiras para aprovar as operações.

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Embora a medida provisória determine que a renegociação não impeça a contratação de novo crédito rural nem leve o produtor a cadastros restritivos, os bancos continuam responsáveis pela avaliação do risco. A própria norma permite que cada instituição aplique suas políticas internas e reavalie as garantias.

Essa combinação ajuda a explicar o receio existente no campo. A renegociação pode não representar um impedimento formal, mas a situação financeira do produtor continuará sendo analisada antes da concessão de recursos para a nova safra. Na prática, uma classificação de risco desfavorável pode restringir o acesso ou encarecer as condições oferecidas.

A FPA pede que o texto seja ajustado para impedir que a adesão ao programa prejudique novos financiamentos. Também cobra a flexibilização ou retirada da entrada quando ficar comprovado que o produtor não possui capacidade de pagamento imediato.

Outro ponto é a preservação das regras próprias dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. A preocupação é evitar que exigências incompatíveis com esses fundos reduzam o alcance da renegociação justamente nas regiões mais dependentes dessas fontes de recursos.

A medida provisória está em vigor, mas ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para se tornar permanente. A Frente Parlamentar da Agropecuária cobra do relator, deputado Paulo Pimenta, mudanças que simplifiquem a comprovação das perdas e reduzam as barreiras operacionais.

O tempo é decisivo. Uma renegociação aprovada depois do plantio pode reorganizar a dívida, mas já não resolve a falta de recursos para implantar a lavoura. Para o produtor, o resultado da medida será determinado não pelo volume anunciado, mas pelo dinheiro efetivamente liberado antes de vencer a janela da próxima safra.

Fonte: Pensar Agro

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