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Evento anual debate enfrentamento à violência doméstica e familiar no Judiciário de Mato Grosso

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Discutir os mecanismos de prevenção e enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e a importância da criação do Núcleo de Atendimento “Espaço Thays Machado” no acolhimento a todas as mulheres que atuam no Poder Judiciário de Mato Grosso. Com esse objetivo foi realizado, na manhã desta segunda-feira (08 de julho), no auditório “Gervásio Leite”, o evento anual “Eu Digo Basta! – Poder Judiciário contra a Violência Doméstica e Familiar”, promovido pela Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (Cemulher-MT).
 
O evento contou com a presença de magistrados(as), servidores(as) e colaboradores(as) que integram as equipes multidisciplinares exclusivas das Varas Especializadas de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, assistentes sociais e psicólogos efetivos e credenciados que atuam no Judiciário mato-grossense, na capital e no interior do Estado. A iniciativa também foi transmitida por meio da plataforma Teams para os(as) inscritos(as) no evento.
 
A desembargadora Maria Aparecida Ribeiro, coordenadora da Cemulher-MT, enfatizou a importância dos espaços dedicados ao acolhimento das vítimas de violência doméstica no âmbito do Poder Judiciário.
 
“Estamos defendendo a vida. São espaços criados para acolher as vítimas que estão sofrendo violência e, muitas vezes, se mantêm caladas”, enalteceu a desembargadora ao destacar o compromisso do TJMT em proteger e apoiar as mulheres que sofrem violência.
 
A magistrada ressaltou que esses locais são essenciais para proporcionar um ambiente seguro e de apoio para aquelas que enfrentam situações de violência, muitas vezes sem ter onde buscar ajuda.
 
Além disso, a desembargadora sublinhou a dedicação do Poder Judiciário em ir além da mera análise e decisão de processos judiciais. “Não estamos aqui no Judiciário apenas sentados para decidir processos, mas estamos preocupados com o bem-estar e a vida de cada uma das magistradas, servidoras e colaboradoras”, completou.
 
A criação do Espaço Thays Machado, segunda Maria Aparecida Ribeiro, é um exemplo desse compromisso, reforçando a importância de uma abordagem humanizada, respeitosa e acolhedora nos casos de violência doméstica.
 
Representando o Ministério Público Estadual, a promotora de Justiça, Gileade Pereira Souza Maia, elogiou a iniciativa e a trajetória da desembargadora à frente da Cemulher-MT. “Não é fácil atuar nessa área e a desembargadora tem um trabalho de muita qualidade e continuidade”.
 
Evidenciando as ações do TJMT, tidas como exemplares para as demais instituições do Estado e do Brasil, a promotora lembrou que a violência doméstica e familiar é democrática, estando presente em todas as classes sociais. Conforme disse a promotora, um dos diferenciais no tratamento a essa situação é a forma como as empresas e instituições atuam para auxiliar no enfrentamento desse cenário, inclusive, fornecendo orientações e esclarecimentos sobre os caminhos possíveis. “O estímulo afetivo e o atendimento de respeito à vítima são essenciais e já sabemos que isso faz a diferença para essa mulher ver uma oportunidade de mudança e também de justiça”, apontou. “Para o senso comum, pode parecer que a vítima de violência, por estar dentro do Sistema de Justiça, seja fácil tomar decisões. Mas não é bem assim. A mulher está fragilizada e, na maioria das vezes, está insegura, precisando de apoio”, acrescentou.
 
Núcleo Thays Machado – A primeira palestra, intitulada “A importância do Núcleo de Atendimento – Espaço Thays Machado para as Magistradas e Servidoras Vítimas de Violência Doméstica e Familiar que atuam no Poder Judiciário”, foi ministrada pela juíza da 1° Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar Contra Mulher de Cuiabá, Hanae Yamamura de Oliveira, que atua como juíza colaboradora da Cemulher-MT. Na oportunidade, a magistrada apresentou o contexto de Mato Grosso em meio à temática Estado que registra a maior taxa de feminicídio por número de habitantes do Brasil, segundo levantamento divulgado em março de 2024 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Nossa taxa é quase o dobro do índice nacional”, alertou.
 
A juíza, então, resgatou a origem do Núcleo Atendimento “Thays Machado”, o segundo espaço do Judiciário brasileiro criado exclusivamente para acolhimento às magistradas, servidoras e colaboradoras em situação de violência, em consonância ao protocolo integrado previsto na Recomendação n°102/2021 do Conselho NacionJ. “Dentro dessa casa que é o nosso ambiente de trabalho também precisamos dessa proteção. É entender que todas estamos expostas a situações de violência, inclusive aquelas que atuam no sistema de Justiça”, lembrou. “Somente no primeiro semestre de 2024, fizemos 96 atendimentos a mulheres da capital e das Comarcas do Interior”, completou.
 
Também explicou sobre o funcionamento dessa estrutura, que é segura, acolhedora, respeitosa e sigilosa, e dos serviços e atendimentos jurídico, psicológico e psiquiátrico oferecidos pela equipe multidisciplinar do Núcleo, como o espaço atua integrado a outros órgãos de Proteção da Mulher assim como os canais de comunicação e ações preventivas e orientativas já realizadas por essa unidade. Cerca de 450 pessoas foram contempladas com as campanhas internas de sensibilização, desde magistradas a servidoras efetivas dos gabinetes e secretarias às colaboradoras e estagiárias das empresas terceirizadas.
 
No período da manhã ocorreram as palestras: “O Papel da Delegacia em Situação de Violência Doméstica e Familiar”, com a delegada de polícia, Judá Maali Pinheiro Marcondes, titular da Delegacia Especializada em Defesa da Mulher de Cuiabá. Posteriormente houve a palestra “Enfrentamento da Violência Doméstica que permeia Magistradas e Servidoras do Poder Judiciário” com a juíza Naiara Blancher, titular do Juizado de Violência Doméstica contra a mulher da de Florianópolis (SC) e coordenadora técnica da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica (Cevid) do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) e coordenadora do Programa Indira do TJSC.
 
Programação – A iniciativa ainda prevê capacitação de facilitadores até quarta-feira (10 de julho) por meio de palestras que tratarão sobre os “Desafios no Acolhimento e no Atendimento Humanizado”, ministrada pela promotora de Justiça de Defesa da Mulher de Natal (RN), Érica Verícia Canuto de Oliveira Veras; a experiência do “Cartório Inclusivo – Integral para Valorizar”, abordada pelo juiz-auxiliar da Corregedoria-Geral da Justiça (CGJ-MT), Eduardo Calmon de Almeida Cezar; o “Programa Reflexão e Sensibilização para Autores de Violência Doméstica e Familiar”, apresentado pela secretária da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (Cevid/TJSC), Michele de Souza Gomes Hugill; e a importância da “Comunicação Assertiva”, exposta pelo juiz titular do 3° Juizado Cível de Cuiabá, Jeverson Luiz Quintiery.
 
 

Talita Ormond 

Coordenadoria de Comunicação da Presidência do TJMT 

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Lei Maria da Penha: magistradas do TJMT destacam avanços, desafios e a luta para salvar vidas

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Close de uma mão com um X vermelho desenhado na palma, símbolo de combate à violência contra a mulher. Ao fundo, outra mão e manga de blusa cinzaA cada mulher que rompe o silêncio, uma história de coragem se sobrepõe ao medo. Há 20 anos, a Lei Maria da Penha passou a oferecer instrumentos concretos para proteger vítimas de violência doméstica e familiar, transformando a forma como o Brasil enfrenta um problema que, por muito tempo, permaneceu invisível dentro dos lares. Apesar dos avanços conquistados desde então, magistradas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) alertam que a mudança cultural ainda é o maior desafio para impedir que novas mulheres tenham suas vidas interrompidas pela violência.

A juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, que atuou por muitos anos na 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e atualmente responde pela 2ª Vara Especializada de Família e Sucessões, destaca que a legislação representou uma mudança histórica ao reconhecer diferentes formas de violência contra a mulher e criar mecanismos de proteção mais efetivos.

Segundo ela, além de ampliar o conceito de violência doméstica para incluir as agressões psicológica, sexual, patrimonial e moral, a Lei Maria da Penha instituiu medidas protetivas com análise prioritária, fortaleceu a punição aos agressores e criou varas especializadas com equipes multidisciplinares e atuação integrada com a rede de proteção.

A juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, titular da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra aMulher de cabelos longos e escuros veste jaqueta branca sobre blusa amarela com detalhes em azul, semblante alegre, olha para o lado. Ao fundo, vegetação desfocada Mulher de Cuiabá, também aponta a visibilidade dada ao problema como um dos maiores legados da legislação.

“Um dos principais avanços foi, principalmente, a visibilidade da violência doméstica contra a mulher. Hoje, nós conseguimos entender que não se trata de um problema no âmbito privado, como se entendia no passado, mas ela se tornou o centro do debate público. Hoje, nós discutimos não apenas a violência física, mas também a violência psicológica, moral, patrimonial, sexual e, mais recentemente, a violência vicária”, afirma.

Para a magistrada, dar visibilidade ao problema também permite produzir estatísticas e direcionar políticas públicas voltadas à prevenção e ao acolhimento das vítimas.

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Desafio permanente

Mesmo após duas décadas da Lei Maria da Penha, as duas magistradas concordam que a violência doméstica não será combatida apenas com a aplicação da legislação.

Mulher de cabelos longos e loiros, veste blazer preto rendado sobre blusa branca e colar dourado, sorri em ambiente iluminado. Ao fundo, plantas e estrutura de vidroPara a juíza Ana Graziela, trata-se de um problema social e estrutural. “A violência doméstica e familiar contra a mulher, para além de um problema judicial, é um problema social e estrutural. Esse é o maior desafio, a mudança social e estrutural do que gera e fomenta essa violência, não bastando a aplicação correta da lei para findar a violência e proteger as vítimas. Por isso se mostra tão importante a articulação em rede”, ressalta.

A magistrada observa ainda que nos últimos anos houve aumento das denúncias envolvendo violência psicológica e patrimonial, impulsionado pelo maior conhecimento sobre os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, o crescimento dos casos de feminicídio em Mato Grosso preocupa o Judiciário, que busca identificar fatores de risco para fortalecer as ações preventivas.

Na mesma linha, a juíza Tatyana lembra que o aumento das penas para feminicídio representa uma resposta importante do Estado, mas não é suficiente para mudar uma realidade construída ao longo de gerações. “Infelizmente, como a gente vê que isso não é um problema só legislativo, é um problema cultural, mesmo com a implantação da lei, no ano passado nós tivemos um aumento de feminicídio”, afirma.

Rede que protege

As magistradas destacam que nenhuma instituição consegue enfrentar a violência doméstica sozinha.

Ana Graziela defende investimentos permanentes em políticas públicas, fortalecimento das Delegacias Especializadas, ampliação da Patrulha Maria da Penha, atendimento psicológico e ações que promovam a autonomia financeira das mulheres. Para ela, a atuação integrada da rede é indispensável para garantir proteção efetiva às vítimas.

Tatyana reforça que o trabalho em rede também precisa olhar para o futuro, apostando na educação como instrumento de transformação social.

Ela cita iniciativas desenvolvidas pelo Poder Judiciário, como o projeto Lei Maria da Penha Vai às Escolas e o A Escola Ensina, a Mulher Agradece, que levam o debate sobre respeito, igualdade e prevenção da violência às salas de aula. “Por meio da educação, a gente pode transformar essa cultura de violência para uma cultura de respeito”, afirma.

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Romper o silêncio salva vidas

Outro ponto destacado pelas magistradas é a importância da denúncia e das medidas protetivas de urgência.

Segundo Tatyana, Mato Grosso concede medidas protetivas em poucas horas, um dos melhores desempenhos do país. Ela ressalta que esses mecanismos têm papel fundamental na preservação da vida das mulheres. “As medidas protetivas realmente salvam vidas. No ano passado foram quase 20 mil medidas protetivas deferidas dentro do nosso estado. Milhares de mulheres estão protegidas por medidas protetivas e é de forma célere”, destaca.

Às mulheres que ainda enfrentam situações de violência, Ana Graziela deixa uma mensagem de acolhimento. “Procurem ajuda, seja de familiares, amigos ou ajuda especializada, se informem sobre os seus direitos, sobre as medidas de proteção que podem lhes ser deferidas e sobre as ações judiciais e sociais que podem ser adotadas”, orienta, lembrando que o Tribunal de Justiça de Mato Grosso disponibiliza atendimento psicológico, social e diversas ações de apoio por meio do Centro Especializado de Atendimento às Vítimas (CEAV).

Tatyana faz um apelo semelhante e reforça que a denúncia deve vir acompanhada de uma rede de apoio. “O que eu diria para essa mulher é que ela procure primeiramente uma rede de apoio. Se for uma situação de emergência, realmente vá até uma delegacia especializada da mulher e ofereça essa denúncia. A partir desse momento em que ela procura essa ajuda inicial, serão feitos os encaminhamentos necessários para que ela possa realmente romper com esse ciclo da violência”, conclui.

Roberta Penha

Josi Dias e Rodrigo Moura

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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