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Discurso do ministro João Paulo Capobianco na Sessão 2: “Acelerando a Implementação para Preencher as Lacunas” do Diálogo Climático de Petersberg 2026

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Obrigado, Presidente.

Senhoras e senhores,

O recente relatório da IRENA reafirma algo que todos reconhecemos: acelerar a energia renovável, a eletrificação e o armazenamento de energia é essencial para fortalecer a segurança energética e reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis.

O Brasil apoia integralmente essa direção.

Atualmente, 94% da nossa matriz elétrica e 47% da nossa matriz energética provêm de fontes renováveis.

No entanto, a experiência nos mostra que a transição energética não terá sucesso se for concebida como um caminho único.

Permitam-me ilustrar isso com um exemplo concreto do setor de transportes.

O Brasil é um dos países que mais depende de sistemas de ônibus para a mobilidade urbana.

Isso torna a descarbonização dos ônibus uma prioridade, mas também um desafio econômico e social complexo.

Atualmente, um ônibus elétrico custa tipicamente entre US$ 300 mil e 500 mil, quase três vezes mais do que um ônibus híbrido que combina eletricidade e biocombustíveis sustentáveis.

Além disso, os ônibus elétricos exigem investimentos iniciais significativos em infraestrutura de recarga e adaptação da rede elétrica.

Se convertêssemos frotas inteiras de ônibus para sistemas totalmente elétricos em curto prazo, isso imporia custos muito altos aos orçamentos públicos, potencialmente retardando a implantação e limitando o acesso à mobilidade limpa.

Por outro lado, os ônibus híbridos movidos a biocombustíveis sustentáveis, como etanol de cana-de-açúcar ou biodiesel, podem proporcionar reduções substanciais de emissões imediatamente, a um custo significativamente menor e utilizando a infraestrutura existente.

Do ponto de vista da mitigação, isso se traduz em uma métrica muito importante: o custo por tonelada de CO₂ evitada.

Em muitos casos, as soluções híbridas com biocombustíveis podem alcançar reduções de emissões a um custo menor por tonelada em curto prazo, permitindo que os governos maximizem o impacto climático positivo com recursos públicos limitados.

Isso é particularmente relevante para os países em desenvolvimento, onde o espaço fiscal é restrito e as necessidades de investimento são altas em diversos setores.

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Enxergamos isso não como uma escolha entre uma opção e outra, mas como um caminho complementar.

A eletrificação continuará a se expandir – e deve se expandir.  Mas, a curto prazo, soluções economicamente viáveis ​​e escaláveis ​​hoje podem desempenhar um papel crucial na aceleração da redução das emissões.

Colegas,

Isso me leva a um ponto final: financiamento.

Se quisermos acelerar a transição globalmente, as instituições financeiras internacionais e os fundos climáticos devem apoiar uma gama mais ampla de soluções de mitigação, incluindo aquelas que geram resultados imediatos em diferentes contextos nacionais.

Isso inclui:

  • ⁠ampliar o financiamento concessional para a renovação de frotas;

  • ⁠apoiar a infraestrutura onde for necessário; e

  • reconhecer o papel dos biocombustíveis sustentáveis ​​e das tecnologias híbridas a curto prazo.

Ao combinar ambição com pragmatismo – e ao adotar caminhos complementares – podemos acelerar a implementação e envolver mais países.

Obrigado.

***

Speech by Minister João Paulo Capobianco at Session 2: “Accelerating Implementation to Close the Gaps” of the Petersberg Climate Dialogue 2026

Thank you, Chair.

Ladies and gentlemen,

The recent IRENA report reaffirms something we all recognize: accelerating renewable energy, electrification and storage is essential to strengthen energy security and reduce our dependence on fossil fuels.

Brazil fully supports this direction.

Currently, 94% of our electricity matrix and 47% of our energy matrix come from renewable sources.

However, real-world experience shows us that the energy transition will not succeed if it is designed as a single pathway.

Allow me to illustrate this with a concrete example from the transport sector.

Brazil is one of the countries that relies most heavily on public bus systems for urban mobility.

This makes decarbonizing buses a priority, but also a complex economic and social challenge.

Currently, an electric bus typically costs between US$ 300,000 and 500,000, almost three times more than a hybrid bus that combines electricity and sustainable biofuels.

In addition, electric buses require significant upfront investments in charging infrastructure and grid adaptation.

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If we were to convert entire bus fleets to fully electric systems in the short term, this would impose very high costs on public budgets, potentially slowing down deployment and limiting access to clean mobility.

By contrast, hybrid buses powered by sustainable biofuels, such as sugarcane ethanol or biodiesel, can deliver substantial emissions reductions immediately, at a significantly lower cost, and using existing infrastructure.

From a mitigation perspective, this translates into a very important metric: the cost per ton of CO₂ avoided.

In many cases, hybrid-biofuel solutions can achieve emissions reductions at a lower cost per ton in the short term, allowing governments to maximize positive climate impact with limited public resources.

This is particularly relevant for developing countries, where fiscal space is constrained and investment needs are high across multiple sectors.

We see this not as a trade-off, but as a complementary pathway.

Electrification will continue to expand – and must expand.

But in the short term, solutions that are cost-effective and scalable today can play a critical role in accelerating emissions reductions.

Colleagues,

This brings me to a final point: finance.

If we want to accelerate the transition globally, international financial institutions and climate funds must support a broader range of mitigation solutions, including those that deliver immediate results in different national contexts.

This includes:

  • scaling concessional finance for fleet renewal,

  • supporting infrastructure where needed,

  • and recognizing the role of sustainable biofuels and hybrid technologies in the near term.

By combining ambition with pragmatism – and by embracing complementary pathways – we can accelerate implementation and bring more countries along.

Thank you.

Assessoria Especial de Comunicação Social do MMA
[email protected]
(61) 2028-1227/1051

Acesse o Flickr do MMA 

Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia

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A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.

O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.

Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.

O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.

Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.

A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.

A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.

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Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.

Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.

A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.

Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.

No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.

Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.

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A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.

O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.

A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.

O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.

Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.

Fonte: Pensar Agro

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